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Melhores 10 Filmes de 2016

Da comédia, à animação, ao drama familiar, à acção uma lista dos 10 melhores filmes de 2016 até agora, consoante as estreias nas salas de cinema portuguesas até 16 de Junho. 

10 – As Memórias de Marnie, de Hiromasa Yonebayashi (em DVD)

Baseado num livro publicado em 1967 pela romancista britânica Joan G. Robinson, Memórias de Marnie conta a história de uma jovem solitária de 12 anos, Anna (Sara Takatsuki), que devido a problemas respiratórias é enviada pelos seus tutores para a pequena cidade de Kushiro, situada à beira-mar numa província do Japão. Lá, e para recuperar da sua débil saúde, conhece uma misteriosa rapariga com aproximadamente a mesma idade de nome Marnie (Kasumi Arimura) com quem traça uma amizade muito forte.

Aquele que era apontado, até The Red Turtle, como o derradeiro filme do Estúdio Ghibli foi nomeado ao Óscar de Melhor Filme de Animação e destaca-se claramente pelas maravilhas de um mundo criado totalmente em 2D, um mimo tendo em conta o domínio do digital no cinema hollywoodesco. Cada uma das imagens de As Memórias de Marnie parece saída de um quadro naturalista do século XIX, transmitindo a dor, a alegria, a melancolia e todo esse conjunto diversificado de emoções da protagonista. Inclusive, a rapariga reflecte, alguns dos adolescentes solitários que encontramos hoje em dia, que têm pensamentos que precisam de ser partilhados, servindo o cinema aqui como chamada de atenção, e o espectador como ouvinte dos mesmos.

9 – Sing Street, de John Carney (nos cinemas)

Se em Num Mesmo Tom e Num Outro Tom, John Carney já fazia da música o modo de vida das personagens principais, em Sing Street a música serve como refúgio à tensão familiar. Conor (Ferdia Walsh-Peelo) é um jovem de 15 anos que acorda todos os dias com os gritos da mãe e do pai, cansados um do outro, numa Irlanda onde o divórcio é ilegal. Quando conhece uma rapariga, Conor tentará conquista-la, iniciando a sua viagem por um mundo de descobertas musicais.

Sing Street, claramente um dos feel good movies para o Verão, retrata uma época (os anos 80 da eclosão dos videoclipes da MTV), onde ninguém parece ser capaz de romper com convenções, preferindo modelos tradicionais politicamente corretos e estereotipados. À excepção de um grupo de miúdos que usa maquilhagem, que pinta o cabelo, que usa roupas bem ao estilo de David Bowie, esquecendo, finalmente, o que os outros pensam, só sendo eles próprios. Além da fácil empatia gerada com as personagens, Sing Street mescla, com uma qualidade cativante, a música com as sensações de Conor, similarmente desabrochadas no espectador. Aliás, a certo ponto das nossas vidas, também questionámos, duvidámos, tal como este rapaz, que quer sobretudo sonhar, arriscar e vencer.

8 – O Caso Spotlight, de Tom McCarthy (em DVD e Blu-ray)

Baseado em factos verídicos, este filme, vencedor do Óscar de Melhor Filme no final do passado mês de Fevereiro, é uma incrível viagem ao mundo do jornalismo de investigação e a um dos maiores escândalos dos últimos tempos, ainda com repercussões na sociedade civil: os abusos sexuais a menores por parte de alguns membros da Igreja Católica de Boston (e que, na verdade, revelar-se-ia abrangente a quase todos os países do mundo).

Sublime na maneira como prefere organizar a sua história, sem cair em despropositados mecanismos de uma estilística mais ou menos sensacionalista, O Caso Spotlight é um reflexo do modelo de construção narrativa de outros filmes do género, em especial de Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, desde os primeiros instantes até ao momento de publicação da notícia. Valem as interpretações dos actores, todos eles secundários (atente às de Mark Ruffalo e de Rachel McAdams), e a tentativa dos mesmos em criar personagens reais persistentes, ao mesmo tempo que se afasta dos propósitos do cinema mainstream, para contar um drama coeso e questionar a situação actual de uma profissão que supostamente tem como função básica denunciar.

7 – Carol, de Todd Haynes (em DVD)

Partindo de um romance de Patricia Highsmith, Carol ou O Preço do Sal, publicado em 1952, sob o pseudónimo Claire Morgan, Carol aborda a relação que nasce entre duas mulheres, uma pobre e uma rica, uma jovem e outra mais velha, uma com sonhos e emancipada e outra que quer deixar de estar dependente do seu marido. São elas, Therese Belivet (Rooney Mara) e Carol Aird (Cate Blanchett), nomes que só soarão com glamour, quando forem as actrizes a pronuncia-los.

Depois de Longe do Paraíso, e ainda melhor, depois da mini-série Mildred Pierce, ambos ambientados nos anos 50, Todd Haynes reedifica o melodrama de Hollywood, recordando obras de Douglas Sirk e  com alguma eloquente excessividade performativa reflectida nos sarcasmos de Carol, com Blanchett a oferecer uma das interpretações da sua carreira. Muito mais do que um romance lésbico, Carol é um confronto com posições sociais, com as diferenças de classe e de género que criam, uma vez mais, uma inegável memória sobre a América de meados do século XX.

6 – O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Løve (nos cinemas)

O Que Está Por Vir segue a vida de Nathalie (Isabelle Huppert), uma mulher de 55 anos, mãe de dois filhos e ainda professora de filosofia do ensino secundário, que, certo dia, vê a sua vida a ruir, sendo exactamente este filme um delinear contingente da crise existencialista que começa por afecta-la. Ironicamente, tudo aparenta resultar quando tem de cuidar de uma gata preta, de nome Pandora.

Para além da soberba transformação de Isabelle Huppert, num desempenho realista que acarreta aquilo que significa ser uma mulher de meia-idade no século XXI, este drama encontra fortes influências no modelo narrativo da Nouvelle Vague Francesa. De facto, a sua cineasta Mia Hansen-Løve parece apoderar-se dos nomes dos grandes filósofos e pensadores do século anterior para clarificar o estado das coisas teórico-práticas no presente. Interpela tanto a utopia política, como social e familiar, O Que Está Por Vir dispõe-se para um acaso, onde, para viver, é preciso recomeçar, encontrando, de alguma forma, na natureza um meio caminho para a felicidade.

5 – The Revenant: O Renascido, de Alejandro G. Iñarritu (em DVD e Blu-ray)

Quase 20 anos depois de Titanic, Leonardo DiCaprio prova ser muito mais do que uma carinha laroca e galã do cinema. Em The Revenant: O Renascido oferece-nos uma das suas melhores interpretações, demasiado física e expressiva que, sem sombra para dúvidas, merecia o Óscar. Nesta histórica verídica interpreta Hugh Glass, um caçador de peles que durante uma expedição acaba por ser ferido por um urso (e que urso!). Alguns dos membros da expedição tentam cuidar dos seus ferimentos, mas Glass é enterrado vivo por um criminoso John Fitzgerald, um Tom Hardy, com uma linguagem seca, maligna e arrogante.

Além da temática, extremamente interessante, que mostra os confrontos de inúmeros caçadores com americanos nativos, The Revenant apresenta algumas sequências metafísicas tão características das outras obras-primas de Alejandro G. Iñarritu (ex: Birdman), desta vez com influências de Andrei Tarkovski, Terrence Malick e do também mexicano Alfonso Cuáron. Se quisermos este é o espelho masculinizado da personagem de Sandra Bullock em Gravidade. Visualmente transcendente, estamos ainda diante de um dos mais requintados trabalhos de fotografia do ano, do qual são salientadas cores diversas num cenário à partida limitado. Um filme igualmente responsável por revitalizar o género “perdido” na memória cultural, o “western”.

4 – Zootrópolis, de Byron Howard & Rich Moore (em DVD e Blu-ray)

Na moderna metrópole mamífera de Zootrópolis, recheada dos mais variados habitats, todos os animais tem direito a viver em comunidade, em paz e em segurança, simplesmente porque, como reivindica o seu slogan mais atrativo, ‘cada um pode ser o que quiser’, desde o maior elefante até ao mais pequeno rato. Cada minuto de Zootrópolis parece mais um reflexo da sociedade pós-moderna que vive de promessas e de fachadas, esquecendo do que é verdadeiramente importante, como o amor, a amizade, a justiça, a fraternidade, a igualdade e a liberdade.

A sua personagem central é Judy (Ginnifer Goodwin), uma coelha tão optimista que prefere contrariar tudo o que os outros pensam, e que é ainda colocada à prova quando conhece a faladora e matreira raposa, Nick Wilde (Jason Bateman). Influenciado pelos filmes-noir e policiais à la Hollywood, e por outros clássicos como Quem Tramou Roger Rabbit?, Zootrópolis transmite uma mensagem a todos aqueles que só querem tentar e nunca desistir, tal como a tão divertida música dos créditos cantada por Shakira, com o título “Try it Everything”.

3 – Operação Eye in the Sky, de Gavin Hood (brevemente em DVD)

Protagonizado por Helen Mirren e por Alan Rickman (naquele que é o seu último desempenho), Operação Eye in the Sky é um fiel e extraordinário retrato, dos dias de hoje, de um problema mundial que parece não dar tréguas, ao mesmo tempo que nos confronta com a complexidade de tomadas de decisões conjuntas, espelho do prolongamento dos debate entre os seres humanos.

O filme visa questionar as decisões tomadas nos respeitantes quadros sociais, morais, políticos, económicos, judiciais e militares, que, por conseguinte, tentarão ser respondidas pelas personagens. Personagens essas que se ligam e que comunicam pela extensa rede cibernética e por uma panóplia de dispositivos. Enfim, será preferível matar uma criança para minimizar os danos? Será vantajoso os países aliados deixarem os terroristas escapar, destruir um espaço público em vez de serem responsabilizados e criticados pela morte de alguém inocente? Operação Eye in the Sky é um confronto demasiado realista para que saia da sala indiferente.

2 – Todos Querem o Mesmo, de Richard Linklater (brevemente em DVD)

Ao contrário do que poderia pensar, Todos Querem o Mesmo não é em nada inferior a Boyhood: Momentos de uma Vida, no qual Richard Linklater faz jus ao seu próprio percurso enquanto cineasta do tempo. Auto-designado de sequela espiritual de Juventude Inconsciente, mesmo sem associação imediata, este filme é provavelmente a comédia mais nostálgica do ano.

Dentro e fora do campo, o filme segue o destino de Jake (Blake Jenner), e de um grupo de jogadores de basebol da faculdade, diante das novidades e loucuras da vida adulta que se inicia. Encarando as liberdades, o despertar sexual e as responsabilidades dessa fase, também eles crescem e amadurecem. São momentos vividos no seu esplendor pelas personagens, que incrivelmente, deixam um sorriso na cara de toda a sua audiência. Com uma capacidade histórico-descritiva fenomenal, o cineasta repesca os momentos confinados a uma certa memória colectiva, quer seja através guarda-roupa, dos cenários, e até de uma marcante banda-sonora do género pop-rock, reflectindo, por sua vez, sobre a cultura americana, sobre os erros do presente, que irrecusavelmente moldarão o futuro. E o momento volta a ser vivido ao máximo, pelo menos enquanto durar.

1 – O Quarto, de Lenny Abrahamson (em DVD)

Vencedor do Óscar de Melhor Actriz, será difícil não pensar em Quarto como o melhor filme de 2016, ou como um dos melhores filmes da década. Retrato fiel do que significa ficar enclausurado a um espaço e a um tempo, Room, no título original, vive da interpretação de Brie Larsson e também da de um jovem actor de 9 anos Jacob Tremblay, provavelmente naquela que é a melhor interpretação de uma criança na história da sétima arte.

A partir da questão fortemente contemporânea sobre abusos sexuais e rapto, Lenny Abrahamson vale-se, com eficácia, das palavras, em nada tempestuosas, da escritora Emma Donoghue, também ela argumentista do filme. Ademais, ‘brinca’, de certo modo, com o impacto que o médium televisivo tem no crescimento, preparando Jack para o mundo exterior que não conhece, no qual este distingue ora o que é verdade, ora o que é mentira, isto é, ficção. Na mesma estilística televisiva, o realizador tende a transportar o espectador para uma espécie de home-made film despretensioso, mas fortemente dramático, sobretudo na exploração do elo umbilical entre mãe e o filho. Arrebatador das emoções do espectador, colocadas à flor da pele, serão necessários muitos adjectivos para caracterizar as maravilhas do mundo cinemático que Quarto incrivelmente consegue moldar.

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o ‘viciado em filmes’ porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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