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CrónicasSociedade

Mães e mãezinhas

Há poucos dias celebrou-se o Dia da Mãe.

Nestes dias, nos dias de homenagem, páro sempre para pensar naqueles que não o celebram, por qualquer motivo ou razão. Recordo-me, a propósito, de uma desconstrucção do drama, que li não sei onde, qualquer coisa como: “ passar o Dia dos Namorados sem namorado, é como passar o Dia da Árvore sem abraçar uma”. Mas se há temas que se levam com ligeireza, outros há que marcam a ferro e fogo.

Nestes dias, somos bombardeados por lembranças, de âmbito comercial, para o dia e para a necessidade de ofertar um presente. Desde o mais comum supermercado, às lojas de rua, ao marketing profundo dos centros comerciais, por todo o lado se vêem inscrições alusivas ao tema. Se é um dia feliz para quem tem Mãe, haverá quem tente passar pelo dia o mais rápido e incólume que possa.

Falo daqueles que tiveram uma profunda relação com as mães, de cumplicidade, carinho, respeito mútuo, mas que presentemente já não se encontram entre nós, tendo falecido pelas vicissitudes da vida. Tenho uma amiga, que frequentemente expressa a saudade que tem da mãe, a falta que lhe faz, referindo como se sente desapoiada e insegura sem a sua palavra de apoio. E a senhora em questão já é avó, tem uma vida estruturada e equilibrada, no entanto, como ela diz, falta-lhe um pedaço.

Todavia, parece-me que, pior do que sentir saudades duma mãe querida que faleceu, é ter uma mãe viva, mas emocionalmente ausente, por óbvia opção desta. Refiro-me a questões emocionais, não necessariamente ausência física, embora quase sempre existente. Nestes casos, habitualmente, não houve berço de emoções, não houve cumplicidade, amor, compreensão. Predomina uma frieza, uma falta de empatia, uma incapacidade de amar. Quem não conhece casos de crianças abandonadas civilmente, como as que crescem em Associações, ou mesmo manifestações de desinteresse pelas mesmas, muitas vezes deixadas a cargo de familiares, sem razão válida para que tal aconteça. Ou mesmo mães, aparentemente integradas em famílias convencionais, que demonstram a cada dia a sua incompetência e falta de vocação.  Mães que o foram para cumprir calendário ou pressões sociais, apenas. A ausência de mãe, sobretudo uma que se sabe viva, mas completamente ausente, dói. Ou se não dói, se já não dói, é porque caiu na indiferença. Que vontade têm estes filhos de comemorar o dia? Nenhuma.

 Este é um assunto difícil de abordar.

Por um lado, não têm o que comemorar. Por outro, são socialmente recriminados.

Tem-se em conta, universalmente, que mãe é boa, que não o pode ser de outra forma, que é o esplendor da natureza no seu aspecto mais profundo. Qualquer desabafo proferido por estes filhos é tido como inverosímil, exagero, e é normalmente respondido com um: “mãe é mãe”, como se isso justificasse tudo, como se as mães fossem sempre correctas, ou pelo menos bem-intencionadas. É mentira, mas a ideia, por si só, da possibilidade duma mãe maléfica é tão aterradora, que é mais fácil desconsiderar a vítima, não acreditando no seu sofrimento, do que por em causa os princípios básicos.

Descobri, há uns anos, a existência de grupos de apoio para filhos de mães narcisistas.  Estas mães sujeitam os filhos a sofrimentos atrozes, desde o nascimento, procurando moldá-los à sua imagem, com controlo absoluto sobre os seus actos, desmérito pelas suas capacidades ou autonomias, sejam crianças,  sejam adultos. Imiscuem-se agressivamente na vida dos filhos, desapoiam as suas iniciativas, considerando-as incorrectas, não respeitam espaço próprio, procurando isola-lo das outras pessoas, para que sejam totalmente controláveis e, sigam os seus propósitos. Basicamente, sentem-se donos dos filhos, procurando denegrir a confiança destes em si próprios, para que estes necessitem dela nas tarefas mais básicas. Noutros casos, usam o poder financeiro para fazer prevalecer as suas opções. Outras vezes, criam problemas, intencionalmente, nos casamentos  ou nos empregos dos filhos, ou denigrem os filhos face a terceiros. São incapazes de um carinho ou interesse legítimo, gabando-se antes das conquistas dos filhos como se fossem resultado das suas acções. Noutra vertente, aparecem apenas para colher proveito, afastando-se sempre que seja requerido alguma ajuda, em relação aos netos, por exemplo.

Nestas situações, que acredito difíceis de imaginar por aqueles que as desconhecem, é corrente uma pergunta : o que sentiria se a sua mãe morresse? A amplitude varia entre a pena de não ter tido uma mãe, e, portanto, já não ser possível vir a tê-la, e a outra, bem mais chocante, que é o alívio. Recordo alguém que dizia: como posso sentir falta ou saudade de quem não esteve presente, ou pior, só esteve para me dificultar toda uma vida?

Pior do que uma mãe ausente, ou uma mãe aterradora, é uma mãe que, aproximando-se a doença, ou a velhice, declara a obrigação do filho, abandonado ou maltratado, tomar conta dela. Ainda que seja necessário vitimizar-se, exagerar as maleitas, gosta de se fazer pesar, independentemente de tudo o que fez, como se a consanguinidade só criasse deveres do filho perante a mãe, mas nunca o contrário. Como se procurasse, na ausência de sentimentos, a geração espontânea de um amor filial. Como se pudesse exigir a disponibilidade que não demonstrou com o filho.

Os filhos destas mães, dependendo da sua personalidade, podem crescer a duvidar das suas próprias capacidades, sentindo-se desmerecedores do amor alheio. Isto é fácil de compreender: se a mãe não gosta da criança, quem vai gostar? Mais do que isso, pode condicionar a sua visão da maternidade ou paternidade. Pode não querer exercê-la, por recear aplacar sobre outrem o sofrimento que passou, ou, pelo contrário, querer ser a mãe ou o pai que não teve, procurando gerar um ser confiante, amado e feliz.

O que dói, para além do facto de terem crescido desapoiados, é a injustiça com que são desconsiderados pelos demais, como se, para além de vítimas do desamor, fossem responsabilizados pela falta de um amor que não teve semente paternal, por corresponderem com nada ao nada que lhes foi dado. Não se pode exigir a alguém que seja filho, quando não se teve mãe nem pai.

Termino elogiando as mães falíveis, mas esforçadas.

A maioria, felizmente, afinal.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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