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Meu filho, meu mestre!

O que nos ensinam os filhos.

Tenho um filho de dois anos, tenho um filho que é alegre e destemido, tenho um filho que é uma força da natureza. Quando olho para ele, viajo ao meu tempo de infância, encontro-me com a minha criança, também ela alegre e destemida, também ela uma força da natureza.

Tinha imenso medo em ser mãe, por várias razões, mas o principal motivo o mais secreto motivo de todos é que uma parte minha sabia que uma criança iria trazer à superfície dores que trazia enterradas no mais fundo de mim, pensava eu…

Desde que o meu filho nasceu que comecei a ver as feridas emocionais que carregava. Já tinha tocado nelas, de forma mais ligeira claro, mas não eram novidades para mim. Conhecia a minha ferida de abandono e de rejeição, já tinham surgido noutros momentos da vida em que foram activadas para que eu as visse e curasse.

Agora percebo que o meu maior medo para além do contacto com as dores era o medo de ver as sombras em mim. As feridas perto das sombras são mais confortáveis, aligeirando um pouco a coisa.

Agora as sombras! As sombras são uma história bastante diferente, para mim claro.

Quem me diga que gosta de ver as sombras que tem dentro, digo que mente. Se me disserem que é uma tremenda oportunidade de crescimento e de uma certa forma uma bênção, eu aceito. Agora, ninguém gosta de tirar esqueletos do armário!

Quando o meu filho tinha cerca de um ano surgiu a sombra do sacrifício, eu que nem sou dada a isso, achava eu, dei por mim a anular-me, a sacrificar-me, a apagar a minha voz… dei por mim a comportar-me e agir como a minha mãe. A minha mãe que sempre apontei o dedo por se anular, sacrificar. Irónico não é! Ver esta sombra foi um dos momentos mais difíceis e dos mais transformadores que tive.

Pensava que tinha ficado por aqui, mas estes processos são como descascar uma cebola. Camadas e mais camadas, tira-se uma e fica outra pronta para surgir e vir à superfície.

A outra “camada” sombra surgiu quando o meu filho tinha dois anos. Esta sombra foi até agora a mais difícil de processar. Ela já se andava a manifestar ligeiramente, mas quando o meu filho começou de manhã a não querer mudar-se, vestir-se, a ir para a cadeirinha do carro e a desafiar-me em qualquer momento que fosse uma possibilidade para soltar a minha sombra mais aterradora, a sombra irrompeu das profundezas com toda a sua força.

De repente surgiu de dentro de mim uma raiva e um medo enorme por aquele ser que parecia que me controlava e que no momento em que sentia o meu temor me desafiava. O meu filho estava a espelhar uma energia que habitava dentro de mim, ele estava a dizer-me com o seu comportamento:

“Mãe olha o que está dentro de ti!” “Vê!!” “Acorda”.

Senti-me uma péssima mãe. Aqui percebi que este era o meu maior medo. O medo de repetir os padrões dos meus pais. E naqueles momentos de manhã eu estava a ser como o meu pai, estava a espelhar a energia dele, os comportamentos dele sobretudo com o meu irmão, que ficaram gravados em mim. A energia do meu filho estava a remeter-me para a energia da minha própria criança e do que ela sentia diante da presença imponente e assustadora do meu pai.

Disse para mim mesma:

 Quero fazer diferente. Quero estar em relação com o meu filho. Quero que ele se sinta seguro na minha presença. Quero ser amiga, porto seguro e confidente. Eu sei que este foi o legado que me foi deixado pelos meus pais mas agora eu escolho interromper por eles um padrão energético geracional de sacrifício e medo.

A partir desse momento, como num passe de magia, tudo mudou nas nossas manhãs, acabaram-se as guerras para tudo e mais alguma coisa, há tempo para brincar, para comer, para vestir, sem pressas, zangas, stresses e ansiedades. Voltei a sentir-me em relação com o meu filho e ele voltou à sua energia natural.

As crianças até uma certa idade estão muito mais conectadas que os adultos, são mais sábias pois estão ligadas ao seu sentir e ao dos outros e muitas vezes, quase sempre, o seu comportamento reflete isso.

Muitas das vezes medicamos as nossas crianças para reduzir um comportamento ou medicamo-nos a nós pois é mais confortável tomar algo ou fazer algo que nos anestesie da dor, do stress ou da ansiedade que possamos estar a sentir. Percebo que para alguns seja uma solução. Olhar para as nossas dores e sombras é muito desafiante, mas digo-vos que nelas residem a oportunidade de entrar em contacto com a origem de tudo e é na origem que está a resposta e a oportunidade de transformação.

“O estímulo para o crescimento da lagosta é sentir-se desconfortável”

Se olharmos para a natureza qualquer processo de transformação implica uma mudança, uma borboleta passa por imensas mudanças até se transformar em borboleta, até passar de um ser que rasteja para um ser que voa.

Qualquer processo de transformação é um processo de crescimento e libertação e implica mudanças. Mas para mudar primeiro há que se ganhar consciência do que se é para depois se saber qual o potencial da transformação, para se saber o que se quer.

A lagarta dentro do casulo duvidará do seu processo de mudança? Dir-me-ão: A lagarta está num nível de consciência que nem sequer “pensa” nos seus próprios processos.

Provavelmente ai reside o gap entre nós e a lagarta, nós estamos em geral desconectados do nosso ser, racionalizamos e tememos os nossos próprios processos em vez de os abraçar. Tememos tanto ver a nossa verdade e abraçar a mudança que nos privamos de poder voar.

Por isso na nossa vida surgem mestres disfarçados de filhos, de amigos, de maridos, de mulheres, de sogras, etc. Surgem mestres que trazem as sombras à luz para que as vejamos e as transmutemos se assim quisermos.

Dedico este texto ao meu filho, o maior professor, o maior mestre que já tive na vida.

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Teresa Vilhena

Sou uma "peregrina exploradora" na área do desenvolvimento pesssoal. Ser o mais autêntica possível, nos diferentes planos da minha vida, é o meu maior propósito, pois acredito ser essa a chave para a minha liberdade individual. Deste meu caminho de reconhecimento de valor e de identidade criei o projecto SuperPower, que tem por missão, inspirar e apoiar outros a encontrem e aceitarem os seus superpoderes. Dos meus superpoderes constam uma gargalhada explosiva, um sorriso sincero e um olhar sem filtros para o outro. Desenvolvo a minha actividade profissional enquanto orientadora pessoal e coach e o trabalho que desenvolvo, seja individualmente ou em workshops, tem sempre por objectivo alcançar a "melhor versão" de cada um tendo como fundo o lema " Voa mais alto, mais longe, com SUPERPOWER".

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