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Liberdade

Sentia a língua áspera do gato a lamber-lhe a bochecha. Slurp. Slurp. Slurp. Devagar, contínuo, como se estivesse a saborear um gelado. Ele semi-abria os olhos com dificuldade, e tentava afastar o gato para voltar a dormir, mas sem êxito. E depois, um só segundo depois, lembrava-se: era hora! Fizesse frio ou calor, saltava da cama a correr, como se se tivesse queimado. O gato, enorme, da cor das cinzas da lareira da casa da avó, com os seus grandes olhos verdes observava o rapaz de dez anos que se vestia apressadamente, olhando para o animal em expectativa. Sorria, saltitava, e trocava o pijama pelo fato de treino.

“Vamos, Sebastião?” perguntava ele ao gato, assim que acabava de atar as sapatilhas.

E a aventura começava.

O animal guiava-o até à janela, onde miava baixinho; um som alongado e suave que pedia, com carinho, ajuda. O rapaz abria a janela sem esforço, já conhecia o truque. Todos os dias começavam assim, como uma espécie de ritual, sem que eles próprios soubessem dar nome ao que sentiam. Depois, o gato guiava-o agilmente pelas escadas de incêncio, até aos telhados. O rapaz, também ágil, como se ele próprio se transformasse num felino, subia silenciosamente e saltava de escada em escada, de muro em muro, de telha em telha. Sem peso, e com saltos tão grandes como os do animal, imaginava-se um ninja, um super-herói. Saltava enquanto fazia sons de luta, combatendo uma pessoa má e invisível, sempre em companhia do seu fiel amigo. Outras vezes era um ladrão a fugir de um polícia, com o gato como seu cúmplice. A lua gigante no céu iluminava os seus passos, observava aquela excursão nocturna dos dois companheiros. No caminho, encontravam outros gatos que já conheciam, o rapaz assentia quando ouvia o miar de algum deles a cumprimentá-los, a reconhecê-los, embora fosse raro – os gatos são animais muito independentes que não se metem em assuntos alheios.

O que o rapaz mais gostava era de andar em cima das cordas de estender a roupa e nos cabos da electricidade. Não era perigoso; eles imitavam os pássaros, os outros gatos, as lagartixas, as aranhas. Sabiam sempre onde andar, quando, quais os postes a escolher. Ele andava com os braços abertos, leve e mágico qual equilibrista, e sempre com o gato atrás, fingindo-se num circo onde os tambores rufavam e havia um palhaço a trocar trompete. Imaginava o seu nome gritado de forma arrastada, as pessoas a taparem os olhos com medo, a tentarem ver entre os dedos o que se iria passar, e ele sempre a superar a arriscada prova. Assim que deixava os fios, as cordas, os cabos, assim que os pés tocavam algo mais firme, ele ouvia os aplausos das pessoas, e, de olhos fechados, fazia vénias a agradecer.

O gato miava, chamando a atenção, e adiantava-lhe o passo. Ele corria pela cidade, saltando, cantando, mas sem parar, até ao ferro-velho. Era ali onde os encontrava: as outras crianças que também saíam à noite atrás dos seus animais.

Muitas vinham com ratos, outras com coelhos, ainda algumas com pássaros, mas a maioria tinha sempre gatos e cães. Conheceu algumas com répteis, mas eram raras. E quando se encontravam, a noite escura, misteriosa e mágica era passada a correr, a esconder-se, a brincar. Saltavam alto, como se tivessem molas nos pés, e corriam tão rápido como um comboio. Ou cavalgavam em cima dos cães que eram maiores. Escondiam-se tão silenciosamente como gatos e ratos, até que um deles, ao vê-los enquanto voava junto com os pássaros, gritava “Apanhei-te!”. Quando se sentiam cansados, deitavam-se nos carros velhos descapotáveis e observavam as estrelas. Não estavam longe, como quando pareciam estar quando eles as observavam de outro sítio qualquer; ali, no ferro-velho, as estrelas estavam tão perto que eles tocavam e queimavam-se, rindo. Havia luzes que os rodeavam, de todas as cores, pequenas estrelinhas de várias formas que andavam de volta deles, pequenos pirilampos provocadores que fugiam por entre os dedos. E eles riam-se, e fingiam que os apanhavam, e riam-se ainda mais, e, sem saber descrever o sentimento, sentiam a alma cheia e o coração feliz.

Só iam embora quando aparecia o João Pestana, vestido com um pijama de riscas, com um barrete a condizer, que corria atrás deles munido da sua vassoura gigante e os expulsava. Eles corriam para todos os lados, ainda a rir, ainda com energia, e fugiam com os seus animais para casa, para a cama, para sonhar.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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