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Nações Desunidas

Existe um sonho antigo da humanidade, tão presente e constante quanto o da nossa própria história, a vontade de unir os povos num propósito comum. Primeiro, tentámos através de grandes impérios, conquistados pela força, numa ânsia de poder, depois, as várias nações se dividiram em diversos estados, alguns unindo nações, outros em que estado e nação são um só. Face à impossibilidade de criar um só território, um só estado, os povos procuraram criar acordos de união, quer entre eles quer, nomeadamente no último século, em termos globais.

Disso foram exemplo a Sociedade das Nações, que estava talhada ao fracasso, e a sua substituta, que se mantém até hoje, as Nações Unidas. Hoje, as Nações Unidas são mais visíveis entre nós pela possibilidade de terem, pela primeira vez, um secretário-geral português, o ex-Primeiro-Ministro António Guterres. No entanto, o processo de eleição, que desta vez tem o compromisso de transparência por parte do organismo, tem-nos mostrado também algumas das suas fragilidades, nomeadamente pelo jogo político que esta organização encerra na sua estrutura.

Uma organização mundial com a dimensão e a força das Nações Unidas tem de acompanhar a evolução do mundo, da sua estrutura e das suas necessidades. Como grande conciliadora e fomentadora da evolução e da integração dos povos, ela precisa de ter uma estrutura adaptável e que, a todo o momento, seja o reflexo de um propósito comum para a Terra, não como um governo mundial, mas sim como um conciliador, um pedagogo, um orientador. Em tempos difíceis como os que vivemos, onde o medo, a guerra, a fome, as questões ambientais e a preservação do nosso meio ambiente são tópicos tão fundamentais e que vão definir muito de quem seremos como humanidade nas próximas décadas, uma organização como as Nações Unidas pode ser um ponto central de ajuste, de resolução e de fomento para um mundo melhor.

No entanto, a forma como está estruturada na sua base, nomeadamente em termos de organização de poder, é a mesma desde a fundação, com um absurdo poder de veto por parte de cinco países, em termos do Conselho de Segurança, resultante duma guerra que terminou há 71 anos. O mundo mudou, os países derrotados da Segunda Guerra Mundial já não são os mesmos, não têm as mesmas condições políticas e económicas, assim como os países que constituem os membros permanentes do conselho, com um poder extraordinário, também não são os mesmos, muito pelo contrário.

O mundo mudou, mas a Organização das Nações Unidas parou no tempo, fomentando um conflito político interno desnecessário, repetindo, de forma diferente, os erros do passado, a discriminação, a diminuição, a concretização de países de primeira e de segunda, perpetuando uma ideia de organização geopolítica que não faz sentido num mundo que tem de ser mais unido e que foi, na verdade, criado pelo facto de se manterem outros erros de tempos distantes, uma divisão do mundo que é irreal e irresponsável.

Já não vivemos nos tempos dos descobrimentos, em que Portugal e Espanha dividiram o mundo em dois, nem sequer nos tempos da Guerra Fria, com a divisão do mundo também em duas partes, entre Estados Unidos da América e União Soviética, vivemos num mundo multicultural, multinacional, mais unido e integrado que nunca, nos mais diversos aspectos, onde os jogos políticos, financeiros e económicos, geridos pelo medo, pela arrogância, pela ganância e pelo poder, têm sido os grandes potenciadores de desigualdades sem sentido.

Vivemos um mundo extremado, como já muitas vezes referi, que nos leva a atitudes irreflectidas e sem sentido. O próprio processo de eleição do secretário-geral está a mostrar-nos essa realidade, com jogos políticos de bastidores, com desculpas baseadas numa suposta rotatividade, no facto duma espécie de necessidade de encaixar uma igualdade em substituição de competências, de conhecimento, de experiência.

O grande desafio das Nações Unidas, nestes próximos anos, será o de não permitir que o mundo volte a colapsar pelos egoísmos, pelos nacionalismos. No entanto, este é o mundo que vemos crescer em cada dia, onde as desigualdades promovem os extremismos, onde a ganância substitui o potenciar em prol de um bem comum, onde o jogo substitui o diálogo e a negociação, a diplomacia e o bom-senso.

Os próximos anos serão cruciais para a transformação da humanidade, acredito, e para a sustentabilidade dos nossos recursos na Terra, mas a verdade é que tal não pode ser feito, como já várias vezes o disse também, de cima para baixo, das grandes organizações para o indivíduo, mas sim no sentido inverso, pois sem mudar a mentalidade individual, dificilmente mudará o todo. Se, entre nós, somos desunidos, discriminando o vizinho, invejando-o, falando da vida alheia, criticando sem sentido e julgando, como podemos exigir que uma organização una os países que, no fundo, são o reflexo dos seus próprios habitantes?

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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