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Masters of Sex

O sexo tem um papel proeminente em muitos dos argumentos de séries que estão no ar actualmente, independentemente de ser uma comédia, ou um drama, sendo explorado como uma das forças que faz avançar a narrativa. Com isto em mente, Masters of Sex colocam o sexo no centro da história, em nome da Ciência. Bem, na maior parte do tempo, em nome da Ciência, porque o sexo é algo complicado. É emocional, físico e biológico em simultâneo e esta série demonstra exactamente esta complexidade, à medida que conta a história do Dr. William Masters e de Virginia Johnson, os dois pioneiros no que toca ao estudo da sexualidade humana, que levou ao grande processo de revolução sexual que a sociedade viveu.

Criada por Michelle Ashford, Masters of Sex foi buscar a sua inspiração à história real dos pais da sexualidade humana e que dão o nome às personagens principais da série, Masters e Johnson. Desenvolvendo-se na década de 50, o episódio de estreia introduz-nos a personagem interpretada por Michael Sheen, o mais bem-sucedido obstetra da Universidade de Washington, que tem uma clínica médica muito reputada e que pretende fazer um estudo sobre a sexualidade humana. Como o Hospital Universitário encontra-se relutante em patrocinar este tipo de estudos, Masters decide avançar pela sua conta em risco, durante as suas horas vagas. Primeiro, observando uma prostituta a ter sexo e tirando notas. Depois, expandindo o escopo da pesquisa, incluindo equipamento que permitisse fazer registos e aumentando o número de sujeitos envolvidos. É neste ponto em que o trabalho começa a aumentar que somos apresentados à personagem de Lizzy Caplan, uma mãe solteira, que trabalha nos serviços administrativos do Hospital e que, eventualmente, acaba por ajudar Masters na sua pesquisa.

O período em que a série se desenvolve adiciona um elemento de conservadorismo a toda a história, apesar da maioria dos personagens a que somos apresentados demonstrarem ter uma mentalidade mais aberta no que toca à actividade sexual. Tal como vemos nos episódios que se seguiram à estreia, tanto na primeira, como na segunda temporada, sem o apoio do Hospital, os dois investigadores têm de ser criativos, no que toca ao avanço da sua pesquisa, chegando a terem de visitar um bordel para poderem observar as prostitutas, durante o desempenho do seu trabalho. Claro que este empenho implica a necessária envolvência nas questões pessoais e médicas dos seus sujeitos de análise, sendo, em alguns casos, um obstáculo que necessita ser ultrapassado.

Quando a série não está focada nos estudos em curso, procura respirar nas vidas pessoais de Masters e de Johnson. Enquanto o primeiro e a sua mulher atravessam uma batalha para conceberem uma criança, a segunda envolve-se sexualmente com outro médico do Hospital, mas os dois não estão em sintonia no que toca à sua relação, para além do sexo.

Tanto Michael Sheen, como Lizzie Caplan conseguiram dominar a capacidade de demonstrar expressões faciais de relativa curiosidade e de observação atenta, assim como os tons de voz que as personagens usam, quando observam os seus sujeitos a terem relações sexuais. Ter uma constante expressão séria torna-se particularmente útil para ambos, já que os dois personagens principais não gostam de transparecer as suas emoções com facilidade, mantendo os seus pensamentos para si. Porém, quanto mais os conhecemos, melhor compreendemos a forma como cada um deles aborda a sua própria vida pessoal e sexual. Também se vai tornando cada vez mais evidente que a sua dedicação à pesquisa é colocada como prioridade nas suas vidas, sendo a vida privada de cada um relegada para segundo plano. Por um lado, Sheen dá vida a Dr. William Masters como se este fosse emocionalmente distante e quase ausente da sua vida pessoal, apesar desta ter um grande reflexo tanto na sua pesquisa, como no seu trabalho. No seu caso, a linha que separa os dois lados da sua vida não é linear, já que os seus interesses profissionais afectam de forma clara a relação que tem com a sua mulher. Esta personagem não é tão centrada em si como Don Draper, mas, mesmo assim, existem assuntos que não revela à sua mulher, criando, aos poucos, pontos de potenciais problemas. Por outro lado, Caplan consegue ter em Virginia Johnson uma personagem equilibrada e confiante, enquanto lhe dá um pouco de vulnerabilidade. Por mais que adore o trabalho que esta actriz desenvolveu na comédia (especialmente em Party Down), é maravilhoso ver como consegue atingir a excelência num trabalho mais dramático.

O lado pessoal das personagens é um contraponto interessante às pesquisas efectuadas na clínica. À medida que a trama vai avançando, vai também mostrando que o trabalho desenvolvido por este estudo é relevante não só para as personagens, como para quem vê a série. O sexo está em todo o lado e, sejamos honestos, é um tópico extremamente fascinante, estejamos a analisá-lo de um ponto de vista científico, ou de uma perspectiva dramática. Masters of Sex consegue abordá-lo de todos os ângulos possíveis (físico, científico, romântico e até reprodutivo), explorando a importância que esta actividade tem na sociedade, através da pesquisa científica e através das vidas das suas personagens. No que toca a conteúdo explícito, é óbvio que existem cenas de sexo e de nudez, mas, numa escala de 1 a 10, em que o 1 significaria uma comédia em que só se dão beijos na face e o 10 seria algo mais na linha de Spartacus, teria de dizer que a série é um modesto 7. Existe sexo e nudez, mas com uma relativa moderação. O que é normal, uma vez que o tópico tem uma presença tão viva na série, que não é necessário haver tantas cenas explícitas. Tem uma presença constante na história, independentemente de estar mesmo a ser feito, ou não.

Masters of Sex terminou recentemente a sua segunda temporada, onde podemos ver dois casais a entregarem-se ao desejo que têm um pelo outro (Bill a Gini e Libby a Robert), ao mesmo tempo que o casal mais querido da série deu um passo em frente na sua relação, ao deitarem-se juntos na mesma cama, sem pijama e dando as mãos. No entanto, os sorrisos que partilham, quando se deitam, são esperançosos, já que é necessário haver muita confiança para se dormir ao lado de alguém e construir uma relação de intimidade. Apesar de não o admitirem, o facto de quatro personagens se despirem perante a sua cara-metade é um testemunho da confiança que têm entre si. É um dos actos mais assustadores de se fazer – estarem completamente nus em frente de outra pessoa, com os seus defeitos e virtudes à mostra, tornando o momento num grande acto de esperança no outro. Estes momentos de nudez são um exemplo de como todas as personagens evoluíram, desde a estreia da série.

O sexo é um tema que tem sido usado muitas vezes em muitas séries de televisão, mas Masters of Sex usa-o como premissa e constrói toda a sua narrativa à sua volta. Contrariamente a outros exemplos, existe uma história nesta série, tornando-a intrigante, ocasionalmente fascinante e uma boa aposta televisiva. Pode demorar alguns episódios até começar a desenvolver de forma interessante a sua potencialidade, mas, a cada novo episódio, vai-se tornando progressivamente melhor. Portanto, se vires o primeiro episódio e gostares, tem um pouco de paciência, porque, no fim, terás uma agradável surpresa.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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