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“Livre não sou, que nem a própria vida mo consente”

Temos que estudar, temos que trabalhar, temos que ganhar dinheiro. Não fazemos isto porque alguém pode ver, não apontamos para aquilo porque parece mal, não dizemos aqueloutro porque podem achar que não é correto. Entre gadgets e cumprimentos do dever, vamos extinguindo a autonomia pessoal. Entre regras, preconceitos, política, religião e desejos, vamos aniquilando o que nos resta de uma liberdade almejada.

Pensar a liberdade é uma tarefa difícil. Chega até a ser arriscada, porque, enquanto pretensos filósofos, podemos deparar com a cruel inexistência objectiva e absoluta do conceito. Lá no plano das ideias, a liberdade voa, sorri e é possível sentir o seu toque ao de leve. Cá em baixo, onde há família, escola e uma sociedade feita de comunidades, a palavra é apenas uma música que nos permite sonhar e sonhar. E, após a experiência onírica, é natural que a ciência, a idade e o pensamento crítico nos levem através de uma jornada dura a que comummente chamamos vida.

Vivemos armadilhados: prendem-nos os dilemas e as convenções que querem, a todo o custo, solucionar os impasses; prende-nos a força da gravidade e as leis que procuram, de todas as formas, explicar o que nos move.

E se não quisermos mover-nos? E se simplesmente desejarmos estagnar? E se não quisermos ter planos? E se não quisermos escolher? Também nestas questões reside a fonte da inexistência completa da liberdade, já que escolher não ter é uma escolha em si mesma.

Seguindo a linha de pensamento de Álvaro de Campos, diríamos que a liberdade é “pensar sem desejos nem convicções”. Contudo, toda esta ideia funciona apenas num mero plano ideal que os sentidos não logram alcançar. “Livre não sou, que nem a própria vida mo consente”, resumiu Miguel Torga.

Somos prisioneiros de nós mesmos, na nossa condição física. Somos prisioneiros dos outros, na nossa caracterização de seres sociais. E somos prisioneiros da liberdade porque, de tanto a querermos, ela já nos acorrentou. No entanto, infelizmente, nunca sentimos – nem nunca haveremos de sentir – as suas amarras libertadoras.

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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