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Não é assim que se revitaliza uma Cidade

É certo e sabido que a Cidade do Porto é – para além de leal, mui nobre e Invicta – história viva. Todo e qualquer recanto do Porto tem uma história para contar tal é a quantidade de prédios históricos que irrompem pelos nossos olhos adentro. Da Ribeira à Foz, dos Aliados á Boavista, do Bolhão à Cordoaria e por aí adiante. Todo e qualquer recanto da Cidade Invicta têm mil e umas histórias para contar e quem por cá mora sabe bem o quanto estes cantos e recantos nos dizem.

Ora, sucedeu que na década de 90 do século passado deu-se a “grande fuga” para as cidades limítrofes da Invicta (Vila Nova de Gaia, Gondomar, Matosinhos, Maia, Rio Tinto, etc). Isto porque o então Presidente da Câmara Municipal do Porto na altura – Dr. Fernando Gomes – sob o pretexto das (necessárias e urgentes) grandes obras de modernização da Cidade não baixou a taxa do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) e os seus colegas Autarcas das Cidades aqui referidas fizeram precisamente o oposto o que fez com que muitos Portuenses passassem a ter no Porto o seu local de trabalho e nas outras Cidades em redor a sua habitação e espaço de lazer.

Dito de outra forma, o grosso do comércio que fazia da Baixa Portuense um espaço único no Mundo mudou-se de malas e bagagens para outras paragens pois a sua vasta clientela que dantes frequentava a Baixa e demais zonas históricas da Invicta fez o mesmo. Inclusive, durante anos a fio, não havia outra forma de vir ao Porto a não ser de carro ou de autocarro dado que as famosas estações de comboio que dantes atravessavam a Cidade do Porto deixaram de funcionar.

Em suma, o Porto passou a ser, durante muitos e largos anos, uma cidade cada vez mais vazia e degradada. Havia que encontrar uma solução. E o executivo de Rui Rio encontrou uma: fazer de uma parte da Baixa um enorme Bar. O resto ficou ao abandono na vã esperança de que aparecesse alguém que impedisse que o tempo acabasse por destruir aquilo que durante séculos fez (e faz parte) da Cidade (por exemplo o Mercado do Bolhão). E tal foi assim durante oito longos anos sempre com Rui Rio a tentar “apagar, de uma forma ou outra, a história da Cidade Invicta sob o pretexto de que não havia alternativa. Ou os privados “pegavam” naquilo ou então que ficasse ali a definhar até vir abaixo. Nem a chegada do metro mudou esta forma de se estar.

Seguiu-se o independente Rio Moreira na presidência da Câmara. Com ele veio uma tremenda “lufada de ar fresco” no que à Cultura diz respeito e, por arrasto, começou a tomar forma um pequeno esforço de recuperação da Cidade. Rui Moreira queria recuperar a Cidade mas não o fez, e fará, tendo em vista entregar o Porto aos Portuenses. Muito pelo contrário. Rui Moreira pretende antes fazer da Invicta uma espécie de Hotel gigantesco que marginaliza os seus concidadãos. Só assim se entende esta notícia publicada no Jornal de Notícias da qual destaco as seguintes partes:

“O antigo edifício do jornal “O Comércio do Porto”, na Avenida dos Aliados, foi vendido a um fundo imobiliário que irá transformar o histórico imóvel num prédio de habitação de luxo.

A sala de visitas da cidade também será, em breve, a casa de duas dezenas de famílias. Um fundo internacional adquiriu recentemente o edifício do BANIF no Porto e ali irá disponibilizar 20 fogos. Serão apartamentos exclusivos, apenas ao alcance de muito poucos. É que os preços de venda dificilmente ficarão abaixo dos quatro mil euros, o valor praticado nas zonas “prime” da Foz e de Nevogilde, mas metade do praticado na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Ou seja, para o Executivo de Rui Rio, o Porto só volta a ser o Porto que era antes do grande êxodo para as zonas limítrofes, transformando algumas partes da Cidade num enorme Bar, e para o de Rui Moreira, o Porto só se recupera, se o mesmo, se transformar num condomínio fechado reservado a Turistas, Vistos Gold e afins.

Não é assim que se revitaliza uma Cidade. Não é com o empurrar dos Portuenses para fora do Porto que o Porto voltará a ser a Capital do Norte.

Olhem para trás e vejam o que outros Autarcas fizeram no passado para que hoje em dia Gondomar. Vila Nova de Gaia, Matosinhos e outras sejam Cidades no verdadeiro sentido do termo.

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Pedro Silva

“É preciso provocar sistematicamente confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida.” (Salvador Dalí)

Crítico, opinativo e com mente aberta. É isto que caracteriza um Cronista.

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