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Merkel: Partir para Ficar

Há alguns anos, o programa ‘5 para a meia noite’ lançou um vox pop em que questionava os jovens portugueses sobre temas variados da política nacional. Perguntas simples como o nome do Chefe de Estado envolveram alguma hesitação nas respostas. Hoje é sabido que, se a iniciativa fosse repetida na Alemanha, não havia um único jovem que não soubesse o nome da Chanceler do país.

Este fim de semana, assistimos a mais um processo eleitoral na Europa. Foi a vez da grande potência alemã chamar os seus constituintes às mesas de voto. Ao contrário das eleições francesas, o impacto não foi tão significativo.

Porquê?

Na sua essência, as eleições alemãs foram aborrecidas.

Com a promessa de um rasgo de nova energia no Budenstag, Martin Schulz apresentou-se como candidato no final de 2015. Havia esperança para uma nova consciência social europeia a partir da Alemanha com esta apresentação.

Esta imagem começou a ficar em segundo plano com as eleições regionais alemãs. Merkel, com a sua popularidade em decadência, conseguiu demonstrar a força da CDU/CSU. Ainda que estas eleições sejam de natureza distinta, não deixaram de ser um barómetro dececionante para o social-democrata.

Em seguida, o candidato maravilha em França traz uma nova ideia de Europa que Schulz não consegue acompanhar. Macron é jovem, inovador na sua abordagem e apresenta uma alternativa ao sistema partidário francês. Ao contrário de Schulz, Macron não tem muito a perder, se arriscar no processo eleitoral, e o empreendimento acabou por ser vantajoso.

Schulz, por outro lado, tem o peso de fazer parte do grupo mais antigo do sistema partidário alemão.

No debate no início do mês, a prestação de Schulz fica vincada por uma falta de alternativa. A proximidade das suas visões com o partido de Angela Merkel demonstra o lado prático de grande coligação na mente do alemão.

E assim, voltamos a nossa atenção para Merkel ou, como é mais conhecida no Twitter, Queen of Europe. Não é uma tarefa fácil falar de Angela Merkel, pois, tal como qualquer ser político, Angela Merkel evolui, reinventa-se e a opinião pública vai mudando a percepção da líder.

A Ministra tímida do gabinete de Kohl, com um aspeto provincial e com o estigma da sua origem da Alemanha de Leste, foi ganhando importância. Surpreendeu a elite política alemã por demonstrar como passar despercebida tem grandes vantagens neste meio.

Merkel ganha um especial carinho em Portugal com a crise económica. A nova ‘dama de ferro’, propulsora da austeridade, é profundamente impopular no nosso país. Espalha esta magia um pouco por toda a Europa do Sul. Torna-se tóxica no contacto com qualquer líder político destes países, no entanto imprescindível na resolução da crise económica.

Esta posição valeu-lhe a simpatia do eleitorado alemão e o seu nome ficará para a história por motivos menos solidários.

Porém, esta é apenas uma Merkel. Para quem esteve atento à crise dos refugiados sabe bem que outra Merkel entrou em jogo. Humanista, demonstrou como a Alemanha tem uma responsabilidade histórica de acolher o maior número de refugiados possível, aliviando a pressão sobre os Estados da Europa do Sul e servindo de exemplo.

Como não podia deixar de ser, a sua imagem perante o eleitorado mudou e Merkel desce na popularidade. No entanto, acrescenta outra dimensão histórica à sua pátria.

Perto das eleições, tal como decorreu nos Países Baixos, Angela apercebe-se da importância de jogar com o papel das comunidades no país e a possível influência externa. É inegável o impacto que as comunidades turcas têm no posicionamento político e nas interações sociais e Merkel, tal como Rutte, assume uma posição no debate no início de Setembro.

Ainda que a medo comece a demonstrar a sua insatisfação perante as ações do governo turco, acaba por rejeitar uma possível acessão do país à UE. Merkel arrisca e marca no 24 de Setembro.

Esta tensão é também entendida por outros grupos políticos. E talvez este seja o ponto mais inovador nas eleições alemãs: a presença da extrema-direita no Budenstag, AfD. A consciência do passado histórico do país faz-nos recear a emergência destes partidos, apesar de ser um fenómeno que se assiste um pouco por toda a Europa.

A falta de coesão da AfD fica comprovada com a demissão de uma deputada poucas horas depois de ser eleita.

Para terminar este capítulo, Merkel reinventa-se uma vez mais: assume-se agora como a defensora da democracia. A sua missão é fazer com que os alemães não tenham que votar mais na extrema-direita. Quanto à formação de governo, será um processo demorado que varia entre a formação de mais uma grande coligação ou o apoio nos verdes e no FDP.

Lembram-se do vox pop do início? Pela longevidade da líder não haverá português que não saiba o nome da Chanceler alemã.

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Pedro Moniz

Pedro, 22 anos, europeísta. Ser pensante em full-time, com muitas perguntas em cima da mesa. Com valores e ideais bem definidos, a apaixonar-se por novas ideias.

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