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CinemaCultura

LEFFEST’16: London Town – The Clash

London Town é um filme singularmente interessante, sobre um jovem em crescimento, que por surpresa conhece Joe Strummer, o vocalista da banda The Clash.

Se pensava que Sing Street, a obra musical de John Carney sobre o coming-of-age de um miúdo amante de música, era a única que veria neste ano, então engana-se. O Lisbon & Estoril Film Festival garante a antestreia de London Town – The Clash, que se coloca na mesma linha, mas em vez dos revolucionários anos 80, mostra-nos os tensos finais da década de 70.

Além disso e embora a banda britânica The Clash seja central para a trama de London Town, o filme não é certamente uma história sobre este tão importante grupo que percorreu vários palcos durante dez anos, entre 1976 e 1986. No entanto não deixa de ser relevante destacar esta banda, que incorporava nas suas canções um estilo pop-rock e reggae e que demonstrou ter peso social com uma sofisticação lírica a reenviar às hiperbólicas políticas que estavam a ser tomadas na época. A mesma banda foi criada em Londres juntando os guitarristas Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Terry Chimes, na bateria. As suas músicas são tão lendárias que se nota neste filme, que agora lhes tenta prestar homenagem, o espírito das suas canções que criticavam os cortes governamentais, a crise económica, e a ascensão dos grupos neo-nazis no Reino Unido que queriam limitar a entrada de imigrantes e exigiam a repatriação dos mesmos, algo que retém algumas ressonâncias contemporâneas devido ao Brexit.

The Clash.
The Clash.

London Town reduz todos esses problemas sociais à vida pessoal um jovem de 14 anos chamado Shay Baker (Daniel Huttlestone) que está farto de viver na pequena área suburbana de Wanstead e que um dia gostava de ir morar para o centro de Londres. Os seus sonhos podem estar prestes a concretizar-se quando conhece Vivian (a magnética Nell Williams), uma miúda rebelde que lhe apresenta o melhor dos grupos musicais da sua geração: The Clash. A partir daí Shay irá cruzar-se como o vocalista Joe Strummer, em vários encontros que, na verdade, são todos fictícios, numa versão que tenta repercutir a mágica presença de Humphrey Bogart, que assombrava a personagem de Woody Allen na comédia Play It Again, Sam, através de uma indulgente variedade de conselhos.

Na prática, este London Town tenta notadamente colocar Joe Strummer (que faleceu em 2002) no patamar de pai/irmão mais velho/mentor. Aliás a personagem de John Rhys Meyers, que demonstra bem o estilo do real, é somente uma peça-chave na tentativa de reestruturação do ambiente familiar da personagem principal, que está em crise, correspondendo a uma amostra das transformações do período. Tudo acontece depois do pai de Shay, dono de uma loja de música e motorista de táxi a tempo parcial, ter um acidente, um pouco ou nada original. Ao ser hospitalizado de emergência, Shay e sua risonha irmã mais nova precisam se defender e começam agir como adultos, sobretudo ele que aprende a conduzir e lidar, da melhor maneira possível, com as árduas tarefas domésticas. Já desesperado pela sucessiva série de desgraças, Shay procura pela sua mãe Sandrine (Natascha McElhone) que fugiu para o centro da metrópole, sem nunca mais dar notícias.

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Escrito por Matthew Brown, o responsável pelo drama O Homem Que Viu o Infinito e realizado por Derrick Borte, que também dirigiu Uma Família com Etiqueta, London Town assume-se por um lado, na linha do romance teenager, mas também coloca-se do lado do realismo social com alguns aspetos tradicionais do melodrama, tal como Sing Street fizera. A trama encontra-se seriamente preocupada em mostrar um jovem que é dos melhores alunos da sua turma, mas que não se sente feliz na sua célula familiar. Revoltado, irá ouvir novas músicas, pintar o cabelo e redefinir o seu guarda-roupa, mas nem por isso os problemas são resolvidos.

Aquando do inevitável reencontro com a sua mãe, Shay tenta compreender o porquê desta ter fugido das suas responsabilidades, mas nem ele, nem o espetador o conseguem. Apenas fica omnipresente a ideia de um confronto entre duas gerações completamente opostas: a dos baby-boomers (nascida no pós-segunda guerra mundial) e a Geração X, dos quais Sandrine e Shay são exemplos válidos. Natascha McElhone, que participou na versão Solaris, de Steven Soderbergh faz um esforço, mas o seu caráter é tanto bidimensional quanto caricato. Já Daniel Huttlestone consegue manter a atenção do espetador e transpõe bem a inocência e o amadurecimento de Shay, naquela que é a sua terceira participação no grande ecrã, depois de Caminhos da Floresta em 2014 e de Os Miseráveis em 2012 -sentimos que faltava cantar, por ser dos mais promissores talentos musicais da sua geração. Similarmente, a emancipação da primeira face à rebeldia do segundo, que não vê um futuro propício, é nostalgicamente sentida em cada concerto dos The Clash, com uma fulcral recorrência a imagens de arquivo determinantes na interligação ao tempo histórico, retiradas do peculiar e desconhecido documentário Rude Boy (1980).

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Contudo, hão há qualquer tensão emocional e a narrativa nunca chega a dar um verdadeiro grito de revolta como deveria fazê-lo, muitas vezes a deixar o final de um problema aberto para o início da tentativa de resolução de outro. As personagens secundárias são quase todas elas desperdiçadas, como a figura paterna que supostamente resistente, torna-se alguém inseguro e frouxo, também a mãe, na sua primeira cena, aparece como um anjo apoteótico (vejam-se os seus brilhantes cabelos louros) e a miúda punk aparentemente rude é apenas uma namorada ingénua, com um toque de donzela em apuros no seu mundo de extravagâncias.

Excepção clara para John Rys Meyers (que já interpretou um músico ao estilo de Elvis Presley e de David Bowie em Velvet Goldmine, de Todd Haynes), que nos poucos minutos que surge tenta mostrar a importância de Stummer na mudança de mentalidades e na reivindicação do papel social. Todavia, nunca é dado tempo para conhecermos os outros membros da banda, que nem sequer dizem uma palavra que seja. Ora, notamos que o impacto dos The Clash em Shay é paradoxal, porque seria idêntico se a narrativa apresentasse músicos ficcionais.

Enfim, os assuntos sociais verdadeiramente impactuantes conseguem ser ingredientes fulcrais em London Town, mas que acabam por ser suprimidos a favor de uma estética de good-feel movie para assistir num domingo ao serão.

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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