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Michael, “The Mann”

Dizem que a sua direcção e guião são de mestres e que a sua edição também é equivalente a este tom. Em registo de genialidade, o brilhante dos detalhes é realçado pela sua assinatura. Filma a mesma cena várias vezes e de diferentes ângulos, opera, ele próprio, a câmara e é através das suas próprias mãos que os filmes são editados. Do cinema para os dvds, há cenas que são cortadas e, por isso, a versão que os espectadores levam para casa é sempre diferente… e sempre genial. Por isso mesmo, é fácil imaginar o nome por detrás desta descrição (ainda pequena): Michael Mann, o jovem que soube que queria ser director de cinema depois de ter assistido ao filme de Kurbick, “Dr. Strangelove”.

Estranheza à parte, há amor garantido nas suas obras. Da London’s International Film School para o mundo laboral, Michael Mann entregou-se aos filmes de acção e de crime a partir dos anos 70. Conhecedor nato de técnicas policiais e de criminalidade, são frequentes as vezes em que Mann gosta de trabalhar com ex-militares, polícias, ou ladrões. O lado humano do filme conjuga-se com o lado psicológico e a história passa a ser uma porta aberta que convida os espectadores a ingressar nas suas aventuras cinematográficas. A partir dos anos 80, começou a aperfeiçoar o seu estilo e criou uma escola que o segue com atenção. Fonte de inspiração para outros realizadores, Mann nem sempre é um sucesso de bilheteira. Os filmes com mais de duas horas são um dos “defeitos” apontados, em contrapartida com o seu lugar no pódio dos melhores realizadores. Em dias de estreia, há uma dimensão gigante que se constrói, não só pela curiosidade da obra, como também porque há, quase sempre, intervalos de cerca de três anos nas suas obras.

Seja de amor, ou de ódio, Maan cria sempre uma espécie de atrito nos espectadores. Controverso e empírico, o despertar de emoções é garantido, durante os muitos minutos de filme. Cuidadoso no guião, Mann faz sempre uma investigação elaborada da história e dos personagens. Nesta busca contínua, as linhas da história são contadas a partir do coração, que se transforma num criador e num receptor. A forma afectiva como os sons funcionam em paralelo com a imagem, quase sempre com tendência para o azul, cria uma relação com o público que não é fácil de desvincular. Por isso, acaba por ser uma forma quase-documental de transcrever do papel para o ecrã as suas histórias.

A arte de editar filmes passa pelo conhecimento técnico, mas também empírico e Mann é a prova disso, ao responder na perfeição a um dos maiores desafios do realizador: contar a história de uma forma quase real. A intensidade da edição cria ambientes fortes e não há tempo para adormecer. O filme Insider é um dos exemplos mais fiéis e mais profundos ao estilo de Mann. A experiência de 150 minutos tem repercussões no espectador, pela forma como se criam laços com os personagens, o ambiente do filme e a narrativa realista transporta o público para o ecrã e qualquer um de nós pode ser o protagonista da história. Medidos os níveis de qualidade, há tempo para medir o nível de intensidade que é igualmente grande.

Em matéria de peculiaridades, Mann é fiel à noite, como parte do dia em que, quase sempre, se desenrolam as cenas mais importantes. Quanto a armas, usa quase sempre o mesmo modelo de pistola e a fidelidade também se estende à arquitectura, uma vez que é admirador de Art Deco. É fã da intimidade criativa que se cria durante a rodagem dos filmes e garante que gosta de ser perfeccionista, até na escolha da equipa de filmagens, que considera a sua segunda família. A democracia e a sociedade são muitas vezes os agentes invisíveis do filme, como elemento criticado. Entre denúncias e exploração de problemas actuais, Mann é adepto de impulsos realistas, transformados numa palete audiovisual experimental.

Dentro desta história e da biografia de Mann, existe uma combinação inteligente de vários elementos, que oscilam entre o silêncio e a acção e que conduz as histórias de forma cuidada. O resultado de toda esta soma é a versatilidade e o carimbo de génio de realizador, dentro e fora de Insider.

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Ana Guedes

Entre o Porto e Leiria, estou sempre de malas feitas para partir, para ficar ou para conhecer. Apaixonada por letras, cultura, fotografia e o mundo, tenho como fio condutor vital as histórias: as que ouço e quero contar, as que vivo e quero escrever

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