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CinemaCultura

LEFFEST’17: Derradeira Viagem

crítica ao novo filme de Richard Linklater

“Last Flag Flying” ou “Derradeira Viagem” é o mais recente contributo de Richard Linklater para a sétima arte e não poderíamos estar mais gratos. 

Já aqui o dizemos, aquando da crítica a “Geração Fast Food” (2003), uma caricatural comédia sobre o consumo alimentar, o quanto somos fascinados pelo trabalho de Richard Linklater. De uma versatilidade infinita, e numa carreira onde se destacam títulos como “Boyhood: Momentos de uma Vida” (2014), amplamente considerado como um dos melhores filmes da década, ou a trilogia “Antes do Amanhecer” (1995), “Antes do Anoitecer” (2004), e “Antes da Meia-Noite” (2013), Linklater é um dos mais profícuos cineastas americanos. Há mais de duas décadas em atividade, o cineasta parece querer resistir enquanto autor de cinema independente, e mantém a sua originalidade por contar aquelas estórias de cidadãos comuns, pessoas com vidas banais como a nossa, e que vivem em locais vulgares.

Por essa razão, ter oportunidade de ir ao primeiro dia do LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival’17 -, assistir ao seu mais recente filme é quase como um presente de Natal antecipado. Deste cineasta só poderíamos esperar coisa boa, e aqui está finalmente o seu “Last Flag Flying”, que recebe o título português “Derradeira Viagem”, apresentado na secção Selecção Oficial – Fora de Competição.

“Derradeira Viagem” é visto para muitos como uma (semi-)sequela de “O Último Dever” (Hal Ashby, 1973), afinal ambos os filmes são baseados em romances de Darryl Ponicsan, que desta vez assume ainda a tarefa de co-argumentista, ao lado de Richard Linklater. A trama foca-se em três veteranos norte-americanos da Marinha que, em 2003, e quase trinta anos depois de terem servido juntos na Guerra do Vietname, se reencontram. Larry “Doc” Shepherd (Steve Carell) antigo médico da Marinha norte-americana, reúne-se com Sal Nealon (Bryan Cranston), ex-fuzileiro, agora um homem de meia-idade alcóolico, e com o pacífico Reverendo Richard Mueller (Laurence Fishburne), que encontrou a fé depois da guerra no Vietname.

Doc é o elemento unificador deste grupo, e tudo em redor decorre da sua recente perda. Na realidade, o protagonista vê-se confrontado com uma missão diferente, talvez psicologicamente mais desafiante, do que daquela que o seu país lhe pedira aquando do seu serviço na Marinha. Doc tem de enterrar o seu filho, um jovem fuzileiro naval morto na Guerra do Iraque. Por sua vez, decide renunciar ao enterro no cemitério de Arlington e, com a ajuda dos antigos companheiros, inicia uma jornada peculiar para levar o caixão desde a Costa Leste até casa, em New Hampshire.

Ao longo da viagem, que é também uma viagem de redescoberta e de debates espirituais, físicos e psicológicos, o trio improvável recorda e reconcilia-se com as suas memórias da guerra, que continuam a afetar as suas vidas. O que “Derradeira Viagem” tem de mais eficaz e agradável é obviamente a química entre os seus três atores. Os seus diálogos reforçam o drama no enredo, mas também o seu lado mais cómico e agridoce, em muito devido aos comentários pejorativos que no decurso da narrativa vão sendo tecidos pelo sempre sarcástico Sal (Cranston arrisca-se mesmo a ser nomeado ao Óscar de Melhor Ator Secundário), nas situações menos apropriadas.

Esses comentários de Sal estabelecem-se, inclusive, como pólo oposto ao estado bem mais calmo que Doc apresenta face à perda, num papel que Steve Carrell desempenha de corpo e alma. Essa quietude exterior do protagonista aos poucos vai desaparecendo, à medida que a sua revolta diante das políticas do Estado americano se agrava. Por aqui, o filme consegue transpor aos seus espetadores uma mensagem no que respeita ao PTSD, o Transtorno do Stress Pós-Traumático, que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Percebemos o quanto cada um dos indivíduos procurou escapar àquelas memórias traumáticas, mas o reencontro com as mesmas, teria que chegar a certo ponto das suas vidas.

Nesta caminhada de reflexão e num cinema que se quer e que se diz americano, Richard Linklater demarca-se como um cineasta desconcertantemente preocupado em transpor a sua apreciação crítica sobre a política (seja interna, seja externa) norte-americana. O cineasta levanta questões ao nível do significado do patriotismo, dos direitos (e deveres) de cidadãos que se dizem honrados, mas também chama a atenção para alguma falta de reconhecimento aos veteranos do seu país. Aliás, a estreia do filme em solo americano aconteceu bem a tempo do Veterans Day, que é celebrado anualmente a 11 de novembro. Há, por si só, em Linklater uma persistência em mostrar aspectos mais representativos do que significa a expressão made in USA e todos os elementos que a simbolizam. Será que o uniforme representa o homem que deu a vida ou o sistema que a tirou? E a bandeira?

Quer isto dizer, que Richard Linklater filma os Estados Unidos da América introspetivamente,  para, em seguida, tecer as críticas mais fulminantes. Para fazê-lo, é quase como se precisasse de olhar a América como alguém de fora, distanciando-se dela. Talvez, por isso, surjam aqui e acolá, e consoante os locais que os protagonistas visitam, imagens televisivas de marcantes e controversas figuras políticas, como Saddam Hussein ou George W. Bush, que corroboram essa leitura do filme. Ou seja, é pela desconstrução de uma memória cultural que o ponto de vista crítico é também ele formado no espetador, passando-lhe, então, a pedir uma reformulação da memória coletiva. Linklater, em detrimento disso, pretende que o espetador “tipicamente americano” faça o mesmo que ele. Consiga olhar além de jogos de poder, para que depois se aperceba que existem muitas coisas que o unem aos outros seres humanos. Os sentimentos de luto, de alegria, de mágoa, são universais, assim como as relações.

O filme até pode dar mais atenção à relação entre amigos, mas todo ele vive da relação ausente entre pai e filho, que se personifica e que é subentendida de diversas formas. Uma delas será as guerras que se fazem corresponder, a Guerra do Vietname e a Guerra no Iraque. Trata-se de compreender os novos tempos, as guerras que são filhas uma das outras, e um passado histórico americano que continua a ter repercussões no presente, nessa vida de todos os dias que Linklater tanto preserva nos seus diálogos.

Em “Derradeira Viagem”, há também uma lição de moral para os seus protagonistas (e para nós espetadores), sobretudo, no que distingue a verdade e a mentira, e em especial quando uma determinada mentira poderá ser a verdade necessária, por muito que custe. A reformulação do que entendemos por sinceridade é um ponto poderosíssimo de uma experiência cinematográfica bastante despretensiosa, que tem um peso incrível: faz-nos estar gratos por cada dia mais que vivemos e por saber que há sempre amigos e conhecidos com quem poderemos contar. E assim com Richard Linklater chegam as armadilhas do tempo, e dos instantes. Estaremos prontos para as enfrentar? Diria que não, mas temos que estar prontos para as viver.

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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