Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
SociedadeSociedade

Lisboa chora agora, não há filho teu (branco) que não te venda

Reflexo dos tempos modernos e do mercado imobiliário escandaloso que se instalou em Lisboa, fui mais uma daquelas pessoas que recebeu a cartinha do senhorio em casa, indicando a falta de interesse em renovar o contrato de arrendamento. Por outras palavras, tive que me fazer ao idealista, perscrutar todos os anúncios sobre casas com uma renda minimamente aceitável e acionar uma série de notificações infernais sobre as casas que estão dentro das minhas preferências. Quando as abro, começa todo um rol de contactos, geralmente infrutíferos, que terminam comigo já na dúvida sobre que casa era aquela, a fazer cálculos do tempo que vou demorar do trabalho até casa ou a fazer uma análise virtual da zona através do Google Maps.

Contudo, não escrevo para me queixar do mercado, já toda a gente sabe que o dito anda em altas, embora não se perceba bem em que altas, visto que o comum dos mortais não está, claramente, no mesmo nível.

Escrevo num simples desabafo, porque, tal como todos aqueles que procuram casa, me queixei desta procura, dizendo que está difícil. Encontrar casa é um processo dispendioso no que diz respeito ao tempo, à paciência e resiliência. Porém, aquilo que não esperava, talvez porque nesse sentido os meus privilégios me criassem uma espécie de ângulo morto, era de chegar à conclusão que os senhorios são, em pleno 2018, racistas. Não generalizando, mas assumindo uma larga escala, não escrevo estas palavras porque me apeteça, acreditem que gostaria de escrever um artigo reivindicando o contrário, mas sim porque adquiri conhecimento de causa no processo.

Tive que falar com inúmeros senhorios e/ou imobiliários durante a cruzada, como se calcula. Faz parte, ir lá ver a casa, tentar dar o ar da nossa graça, tentar que gostem de nós, porque tudo conta (até os erros ortográficos, segundo entendi, viraram método de seleção, fica a dica para quem procura). Aquilo que concluí é que, na verdade, além do valor que se oferece pelo apartamento, o ar da nossa graça vale tanto ou mais.

Não tive um único imobiliário ou senhorio que não fizesse menção ao seu ideal de inquilino. É sempre o indivíduo exemplar, que não dá problemas, o bom-pai-de-família-homem-ponderado que qualquer um de nós tenta ser. E é sempre, adivinhem… caucasiano, mas, calma, não desesperem já, que também todos eles me garantiram que não eram racistas. Só usam a etnia como argumento para não arrendarem a casa a essa pessoa. Não vá o novo inquilino criar mau ambiente no prédio (sim, eu ouvi este tipo de coisas).

Não vou ser hipócrita e dizer que, possuindo um imóvel que reconstruí com todo o carinho e com todo o esforço financeiro, não teria cuidado com as pessoas que lá poria. Contudo, assumir à partida que um negro ou um brasileiro não vão pagar as contas (também ouvi isto), quando há toda uma análise formal e totalmente avassaladora do Direito à Intimidade e Vida Privada que é feita, é puro racismo ou xenofobia.

Para não falar em abstrato, deixo-vos com o tipo de coisas que são exigidas aos candidatos a inquilinos, informação retirada diretamente do meu e-mail, atulhado de contactos sobre arrendamentos, a saber: a indicação da nacionalidade da pessoa que lá vai viver, enquadramento laboral (e vínculo à empresa), cópia de cartão de cidadão e NIF (potencial inquilino e fiador), último IRS (inquilino e fiador), profissão, últimos três recibos de vencimento. De repente virei empresa e fazem-me uma Due Dilligence inteira antes de me comprar. No entanto, poderíamos pensar que um brasileiro, um negro, um indiano, o que for, fornecendo estes dados, que permitem assumir que pagaria o valor da renda, estaria nas mesmas condições que um caucasiano, enquanto potencial inquilino. Não está.

Ainda queremos nós falar da importância da integração de outras etnias em bairros chiques e citadinos. Não há como, se somos nós que não deixamos.

No final, acabei por conseguir encontrar casa, num sítio bem chique, por sinal. Uma questão de sorte. Os outros inquilinos, puxando a brasa ao eufemismo, não iam bem ao encontro do que a senhoria pretendia, mesmo oferecendo valores mais altos. Fiquei muito feliz por ter conseguido a casa, mas fica sempre um sentimento misto de traição. Verdade seja dita, não tive como não ser cúmplice. Num mundo perfeito, não contribuiria para esta senda, voltava as costas a um senhorio xenófobo e só aceitava uma casa, quando encontrasse um que não fosse. Ainda assim, se o fizesse, arriscava-me a chegar a minha data de saída da minha casa atual sem encontrar uma nova.

Está difícil encontrar casa, mas eu estou numa posição vantajosa. No final de contas, o tom da minha pele destinou-me uma casa. E quem não tem esta facilidade? Quão difícil está encontrar casa? Encontra, sequer?

(Título adaptado de Luis Severo, Amor e Verdade)
Show More

Beatriz Ribeiro

Jurista na área das Ciências e Tecnologias

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: