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[Maio] A Reconstrução Através do Perdão

Em 1994 e em apenas cem dias, aproximadamente 800 mil pessoas pertencentes à comunidade minoritária Tutsi foram massacradas no Ruanda por extremistas étnicos hútus. Na noite de 6 para 7 de Abril de 1994, na sequência do abate do avião onde seguiam, o então Presidente do país, Juvénal Habyarimana e o seu homólogo do Burundi, enquanto regressavam da Tanzânia, onde tinham participado em negociações de paz com rebeldes Tutsi, o Ruanda viu-se imerso num período de terror, ao longo do qual se tentou exterminar uma parte da população, perante o silêncio de uma comunidade internacional, que assistiu de braços cruzados à escalada da violência.

“In their greatest hour of need, the world failed the people of Rwanda.”

(Kofi Annan)

Todo o processo de extermínio da comunidade Tutsi foi realizado com uma organização extremamente meticulosa. As listas de opositores do governo foram entregues às milícias que se foram formando localmente, juntamente com os nomes de todos os seus familiares. Vizinhos mataram vizinhos e alguns maridos chegaram a matar as suas mulheres Tutsis, argumentando que seriam mortos, caso se recusassem a fazê-lo, enquanto milhares de mulheres Tutsis foram levadas e mantidas como escravas sexuais, durante dias a fio. Um dos principais instrumentos usados para atacar de forma sistemática os Tutsis, durante o Genocídio, foi o Cartão de Identidade (indangamuntu, em Kinyarwanda), que distinguia a origem Tutsi, Hutu, ou Twa (pigmeu) de cada cidadão do país. Este significava uma verdadeira sentença de morte para qualquer Tutsi, pois permitia a sua identificação, ao mesmo tempo que facilitava o distanciamento entre os assassinos e as suas vítimas. Segundo os testemunhos de vários sobreviventes, os documentos eram cuidadosamente recolhidos, após o assassinato dos portadores, e entregues aos comandantes dos massacres, que os usavam para determinar o número de vítimas.

“It was as if we were taken over by Satan. When Satan is using you, you lose your mind. We were not ourselves. We had been attacked by the devil.”

(Gitera Rwamuhizhi, agricultor Hutu)

O partido no poder em 1994, o MRND, tinha na sua composição uma secção jovem denominada de Interahamwe, que foi transformada numa milícia com o objectivo único de serem os impulsionadores do genocídio. Armas e listas de alvos foram entregues a grupos locais, que sabiam exactamente onde encontrar as suas vítimas. Paralelamente, os extremistas Hutus tinham estações de rádio e jornais que transmitiam propaganda de ódio, exortando as pessoas a “eliminar as baratas”. Ou seja, matar os Tutsis. Os nomes das pessoas a serem mortas foram lidos na rádio e até padres e freiras executaram as ordens de matança, assassinando pessoas que procuraram abrigo em igrejas. Desde a ocorrência deste genocídio em massa, os rótulos “Hutu” e “Tutsi” tornaram-se familiares para muitas pessoas que assistiram incrédulas aos acontecimentos, que a maioria dos órgãos de comunicação social afirmava terem origem em hostilidades tribais. Contudo, é demasiado simplista denominar de “tribalista” um conflito que tem origens muito complexas e cujas responsabilidades são partilhadas por vários actores.

“When you think of the sort of things that happen when a genocide happens, it’s again not people who are intrinsically evil.”

(Desmond Tutu)

É fundamental desconstruir a ideia de que Hutu e Tutsi são tribos/etnias distintas, uma vez que os dois grupos pertencem à mesma nação banyarwanda e partilham a mesma língua, religião e sistemas de clãs e de parentesco. A divisão entre os dois grupos baseou-se, sobretudo, na ordem social, considerando-se Tutsi todos aqueles que estavam mais próximos do Rei e constituíam, portanto, uma forma de aristocracia, que pela sua posição social privilegiada detinha mais poder, armas, terras e gado. Os Hutu eram tradicionalmente agricultores em terras governadas pelo Rei Tutsi, apesar de haver algumas áreas independentes. Esta diferenciação social era demarcada, tal como anteriormente referido, nos Cartões de Identidade, que foram instituídos, em 1933, pela Bélgica, que os introduziu precisamente para criar uma divisão social artificial, de forma a manter o controlo da elite Tutsi, através da qual governava a colónia. Durante vários anos, tentaram justificar racialmente a diferenciação destes grupos, mas, não tendo conseguido, acabaram por se basear na diferenciação económica, passando a definir por Tutsi qualquer proprietário com 10, ou mais cabeças de gado. Desta forma, institui-se não só uma segregação, mas também a impossibilidade de mobilidade social.

“Everybody knew, every day, live, what was happening. Who moved? Nobody.”

(Philippe Gaillard)

O filme Hotel Ruanda começa no exacto momento em que esta tragédia começa. Rusesabagina é um gerente de um luxuoso hotel, o Des Mille Collines, que, para além de ter de fazer a recepção dos hóspedes, tem como tarefa administrativa o uso do seu sensato sentido de negócio para comprar abastecimentos para o hotel a um revoltado Hutu, que tenta constantemente convencer Rusesabagina a tomar uma posição contra os Tutsis. De início, Rusesabagina encontra-se numa fase de negação, com medo de se envolver em questões segregacionistas, preferindo acreditar que a paz entre os dois grupos sociais está a caminho. O seu despertar para a realidade começa, quando vê os seus vizinhos serem arrancados de casa e serem violentamente agredidos, simplesmente por pertencerem a um grupo social minoritário. No momento em que a sua família é ameaçada e a comunidade em que está inserido é forçada a abandonar as suas casas, o personagem principal de Hotel Ruanda é obrigado a aceitar a realidade que tanto foi negando. À medida que o caos se vai instalado pelo país, as forças militares enviadas pela ONU, para auxiliar a população, abandonam os habitantes deste país com nada mais do que a sua vontade de sobreviver. Neste contexto, Rusesabagina torna-se no único homem capaz de abrir o seu coração e as portas do seu hotel a milhares de Tutsis que procuram uma forma de se salvarem, ao mesmo tempo que tenta salvar a honra do país que tanto ama.

“When people ask me, good listeners, why do I hate all the Tutsi, I say, ‘Read our history.’ The Tutsi were collaborators for the Belgian colonists, they stole our Hutu land, they whipped us. Now they have come back, these Tutsi rebels. They are cockroaches. They are murderers. Rwanda is our Hutu land. We are the majority. They are a minority of traitors and invaders. We will squash this infestation. We will wipe out the RPF rebels. This is RTLM, Hutu power radio. Stay alert. Watch your neighbours.”

(George Rutaganda)

Aproximadamente a meio do filme, existe uma poderosa cena em que um bondoso coronel da ONU esclarece Paul Rusesabagina sobre a razão que leva a que os países do ocidente não intervenham no genocídio que está a ocorrer no Ruanda. “Nós pensamos que vocês não valem nada, Paul”, explica ele de semblante triste. “Tu és um negro. Nem chegas a ser um preto. És africano.” Com este abandono por parte da comunidade internacional, o número de refugiados no seu hotel vai aumentando, à medida que a Cruz Vermelha, a Missão Católica local e a ONU lhe vão levando os seus órfãos, sem abrigos e feridos. Paul vai mantendo este grupo de pessoas vivo, através de subornos, favores que vai cobrando a amigos poderosos e de mentiras fantásticas que vai contando, enquanto espera juntamente com a sua mulher e as suas crianças que surja alguma (improvável) esperança no meio do caos e da morte que se encontra fora das paredes do hotel. A magnitude do horror que vai acontecendo pelas ruas é apenas apresentado em breves vislumbres de corpos amontoados, de milícias enlouquecidas por um pensamento extremista que vão barricando as estradas e das fotografias que um jornalista americano vai fazendo nos seus relatos do genocídio, retratando adequadamente a carnificina e a sensação de loucura que foram vividos, durante 100 dias. Entretanto, o perigo a que Paul, a sua mulher Tatiana e os vários sobreviventes vão sendo expostos é chocantemente palpável. Vezes sem conta, a Morte passa à porta do hotel, chegando, por vezes, a ultrapassar os seus muros, mas acabando sempre por ser impedida por uma intervenção repentina.

“Oh, come on, Paul, you’re the smartest man here. You got ‘em all eating out of your hands. You could own this frigging hotel, except for one thing. You’re black. You’re not even a nigger. You’re an African. They’re not going to stay, Paul. They’re not going to stop this slaughter.”

(Colonel Oliver)

Observando o genocídio que vai sendo perpetuado, primeiro incrédulo e depois em angustiado, Paul, o insistentemente humano gerente de hotel, é um Hutu educado e com uma grande capacidade persuasiva, uma personagem que pretende representar o herói de uma história verídica, em que um homem escapou, com a sua família, à morte várias vezes e que, simultaneamente, salvou mais de 1200 Tutsis e Hutu moderados, ao abriga-los no hotel que geria e subornando as milícias. Rusesabagina é um homem atento ao que o rodeia, compreendendo as consequências que o poder tem no ser humano, mas é necessário assistir à queda da humanidade no seu país para que seja capaz de reconhecer a maldade no Homem. A sua grande mais valia é facto de ter um conjunto alargado de contactos no exército, a quem subornava regularmente com whiskey e cigarros cubanos, que o tornavam popular aos olhos da população local. Contudo, tanto ele, como a sua mulher sabiam que a sua popularidade só dura, enquanto tiver abastecimentos dos produtos que usa para trocar por favores.

“There will be no rescue, no intervention force. We can only save ourselves. Many of you know influential people abroad, you must call these people. You must tell them what will happen to us… say goodbye. But when you say goodbye, say it as though you are reaching through the phone and holding their hand. Let them know that if they let go of that hand, you will die. We must shame them into sending help.”

(Paul Rusesabagina)

Existem paralelos óbvios que podem ser feitos entre Hotel Ruanda e A Lista de Schindler, já que ambos os filmes demonstram o modo como uma única pessoa pode marcar a diferença, mesmo em momentos em que é confrontada com actos inumanos feitos entre o ser humano. No entanto, a violência perpetuada no Ruanda é impressionantemente diferente da que foi realizada no Holocausto Nazi, já que a selvageria em que o genocídio neste país africano é realizado num regozijo demente. Ao longo do filme é possível ver camiões militares cheios de soldados armados da Interahamwe alegres por terem morto Tutsis, festejando pelas ruas da capital do país, Kigali, como se tratasse de uma vitória no Mundial de Futebol. É inevitável terminar o filme com a desconfortante sensação de que, caso existissem as condições para a ocorrência de uma perfeita tempestade de ódio, uma catástrofe semelhante poderia acontecer em qualquer ponto do globo.

“I think if people see this footage, they’ll say ‘Oh, my God, that’s horrible’. And then they’ll go on eating their dinners.”

(Jack Daglish)

No Ruanda, o desafio de garantir a reconstrução, reconciliação e estabilidade social era, há 20 anos, extraordinário, porém, desde a abolição, em 1996, dos Cartões de Identidade com referência à pertença étnica constituiu um marco importante para uma nova fase na vida do país. Para atenuar o sofrimento dos que sobreviveram ao genocídio e restaurar a confiança nas instituições sociais, introduziu-se, em 2001, o sistema judicial tradicional conhecido como Gacaca, que tratou de cerca de 1,5 milhões de casos de suspeita de participação no Genocídio. Tudo indica que os ruandeses estão a trilhar um novo caminho, juntos, deixando, cada vez mais, para trás os episódios terríveis do passado. No entanto, na eleição dos seus representantes, a escolha recai, sobretudo, na sua pertença social e não nos ideais políticos, ou nas propostas legislativas. Os ruandeses Tutsi e Hutu já podem casar e têm os mesmos direitos, mas a grande maioria continua a viver ignorando o outro grupo e estranhando-se, sendo ainda normal acrescentarem, imediatamente a seguir à nacionalidade, a denominação Hutu, ou Tutsi. A democracia é um processo lento e no Ruanda tem apenas 20 anos. Está em plena adolescência. Talvez daqui por mais alguns anos, quando atingir a maturidade, o peso das ideias e dos projectos políticos seja mais forte do que o peso das divisões sociais.

“We will never forget the genocide, but we will not be defined by it either.”

(Paul Kagame)

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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