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Não é um Típico Sonho de Verão

Março chegava quase ao seu fim, cedendo o seu lugar a Abril, quando o maestro convidado, Christoph von Dohnányi, conduziu a Orquestra Filarmónica de Nova York, num concerto composto de excertos da ópera The Bassarids, de Hans Werner Henze, e da Sinfonia N.º 9, de Frans Schubert.

Ao longo de cinco décadas repletas de sucesso, Christoph von Dohnányi teve vários contratos discográficos e construiu um repositório vasto em interpretações estelares, porém, a perfeição não é fácil de atingir, nem mesmo por génios musicais. As críticas mais comuns acusam-no de ser demasiado mental nas abordagens que faz às obras intemporais da música clássica, negligenciando a transmissão das emoções que são intrínsecas às peças que interpreta. Foi, portanto, uma agradável surpresa para os críticos constatar que a sua segunda semana na condução da Orquestra Filarmónica de Nova York foi composta por excertos da Sinfonia Pathétique de Tchaikovsky, a última composição que este compositor fez antes de falecer. A peça foi ainda construída recorrendo a excertos de (K)Ein Sommernachtstraum [“(Não) É um Sonho de Verão”], do russo Alfred Schnittke, de The Bassarids, do compositor Hans Werner, e a Sinfonia N.º 9, de Frans Schubert.

A ópera de Henze, escrita em 1964-65, é baseada na mitologia do deus grego Dionísio e do seu grupo de seguidoras – as Meneidas (ou, em alemão, Bassarids). Segundo este mito, um estranho, de seu nome Penteu, curioso por saber mais sobre este grupo, decide infiltrar-se nas Meneidas, para poder observar de perto as suas festividades repletas de álcool. Uma aventura que não termina bem para o enigmático estranho. Os excertos tocados no dia 22 de Março de 2012 (Adágio, Fugue e Maenad’s Dance) são, segundo o The Boston Globe, “uma reluzente e assombrosa meia hora musical, que deixa uma poderosa impressão no espectador, mesmo que não se tenha conhecimento prévio da assustadora alegoria presente no libreto.”

A Nona Sinfonia de Schubert, escrita em 1825-26, foi inspirada na espectacular sinfonia de  Beethoven com o mesmo número, que nunca foi executada enquanto o seu criador foi vivo, uma vez que fora considerada demasiado longa e de difícil de execução. Décadas depois, a obra foi encontrada por Robert Schumann, que, apercebendo-se da sua genialidade, apresentou-a a Felix Mendelssohn. Feliz acabaria por estreá-la em 1839. Schumann afirmou, durante os ensaios, que estava “no sétimo céu” ao ouvir a música pela primeira vez.

O espectáculo terminou com uma extraordinária actuação da Sinfonia Pathétique, de Tchaikovsky, uma das poucas peças com a qual o intensamente auto-crítico compositor se sentiu satisfeito. Dohnányi conduziu uma assombrosa e movimentada interpretação, que arrebatou o ouvinte, durante, aproximadamente, 50 minutos. Conseguindo, deste modo, fugir a um sentimentalismo exacerbado, sem se afastar da emoção que a peça necessitava para ganhar vida. A audiência agradeceu com uma ovação de pé, depois de assistir ao final do terceiro acto do Allegro. Segundo a opinião de alguns espectadores, as cordas tiveram uma sonoridade radiante, durante toda a actuação, atingindo o seu auge na conclusão do Adagio Lamentoso.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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