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LEFFEST’16: O Herói de Hacksaw Ridge

O Herói de Hacksaw Ridge foi o filme de abertura do Lisbon & Estoril Film Festival 2016 e a escolha não poderia ter sido mais certeira, afinal estamos, desde já, diante de um mais importantes filmes do ano.

Uma das cenas mais interessantes de O Herói de Hacksaw Ridge é quando o protagonista Desmond T. Doss (Andrew Garfield) e a enfermeira, por quem este desenvolve uma crush, Dorothy Schutte (Teresa Palmer) estão no cinema a assistir ao filme documental Prelude to War (Frank Capra, 1942). Não é que o filme projetado seja muito importante para Doss (ou para qualquer outro espetador com quem partilha a sala), que está mais focado na beleza colossal do rosto da sua futura esposa. Contudo, o facto irónico e peculiar desses instantes é termos conhecimento que aquela foi uma das primeiras longas-metragens oficiais do governo norte-americano que descrevia os vários inimigos dos Países Aliados e as razões plausíveis para estes serem travados, quando contraditoriamente O Herói de Hacksaw Ridge é um filme sobre um homem pacífico, que não acredita nem um pouco na violência.

Muito o espetador irá questionar como é que O Herói de Hacksaw Ridge pode ser um filme focado um herói sem armas. Não é uma história inspirada nos comics da Marvel ou da DC Comics, embora o título português conduza a alguma confusão e o seu protagonista tenha desempenhado o papel de O Fantástico Homem-Aranha em dois filmes. Também não é uma história de repetitivas lamechices, onde o herói salva a donzela e o filme termina com um happy-ending, quase sem o espetador dar de conta. Na verdade, e por muito que lhe possa custar, O Herói de Hacksaw Ridge é uma história verídica (mais uma?!) sobre o jovem Desmond Doss que decide tomar uma decisão importante na sua vida: alistar-se no exército para servir o seu país na Segunda Guerra Mundial (em que os Estados Unidos entraram logo após o Ataque a Pearl Harbour, que ocorreu a 7 de dezembro de 1941). Mas, Doss não é um homem vulgar, é um homem de extrema fé que se recusa, durante todos os momentos do conflito, a carregar uma arma e que, por sua vez, que se recusa a matar, mesmo que numa situação mais ou menos desesperante.

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A trama de O Herói de Hacksaw Ridge não serve apenas para celebrar a figura de um jovem, bom samaritano e adventista do sétimo dia, que se tornou das pessoas mais corajosas da história da nação americana ao ser um objector de consciência durante toda a Batalha de Okinawa, no Japão, onde acabaria por salvar a vida a 75 dos seus colegas, enquanto socorrista da Cruz Vermelha. Esta história é essencialmente uma celebração do cinema de Mel Gibson como realizador, num dos regressos mais comentados do ano, afinal Gibson já não dirigia um projeto desde que Apocalypto estreou em 2006, a que se seguiram uma série de polémicas (comentários anti-semitas, embriaguez e excesso de velocidade e acusações de violência doméstica). Contradições pessoais à parte, O Herói de Hacksaw Ridge é a celebração da mestria de um cineasta que nas suas assombrosas imagens dá sentido ao paradoxal confronto entre violência e paz, muito ao encontro daquilo que anteriormente vinculara através de Braveheart e  A Paixão de Cristo – este último com imagens tão sangrentas e cruéis que porventura esquecemos que estávamos diante um filme rotulado como bíblico. A admiração de Gibson pelas atitudes de Doss criam não só um espetáculo cinematográfico, ao encontro da vida de Jesus Cristo, justificando como poderá o cinema mistificar o espírito de um homem, que dedicou a sua admirável vida a ajudar os outros.

Na verdade, embora o filme se inicie com a promessa que teremos das melhores cenas de guerra desde que há memória no cinema recente, O Herói de Hacksaw Ridge afasta-se imediatamente dessa perspetiva para a construção da persona de Desmond e para as suas tão convictas e exímias crenças, que remontam, em primeiro lugar, a uma luta quase fatal com o seu irmão, quando ainda eram crianças, e à presença autoritária do seu violento pai alcoólatra (interpretado por Hugo Weaving), um combatente da Grande Guerra). Só depois, passados quinze anos, é que conhecemos Dorothy, num romance que nos é familiar, porque muito próximo a um certo classicismo hollywoodesco, quer na sua idealização, quer por alguma inocência do casal que à sua maneira tenta encontrar um lugar no mundo. Mais tarde, após os dados estarem lançados no campo emocional, é que O Herói de Hacksaw Ridge parte para a batalha (que é também social), ou melhor, parte para a Base de Treino, onde os ideais de Desmond serão colocados em debate, custando-lhe a arrogância e o excessivo machismo de grande parte dos seus companheiros. Companheiros esses que mesclam o que já vimos noutros filmes do género: um é italiano e pequeno, outro é inteligente, outro um exibicionista apelidado de ‘Hollywood’ (e não é que a mise-en-abyme se associa a muitos outros filmes de hoje?), outro idiota, outro mais competitivo, até conhecermos o sargento Howell (Vince Vaughn, que não perde o seu lado cómico) e o arrogante capitão Glover (Sam Worthington). Aí, de facto, as personagens secundárias parecerão modelos estereotipados, mas Gibson sabe como aproveitar-se dessas representações, sobretudo por serem apenas uma peça-chave na caminhada de Doss.

O Herói de Hacksaw Ridge
Desmond Doss, à direita, a receber a medalha de honra por ser o primeiro objector de consciência dos Estados Unidos da América pelas mãos do presidente Harry Truman

Por isso é que o argumento de Andrew Knight e Robert Schenkkan sabe tão bem como se valer da filosofia de Doss. O peso da História nas palavras genuínas que as personagens proferem ou na sua deslocação em cena vai provar que ainda há cinema de guerra muito além d’Os Mercenários (que lamentavelmente Mel Gibson também participou). O Herói de Hacksaw Ridge é essa pura experiência de relações humanas e da relação do ‘eu’ com o mim. Quer isto dizer, que O Herói de Hacksaw Ridge navega pelos fantasmas da alma, numa experiência que de algum modo se posiciona num cinema moral e eticamente correto, onde o divino interpela o protagonista constantemente, quase que tomando posse dele. A interpretação de Andrew Garfield, que trabalha muito bem a sua dicção e a sua mente, mostra-nos seriamente isso.

Mel Gibson em O Herói de Hacksaw Ridge preocupa-se com as razões humanistas do cinema, que parecem estar em falta nos dias de hoje, e até vai além, colocando o protagonista num altar. Esta é senão a construção do Grande Herói Americano que consegue ser elevado aos céus, como, numa das cenas em que está suspenso numa maca, enquanto a câmara de Gibson ascende. A valer, O Herói de Hacksaw Ridge foca-se apenas no momento do conflito, sendo que o que vem depois, as perturbações do protagonista (doenças como o transtorno do stress pós-traumático – PSTD) são colocadas em segundo plano. Limitar-nos-emos a pensar como seria um homem de caráter a lidar com os pesadelos e delírios do conflito que deixa marcas austeras.

O Herói de Hacksaw Ridge é curiosamente um filme peculiar na carreira de Mel Gibson, algo que marca não apenas a sua redenção perante a crítica, como dizem por aí, mas também a sua redenção perante o público. Não será estranho observar O Herói de Hacksaw Ridge como visão idiossincrática de um mundo que parece ter perdido as noções de esperança, coragem e pacificidade. Ironicamente, a obra termina com imagens e conversas com o ‘verdadeiro’ Desmond T. Doss, retiradas porventura de um documentário, género esse que também se tem valido da dimensão heróica das suas personagens.

O HERÓI DE HACKSAW RIDGE É UM DOS FILMES DA SECÇÃO FORA DE COMPETIÇÃO DO LISBON & ESTORIL FILM FESTIVAL 2016, QUE DECORRE ENTRE 4 A 13 DE NOVEMBRO. 

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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