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Mestria de três cordas em 92 anos de vida

A morte de Ravi Shankar já foi notícia e a sua biografia foi escrita em todos esses obituários. Para lá de todos esses milhares de conteúdos informativos que relatam o acontecimento, importa lembrar quem foi o pai da música indiana.

Três cordas não chegam para estender todos os feitos que Ravi atingiu, mas foi com três cordas que conquistou o mundo com o seu sitar. Neste estendal musical, a Índia exportou-se para todos os cantos do mundo e Ravi Shankar apadrinhou o hipnotismo das cordas. Para lá de todas as suas funções oficiais, como músico e professor, a sua conquista do mundo com a música também o tornou embaixador da cultura indiana.

Do estudo da música aos palcos, Shankar e Woodstock combinaram na perfeição, para atingir um dos momentos mais vibrantes da sua carreira. Em 1956, estreou-se na América e cerca de dez anos depois criou laços com George Harrison, fez duetos com Yehudi Menuhin, colaborou com John McLaughlin e tocou ao lado de John Coltrane, Philip Glass e Eric Clapton.

Casou-se com duas mulheres, teve quatro filhos e apadrinhou a filosofia indiana, que transportou sempre consigo às costas. Foi feroz nessa abordagem, rigoroso na melodia e autêntico no riso, que, ao natural, lhe escapava, durante os espectáculos. De pernas cruzadas e sitar ao colo, juntou multidões e reproduziu mais de 60 álbuns. Hoje é lembrado como pai das celebrações da Índia pelos quatro cantos do mundo, pela identidade oriental que exportou e pelos arrepios que provocou nas peles de cores diferentes da sua.

As artes sempre correram no seu sangue: começou a dançar aos 10 anos, com o irmão mais velho e aos 18 anos iniciou o estudo do sítar, numa busca impreterível pela pureza e harmonia do instrumento. A escolha do mestre foi um desafio cuja barreira foi ultrapassada com o compromisso com o rigoroso Baba Allaudin Khan. Shankar marcou momentos únicos como a morte de Gandhi, depois da qual tocou uma música numa rádio indiana, foi membro do Parlamento, durante seis anos, recebeu três Grammys, durante a sua carreira, e a sua música foi lembrada como o ritmo dos búfalos asiáticos enterrados na lama, pela audiência pedrada do Woodstock.

Da Índia a Inglaterra, ou mesmo aos Estados Unidos, muitos foram os governos que o reconheceram pelo talento e mestria. O som do sitar ecoou em milhares de casas por todo o mundo e o ocidente ouvia-o numa harmonia que fazia lembrar uma viagem até aos anos 60. Ravi Shankar marcou a compasso de muitas vidas e despertou sensibilidades, ao construir uma ponte entre o Ocidente e o Oriente. Subiu a palco pela última vez a 4 de Novembro de 2012, já numa condição de coração frágil, causa pela qual acabaria por falecer.

A sua morte representa um pôr do sol indiano que leva consigo o brilho da música, o cariz peculiar da tradição e a forma única como homenageou e foi homenagem à cultura hindu. Fica a noite, onde tocarão todos os refrões mágicos do sitar que envolvem de misticismo o ambiente que atravessam.

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Ana Guedes

Entre o Porto e Leiria, estou sempre de malas feitas para partir, para ficar ou para conhecer. Apaixonada por letras, cultura, fotografia e o mundo, tenho como fio condutor vital as histórias: as que ouço e quero contar, as que vivo e quero escrever

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