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Mali: música para ser alguém

Há hinos portugueses que se podiam exportar. Outros, são levados à letra em algumas regiões do mundo e, no entanto, nem sempre da melhor maneira. Dizer que “o povo é quem mais ordena” em territórios de Sahel não pressupõe, por isso, um bom resultado. É o caso do norte do Mali, um dos países mais desenvolvidos de África, que, em pleno século XXI, parece voltar atrás no tempo. Tomado por forças extremistas, 2012 foi um ano de mudança para os seus habitantes. Depois do golpe de estado que derrubou o governo de Amadou Toumani Touré, em Março de 2012, o Ansar Dine tem aterrorizado a cortina norte do país.

Atrás deste véu que se tem tingindo de negro, importa lembrar a riqueza do país. Se há petróleo a ser cultura, o Mali é um desses sítios, onde as escavações são feitas em estúdios e onde as multidões se juntam para assistir a espectáculos e a música ao vivo. Com menos de um dólar por dia, mais de metade da população do Mali vive abaixo do limiar da pobreza, mas a música corre-lhes nas veias. Com raízes nos antepassados, as vozes que se afinam e os instrumentos que se tocam carimbam a tradição musical e cultural do país. Como um dos maiores centros intelectuais de África, a degradação deste estatuto parece evidente. Sem griots ou jalis que enalteçam de forma acérrima o cariz do Mali, são as forças extremistas que levam a taça neste confronto e, nos últimos tempos, têm afastado e calado muitas vozes.

Debaixo dos tecidos fluidos que cobrem as peles dos habitantes, há cores a disfarçar a revolta. As tensões galopantes acompanham o quotidiano e não dormem. Percorrem as ruas e acompanham o tráfico de droga e de armas, aterrorizam cidades e destroem Mausoléus, considerados património mundial da UNESCO. Com assinatura de Ansar Dine, um grupo extremista com ligações à Al-Qaeda, os conflitos irrompem a norte e vão-se estendendo pelo país com foco na extensão de quilómetros que faz fronteira com a Argélia. Por se afirmarem como “defensores da fé”, Ansar Dine eleva ao expoente máximo esta ideologia. A imposição da Lei Sharia é a sua batalha diária e, sem olhar a meios, atingem os fins que pretendem com a garra incoerente da falta de escrúpulos. Acusados de vários crimes, já mataram cidadãos por apedrejamento, raptaram turistas, bloquearam missões humanitárias e destruíram locais de culto. Querem proibir o álcool, o tabaco e a música. O consumo de qualquer um destes elementos é contra a Sharia e a favor de uma condenação quase imediata, sem vergonha, sem misericórdia.

Se conseguirem vencer a sua luta para abolirem a música, não há notas a tocar no norte do Mali. Mesmo os músicos que vivem na capital, Bamako, e no sul do país, recebem ameaças constantes. Com bandas a anunciarem o fim, com teatros a fechar, ou festivais de música a serem mudados de sítio, o Mali é cada vez mais escasso em produção musical. E estamos em 2013. Tome-se consciência do avanço da força islâmica que envenena ao extremo o país. O consumo de música estrangeira também é proibido, com a justificação de que “não se pode ouvir música do diabo” e que “a música contraria o islão. Em vez de ouvirem música, porque é que não lêem o Corão? Não estamos em guerra com os músicos do Mali, mas sim com os músicos de todo o mundo”.

Lamentando a situação que o país atravessa e apesar de todas as contrariedades, a coragem tenta ganhar um lugar nas ruas. Fora dos esconderijos, onde se faz e ouve música, o atrevimento de alguns é maior que todos esses abrigos culturais. Músicos, activistas e cidadãos têm-se juntado sob o lema de um Mali capaz, estável e que aceite a diversidade. Para isso, há refrões que se cantam e que denunciam o islamismo, os abusos militares e a conspiração política. Quem eleva a música ao estatuto de defesa, quer um Mali com escolha livre sem que sejam perpetrados golpes violentos. O hip hop tem sido, por isso, uma das vozes mais ouvidas, com os cantores a divulgar, também, vídeos de ajuda e de sensibilização para a causa do Mali. “Plus Jamais Ça” é o título de um desses vídeos que já se tornou viral no Youtube. Entre todas essas declarações, também se fala da ausência de vida no Mali: “Há falta de alegria. Já ninguém dança. Não há festas. Toda a gente está debaixo desta espécie de feitiço. É estranho”.

Enquanto há canais de televisão com censura a 100%, a valentia daqueles que lutam pela democracia e contra o Ansar Dine cresce todos os dias, para que o património permaneça inesgotável, aplaude-se este crescimento e exige-se um país unido, seguro, democrático e pacífico. Libertar o Norte dos rebeldes islâmicos é sinónimo da continuidade da herança musical e de um brinde à cultura, entre notas musicais.

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Ana Guedes

Entre o Porto e Leiria, estou sempre de malas feitas para partir, para ficar ou para conhecer. Apaixonada por letras, cultura, fotografia e o mundo, tenho como fio condutor vital as histórias: as que ouço e quero contar, as que vivo e quero escrever

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