Negócios

Mudar de trabalho, sem mudar de sítio

Sorte ou azar, talento ou submissão são chaves de sucesso profissional? Sendo ou não, são certamente alguns dos agentes que determinam o nosso percurso. Somos nós os principais responsáveis pelas nossas motivações e pelo nosso crescimento pessoal e profissional. Se não nos sentirmos confiantes e convictos de que o nosso melhor tem de ser dado, então, a amargura, o desconforto e a negação vão ser os nossos principais inimigos, lado a lado, no nosso dia-a-dia nine to five.

Achamos que as oito horas dos nossos cinco dias de trabalho são um infortúnio e que aquele ramo, aquela área, aquela empresa, aqueles colegas não são os indicados, ou os que mais desejamos. Estes são os pensamentos que nós, enquanto trabalhadores e do lado de cá (o nosso), temos, mas, por outro lado, pode não ser este cenário negro que pintamos. Podemos estar constantemente a procurar argumentos que nos encorajem a perceber que o real problema não está no que nos rodeia, mas sim em nós.

Temos de conseguir olhar para o que nos marca da forma mais positiva hoje, mais do que olhámos ontem e amanhã, mais do que o dia anterior. Os constantes pensamentos “não gosto do trabalho que faço”, “o meu chefe é incompetente”, ou “não gosto daquele colega” não nos levam a bom porto e antes cavalgam para um degrau insustentável para quem não consegue travar a negatividade. Porém, factores como a economia, os desentendimentos familiares, ou, até mesmo, a limitação de oportunidades na nossa área profissional, contribuem para a construção de uma ideia possivelmente errada e que nos alimente a noção que a culpa não está em nós.

Gretchen Spreitze, professor da Universidade de Michigan, nos E.U.A, revela que “as pessoas ficam descontentes, quando o trabalho não tem sentido ou propósito, oferece poucas oportunidades de aprendizagem, ou as deixa empobrecidas ao fim do dia.” Garante que o descontentamento não tem de ser alimentado e que, ou a pessoa sai, ou fica. “A procura e mudança de emprego não é uma questão trivial. Tanto pode reflectir custos no impulso de carreira, como ganhos”, diz Amy Wrzesniewski, professor americano. O interesse é conseguir reunir o maior número de pontos de satisfação e rejeitar os negativos.

Especialistas reconhecem que devemos, cada vez mais, olhar para nós mesmos. Procurar um ponto de equilíbrio entre a satisfação em trabalhar e a disposição para o fazer é a maior ajuda que podemos encontrar para nós próprios, sobretudo se formos pessoas insatisfeitas por natureza. Existe sempre uma dualidade de posições: tanto as que têm uma atitude mais sisuda e de constante aura proibitiva, quanto as que mostram um rasgar de sorrisos que tornam o mais pequeno trabalho, uma glória.

Spreitze aconselha atitudes positivas e, sobretudo, a procura incessante por todos os pontos satisfatórios dos colegas, da empresa e do próprio trabalho para melhorar o agrado. Já Barsade, em concordância, acrescenta que as diversas e diferentes lentes pelas quais vamos olhar dependem das tarefas que desempenhamos todos os dias. Dá o exemplo de uma doméstica para ressalvar que também nesta profissão nos podemos sentir úteis, podendo ser uma rampa de lançamento a longo prazo. Em enfermagem, apesar de ser uma profissão desgastante, torna-se reconfortante pensar que, no fim dos turnos, ajudámos alguém a recuperar mais um bocado, ou totalmente. Devemos mostrar gratidão e compaixão e, fora do horário laboral, passarmos algum tempo com colegas com quem temos ligações. Permite-nos gozar de efeitos muito mais positivos, sobretudo aos níveis social e fisiológico.

Os especialistas dizem-nos que devemos alterar o que fazemos, através das responsabilidades profissionais. “Algumas pessoas fazem mudanças radicais e outros fazem pequenas mudanças”, garantem Spreitze e Wrzesniewski, como forma de redesenhar as 8 horas de um dia de trabalho. Devemos mudar a forma como interagimos e com quem o fazemos como forma de criar energia e satisfação. Pode não ser a cura de todos os males, mas é uma iniciativa que tem de ser criada por quem não se sente confortável. Temos por hábito dizer que “quem está mal que se mude” e é uma realidade aplicada para qualquer caso. Neste, pode-nos bastar mudar a forma como lidamos com os nossos elos de ligação.

Resistir à constante reclamação é um passo gigante de cautela. “Queixar-se sobre o seu trabalho é uma receita para problemas. Nunca sabe como as reclamações podem ser partilhadas entre outras pessoas da organização”, garante Spreitze. Manter todas as opções em aberto é outra forma de nos tranquilizarmos quanto à probabilidade de sermos contactados por outra empresa. Devemo-nos certificar, por exemplo, que o nosso currículo está actualizado.

Thomas Heffner é engenheiro no Laboratório de Física Aplicada da Universidade de Johns Hopkins e integrou, há oito anos, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América. Abraçou um trabalho puramente técnico que não se enquadrava na sua perspectiva de “emprego de sonho”. Tornou-se numa pessoa ainda mais desmotivada quando, cinco anos depois, passou a gerente de projecto.

Heffner tinha particular interesse em interagir com as pessoas e o trabalho que desenvolvia era isolado e individual. A hipótese de deitar as cartas à mesa e sair era rival das condicionantes pessoais, que não o permitiam. Optou por remediar o cenário com aulas de psicologia organizacional e engordar o interesse nas tarefas. Propôs à empresa o desenvolvimento de um curso de psicologia positiva e, pouco tempo depois, já estava a ministrá-lo. “Antes de começar com estas mudanças, a minha satisfação no trabalho era provavelmente de 3 [numa escala de 1-10], mas agora é de 7”, diz o engenheiro. Acredita que pode atingir a escala máxima se continuar a fazer o que gosta.

Assim, como Heffner, também nós, enquanto trabalhadores, devemos tentar atingir a nossa própria motivação e zelar pelo nosso bem-estar, tanto pessoal, quanto profissional, potenciado o espírito positivo que todos nós, no fundo, temos.

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Rita Nunes Ferreira

Licenciada em Comunicação Social e pós-graduada em Estudos Europeus nasci neste mundo onde tudo/quase tudo se traduz em formas de comunicar. Tenho uma paixão nata pela escrita e um soberbo gosto pelo jornalismo em áreas diversas – lifestyle, sociedade, direitos humanos, política, assuntos europeus. Tendo sido ou não talhada para esta azáfama constante não existe o que possa demover. Todos os dias se justifica acordar e escrever mais um “bocado”.

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