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Ler-te, cantando

A cultura de convergência há muito que veio para ficar, a conjugação das várias formas de arte cria verdadeiras obras-primas, marcadas por estilos híbridos que se tornam diferentes, desde logo no seu processo de composição. É mais comum discutir-se o cruzamento entre literatura e cinema, mas, a música, também tem, neste âmbito, um papel fundamental e muitas provas de sucesso convergente.

A literatura inspira tudo e todos. Inspira-nos no trabalho, no caminho para casa, antes de dormir, ao acordar. São letras e palavras que nos entram na alma, nos fazem exprimir emoções ocultas, nos consomem em forma de diversos estados de espírito sem solicitar licença, isto porque os refletem, de forma involuntária, mas, soberba. Com tal poder, é natural colocar a hipótese da música também se inspirar nessas palavras, nessas letras, nesses ritmos falados. Por vezes, são as letras originais das músicas que poderiam resultar em boas histórias, ou em bons romances, mas, não são raras as vezes que os romances, ou contos já mereceram músicas, referências e inspirações em bandas que costumamos ouvir rotineiramente.

Curiosos? Eis alguns exemplos.

Brandon Flowers, vocalista da banda de Las Vegas, The Killers, lançou este ano o seu segundo álbum a solo. Não é preciso conhecer o trabalho na íntegra para destacar um cruzamento de sucesso entre música e literatura. Está presente logo no single de lançamento, Can’t Deny My Love. Tanto a música, como o vídeo que a acompanha, são inspirados na história de Nathaniel Hawthorne, intitulada de Young Goodman Brown. Esta é uma inspiração reconhecível e declarada oficialmente pelo músico que admite basear-se em várias histórias para compor as suas músicas, tanto nos álbuns a solo, como nos The Killers, quer sejam histórias publicadas, ou apenas histórias que ouve na rua, em cafés, histórias de pessoas e vivências de terceiros. Can’t Deny My Love conseguiu apreender a essência de um conto algo macabro e gótico, transformando-o com uma dinâmica mundana e filosófica, mais poética até, em certo sentido auditivo. A inspiração não é imitação. Aconselho vivamente a leitura da obra e a apreciação do videoclipe, juntamente com a música.

Iron Maiden! Surpreendidos? Ainda que não seja prática corrente, as bandas conotadas com sons mais pesados também recorrem à literatura. Isto claro, se excluirmos a fixação dos Led Zeppelin pelas obras de Tolkien. Quem quiser comprovar a inspiração dos Iron Maiden, nada melhor do que ouvir Seventh Son, uma música inspirada nos escritos de Orson Scott e Trooper, uma música genial extraída com elementos da poesia de Tennyson sobre a guerra da Crimeia, entre 1853 e 1856.

Dylan. Bob Dylan. Um dos mais geniais compositores que já leu, cantando, já encantou, cantando, já iluminou pensamentos, cantando e tocando. Também ele foi estabelecendo, ao longo dos tempos e da sua discografia, vários elos de ligação com alguns escritores e algumas obras. Os preferidos e mais citados do norte-americano são, provavelmente, Arthur Rumbaud e Paul Verlaine. A música, Desolation Row, tem claras referências a T.S. Elliot e deverá ser o melhor exemplo em termos de canção inspirada por elementos literários. E que canção.

Mesmo na música portuguesa existem (e existiram) vários cantores de referência nacional que utilizaram a literatura e até cantaram poemas em alguma fase das suas carreiras, em alguma música, em alguma expressão musical e sonora. Amália Rodrigues, José Afonso, António Variações, Manel Cruz, Rui Veloso ou Carlos do Carmo são exemplos perfeitos e sugestões mais do que válidas para você, leitor sombra, descobrir, nas respetivas discografias, grandes palavras, grandes quadras, sonetos, grandes obras cantadas. É possível ler, cantando.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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