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ContosCultura

Matisse – parte I

A chegada do mercador levantou um sem número de questões na mente de MV30110.CON1921A, Matisse o seu nome humano escolhido por si no raiar da sua vida, do primeiro momento de consciência.

O mercador chegou e entre os vários volumes de diversa mercadoria, dois continham livros de vários tamanhos, temas e línguas. Esses dois eram para Matisse. A cada semestre recebia uma encomenda assim, obrigatória à execução da sua função humana. E a cada contacto com o mercador, algo na sua consciência iluminava-se e aos poucos ia alimentando algo que na sua mente não deveria ser acordada: a curiosidade.

Homem criado para ser absolutamente racional e pragmático, Matisse foi gerado no planeta MV no ano 30110 da Nova Era Galáctica. A sua função função era o conhecimento.

Matisse foi gerado, foi criado, não nasceu. Foi criado humano geneticamente orientado, física e mentalmente, para se debruçar em exclusivo no estudo e acumulação de conhecimento, de forma a encontrar as soluções para os problemas que surgiam ou podiam surgir no horizonte da raça humana, e assim garantir a inequívoca e inatingível superioridade por todo o território galáctico e extra galáctico, até aos confins do universo conhecido.

Mas algo de errado terá acontecido no momento da sua gestação. Por mais geneticamente que fosse determinado o seu cérebro, os labirintos intrínsecos da inteligência humana por vezes pregam partidas. Os responsável pela Ciência Bio-Humana ao determinar um nível tão alto de inteligência ao espécime MV30110.CON1921A, levou a que este suplantasse as limitações que lhe foram pré determinadas. Contudo, a única coisa para a qual Matisse não estava preparado, era para ter consciência desse facto.

O mercador, mais do que livros e conhecimento, trouxe-lhe um despertar de um cantinho obscuro do seu cérebro que, sendo impossível de apagar da mente humana, estava encerrado por um genoma que se mostrou ineficaz no caso de Matisse. Nesse canto obscuro estava a curiosidade. Matisse nos contactos que foi tendo com o mercador, começou a questionar-se o porquê fazendo algo que não lhe devia ser permitido, perceber as diferenças de si para o outro, e como resultado, saber.

Viu que a tez do mercador era mais escura e testemunhava as agruras do tempo nos longos sulcos cravados na pele, ao contrário da sua de enorme pureza e livre de rugas mesmo para lá do século de idade. Perguntou-se porquê.

Viu que as suas veste solidificavam cores e padrões geométricos que pareciam tempestades de tecido, tocou nelas para sentir as irregularidades dadas por diferentes texturas, ao contrários das suas vestes de cores e texturas uniformes, neutras e pacíficas. Perguntou-se o que eram.

Escutou a sua voz rouca de tons cansados e martirizados pelo tempo. Procurou encontrar a linguagem entre as centenas que sabia escapando-lhe os ditames de uma simples pronúncia, algo que chocava com a sua voz criada para ser o mais nítida e neutra possível de forma a transmitir o conhecimento. Perguntou-se o que ouvira.

Ao longo do tempo, ao longo de cada contacto com o mercador, Matisse crescia e via a sua curiosidade crescer também. Só que ele tinha que se proteger e evitar denunciar essa espécie de “defeito” que descobriu em si. De facto, mais cedo ou mais tarde, a Cúpula, o centro das decisões do universo humano poderia perceber que estava ali uma ameaça. É que dotar um ser de enorme inteligência era algo para eles perfeitamente controlável, e até necessário. Mas o problema poderia surgir quando esse ser além de inteligente fosse também curioso.

Naqueles anos da Nova Era Galáctica, a única ameaça que pairava sobre a Cúpula era um ser humano consciente da sua inteligência.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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