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Ciências e TecnologiaSaúde

Maldade em ponto pequeno

A falta de empatia e de culpa, a presença de emoções superficiais, os comportamentos impulsivos, irresponsáveis e anti-sociais são algumas das características atribuídas a um psicopata. Estas características que são normalmente associadas a adultos, podem também ser observadas em crianças e é nos mais pequenos, naqueles em que, à partida, reside unicamente a inocência, que pode residir um comportamento perverso.

Actualmente, é crescente o número de psicólogos que acredita que a psicopatia é uma condição neurológica distinta, assim como o autismo, podendo ser identificada a partir dos cinco anos. “Podemos observar características de psicopatia desde a infância até à vida adulta”, diz a psiquiatra e autora do livro Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado, Ana Silva.

Jeffrey Bailey tinha nove anos, quando empurrou uma criança para o fundo de uma piscina na Flórida. Enquanto a criança lutava para sobreviver, Jeffrey sentou-se numa cadeira para assistir ao afogamento. Mais tarde, ao ser questionado pela polícia, o menino disse que estava curioso para ver alguém a afogar-se. Existia, então, maldade nesta criança? Pode ele ser considerado um psicopata com apenas nove anos?

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, nenhum individuo menor de 18 anos pode ser chamado de psicopata, uma vez que a sua personalidade ainda não está totalmente formada. Nestes casos, pode considerar-se que existe um transtorno de conduta, ou seja, um padrão repetitivo de comportamento que viola regras sociais.

A ideia de que uma criança pode ter tendências psicopatas apresenta-se de forma controversa entre os psicólogos. O psicólogo da Universidade de Temple, Laurence Steinberg, afirmou que a psicopatia é quase impossível de diagnosticar com precisão em crianças, porque os seus cérebros ainda estão em desenvolvimento. Além disso, existem outras críticas quanto à extensão da psicopatia aos jovens. “Essas críticas referem que o uso do constructo em contextos forenses pode trazer graves consequências, visto que o rótulo de psicopata pode ter influência em processos judiciais, podendo conduzir à tomada de decisão no sentido da punição”, refere a Mestre em Psicologia Clínica, Raquel Santos. Este rótulo pode também interferir na vida da criança e dos pais, já que, como refere o psicólogo da Universidade de Nova Gales do Sul, Mark Dadds, ninguém está confortável com um rótulo de psicopata.

Contudo, de acordo com Mark Dadds, existem estudos que revelam diferenças anatómicas significativas nos cérebros de crianças que apresentam características associadas à psicopatia. Acrescentando a este ponto, o psicólogo descobriu que os sinais de psicopatia podem ser detectados em crianças a partir dos três anos. Assim, um pequeno número, mas crescente, de psicólogos acredita que o reconhecimento destas características, bem como o confronto com o problema, pode ser uma oportunidade para ajudar as crianças a mudar o rumo. Os pesquisadores esperam que, por exemplo, a capacidade de empatia, que é controlada por partes especificas do cérebro, possa existir em crianças insensíveis, podendo ser reforçada.

Mary Bell tinha quatro anos, quando tentou enforcar uma colega. Mais tarde, a criança tornou-se incontrolável, chegando a maltratar animais e a incendiar a casa em que morava. Aos 11 anos, Mary matou por estrangulamento dois meninos entre os três e os quatro anos, não demonstrando qualquer remorso. Acabou por ser julgada, presa e tratada, durante 12 anos. Em 1980, foi solta, casou-se, teve uma filha e parece, agora, levar uma vida normal. Esta criança com transtorno de conduta conseguiu mudar o seu padrão de comportamento, não se tornando numa psicopata.

No entanto, o que provocou o comportamento de Mary Bell em criança? Não está provado que as crianças nasçam já predestinadas a ser psicopatas, mas no momento em que nascem a sua composição genética é específica e, desta forma, uma criança não nasce psicopata, mas nasce com tendências e predisposições genéticas ao distúrbio. Segundo os especialistas, existem três factores de risco para a psicopatia: a predisposição genética, um ambiente hostil e possíveis lesões cerebrais no decorrer do desenvolvimento. Mary Bell é filha de uma prostituta viciada em drogas, foi abandonada e entregue para adopção várias vezes. A mãe dava-lhe drogas, chegando a ser levada para o hospital com overdoses, quando era pequena.

É possível que as crianças, como Mary Bell e Jeffrey Bailey, tenham transtornos de conduta e que sejam candidatas a sofrerem de psicopatia. As mentiras frequentes, a crueldade para com colegas e irmãos, a baixa tolerância à frustração e a ausência de culpa e remorsos são algumas das características que refutam a ideia de que toda a criança é inocente e boa. Apesar de, normalmente, ser politicamente incorrecto admitir que pode existir maldade, a realidade é que podem haver transtornos de conduta mesmo nos mais pequenos.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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