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Memórias fragmentadas, parte I

O chiar triste da porta de entrada é um grito que revela anos de um abandono testemunhado apenas pelas camadas de pó caídas em cada canto da velha casa. É um grito de anos sentidos em lágrimas que não ousou atemorizar aquela criança parada na porta, de mão dada com a sua mãe. Alguns segundos bastaram para os olhos de ambos se habituarem à luz ténue, aqui e ali entre-cortada por finos feixes de sol que escapavam à ditadura das cortinas e persianas. A criança, o Matias, olhou para a sua mãe. Ela rodou o olhar para cada canto que conseguia ver da entrada e olhou o passado.

Uma brisa fria penetrou Matias e ele agarrou forte a mão da sua mãe num gesto quase involuntário. Ela retribuiu com um sorriso, convidando-o a nada temer. Logo deu dois passos penetrando o interior da casa e mostrando-lhe que era seguro. Aos poucos convenceu-se disso e começou a substituir os receios iniciais por uma saudável curiosidade. A mãe continuou em procura dos seus próprios pensamentos e entrou na sala. Foi afastando as velhas cortinas iluminando a casa tentando em vão restituir-lhe vida. Largou a mão de Matias quando este deixou-se ficar para trás, dando os seus curtos passos da jovem idade na direcção de molduras de vidro fusco. Observou-as e viu pessoas que desconhecia mas que estranhamente lhe eram familiares. Uma criança numas, adultos noutras, meninos, meninas, todos sem cor, empalidecidos num cinzento monocromático próprio de tempos que ele não entendia. Todos olhavam para si e Matias a todos fitou depois passar a manga pelo vidro, afastando o pó como quem abre uma porta para o passado.

Reparou que a sua mãe já não estava com ele naquela sala mas não se preocupou. Ouvia o barulho da madeira a ranger. Eram gemidos de vozes distantes querendo ressuscitar para uma vida que havia parado há muito no tempo. Cada tábua denunciava onde estava a mãe de Matias e assim ele deixou-se ficar, dialogando com as pessoas que o fitavam em cada pequeno rectângulo. Uma havia que lhe gritava mais alto e ele deu-lhe maior atenção. Percorreu todas a molduras daquela sala, e do corredor, do escritório, de todas os espaços por onde quase hipnotizado se deixou ir. Era uma mulher jovem, bela, de cabelo negro como liso, olhar sorridente e apaziguador. Ora surgia sozinha, depois com um homem alto de pose estática e vil, noutras de mão dada maternalmente com uma menina que parecia ter a sua idade.

Quis procurar a sua mãe e perguntar-lhe quem era aquela mulher, o que sabia daquela menina, onde estavam agora. Eram tantas as perguntas. Sabia que a mãe estava no cimo das escadas, abrindo portas e gavetas, sons banais. Por momentos pensou em ir ter com ela mas naquele momento sentia-se melhor naquele pequeno mundo com as pessoas do passado que acabara de conhecer. Quedou-se num cadeirão empoeirado da grande sala. Retirou dos seus lugares quantas molduras conseguiu com as suas pequeninas mãos de garoto. Trepou a uma cadeira para chegar a mais outras que se fixavam nas paredes. Foi colocando-as numa mesinha de pó. Do piso de cima, o silêncio da sua mãe. Arrastou a mesinha para junto do cadeirão, sentou-se na beira balançando para a frente e para trás sempre que queria chegar a uma nova moldura. Foi seleccionando-as e deixou de fora todas aquelas em que não aparecia a mulher de cabelo negro, igual ao da sua mãe, nem a menina sua protegida.

Observou-as de novo e ganhou-lhes empatia. Começou a dialogar com elas, tentou ouvi-las e fazer-se ouvir. Ouviu-as gritar para si e depois seguiu-se um estrondo enorme. Um estalido metálico, um golpe fulminante que ecoou pela casa e por toda a sua vida. Estarreceu sem saber o que era envolto num curto e profundo silêncio, uma moldura na mão que se tingiu de sangue aos seus olhos inocentes. Permaneceu imóvel quando a porta bateu violentamente e vidros se partiram à passagem apressada e desesperada do seu pai e tio. Ouviu-os correrem pelas escadas acima subindo a um fim inevitável que tentaram em vão ainda deter.

Hoje Matias, a viver os seus cinquenta anos, ainda olha para as fotos na parede enquanto chora a sua mãe prostrada numa grande cama cinzenta envolta num mar de vermelho sangue, a única coisa com vida que viu naquele quarto.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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