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Máquina a serviço dos genes

Biólogo evolucionista e defensor do secularismo, Richard Dawkins, tornou-se conhecido pelo seu livro O Gene Egoísta. O zoólogo queniano é uma máquina criada pelos seus genes e uma das vozes mais fortes da intelectualidade contemporânea.

Nascido na Quénia, em 1941, Richard Dawkins ajudou a orientar a biologia evolutiva para o século XXI. Reconhecido pelo seu livro O Gene Egoísta, publicado em 1976, o biólogo evolucionista tinha como propósito “examinar a biologia do egoísmo e do altruísmo”, como ele próprio o disse. “O argumento deste livro é que nós e todos os outros animais, somos máquinas criadas pelos nossos genes”, diz Dawkins. Assim, vemos a importância dos organismos reduzida, perante os genes que comandam.

“Como os bem-sucedidos gangsteres de Chicago, os nossos genes sobreviveram – em alguns casos, por milhões de anos – num mundo altamente competitivo. Isso permite-nos esperar deles algumas qualidades. Sustentarei a ideia de que uma qualidade predominante que se pode esperar de um gene bem-sucedido é o egoísmo implacável”, refere o zoólogo no seu livro. No entanto, como refere o geneticista do Laboratório de Biologia e Genómica Estrutural, de Strasbourg, Francisco Prosdocimi, “é importante notar que, ao contrário do que é sugerido pelo nome da teoria do gene egoísta, os genes absolutamente não têm vontades próprias, ou valores morais”. Simplesmente, os genes que se mantêm representados dentro dos genomas das espécies, ao longo do processo evolutivo, com o passar de anos e milénios, são os que apresentam um comportamento que seria visto como egoísta pelos seres humanos.

O Gene Egoísta tornou-se num dos mais aclamados livros da história da divulgação científica, não só porque apresenta a biologia de forma acessível, mas porque se tornou na inspiração de outros biólogos.  No entanto, foi também fonte de discussão e de más interpretações. “Algumas pessoas pensam que justificaram biologicamente esse mundo inóspito, implacável, competitivo e egoísta. Porém, é porque interpretaram mal um livro que eu escrevi há nove anos: chamado O Gene Egoísta”, afirmou Dawkins, em 1985.

“Desde a publicação de O Gene Egoísta, há mais de trinta anos, Dawkins tem-se mostrado cada vez mais como um intelectual de primeira grandeza e defensor da razão e de ideais seculares”, diz Francisco Prosdocimi. Ao longo destes anos, o biólogo e autor publicou diversos livros que continuam a divulgar a ciência da evolução. Outros livros apresentam as “deficiências e os problemas do pensamento dogmático normalmente associado aos domínios religiosos”, acrescenta o geneticista. Por estes motivos e pela sua crítica devastadora da religião, hoje, o seu nome está fortemente associado ao Novo Ateísmo.

“Sempre utilizando argumentos claros, ferozes e bem construídos, Dawkins pode ser considerado uma das vozes mais fortes da intelectualidade contemporânea”, diz Francisco Prosdocimi. É esta voz que, na revista Prospect, em 2011, afirma: “A inteligência humana é desvalorizada nestes dias. Temos que acabar com livros de regras e começar a confiar no nosso próprio julgamento”. Perante a hipótese de dominar o mundo, o biólogo substituiria os livros de regras, sempre que possível, pela inteligência humana. Num mundo de reverência obsessiva por regras, segundo Dawkins, quem realmente acha que um bom especialista deve gastar o seu tempo com formulários?

“O zoólogo Richard Dawkins, autor do livro O Gene Egoísta, é tido como um dos maiores defensores das ideias evolucionistas e chega-se a dizer que seria mais darwiniano que o próprio Charles Darwin”, diz Francisco Prosdocimi. Contudo, procurou ir mais além do que já tinha ido Darwin e desafiou as noções biológicas enraizadas no senso comum. O organismo deixou de ser a unidade fundamental do mundo vivo. Dawkins olha para os organismos como máquinas de sobrevivência de genes, como veículos programados para a preservação dessas moléculas “egoístas”, que criam incessantemente cópias de si próprias.

Como diz Richard Dawkins, “se o leitor desejar, como eu, construir uma sociedade em que os indivíduos cooperem generosa e desinteressadamente para o bem-estar comum, ele não deve esperar grande ajuda por parte da natureza biológica. Tratemos, então, de ensinar a generosidade e o altruísmo, porque nascemos egoístas. Tratemos de compreender o que pretendem os nossos próprios genes egoístas, pois só assim teremos alguma oportunidade de perturbar os seus desígnios, algo que nenhuma outra espécie jamais aspirou fazer.”

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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