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Lacre em entrevista: A música que vem de dentro

Ouvir Lacre é fazer uma viagem ao interior do nosso ser. É escutar a nossa alma. É sentir cada nota a vibrar no nosso corpo. Uma música que não é indiferente a quem a escuta. São cinco os elementos que compõem este grupo musical transmontano, que está a deixar os portugueses rendidos à sua arte. O Repórter Sombra está atento e quis conhecer os segredos mais bem guardados dos Lacre.

Porquê Lacre?

O nome “Lacre” surgiu em cima da mesa como tantos outros. Depois de uma primeira análise decidimos por mútuo acordo, que esse seria o nome, que se adaptaria melhor ao género musical que caracteriza a nossa música, bem como, fazer dele um brasão que nos identificasse.

Como se conheceram e quando decidiram avançar com o projecto?

O Miguel Fernandes e o Yazalde, amigos de infância e companheiros de outros projectos musicais, encetaram o projecto nos finais do Verão de 2011, tendo à partida e em mente fazer um som intimista, plenamente acústico. Procuraram encontrar os músicos necessários à formação do projecto. Para isso puderam contar com a existência da Escola Superior de Educação de Bragança, onde se lecciona o curso de Educação Musical, que, por sua vez, lhes possibilitou fazer uma triagem e seleção mais consentânea com o que pretendiam, aí conheceram a Carolina Vieira, o Igor Ferreira e, por sua vez, o Rómulo Ferreira, que acabaram por lacrar a formação, enriquecendo-a com a excelência musical que lhes é inerente.

O mundo da música sempre foi uma ambição para todos os elementos do grupo? Paralelamente têm outros projectos, ou a música é a vossa prioridade?

O mundo da música é sempre uma ambição para quem cria música, independentemente, do género, estilo, ou gosto próprio. Todos os artistas gostariam de poder viver da arte que criam, mas, na maioria dos casos, não é possível. Cada vez mais é difícil poder “viver-se” da arte em si, com as directrizes para o Orçamento de Estado a reduzir, ano após ano, a fatia do bolo direccionada ao pelourinho da Cultura.

Os Lacre já passou a fase embrionária, encontra-se, agora, no processo de gatinhar. Com isto, queremos dizer que alguns de nós trabalham por necessidade e outros têm projectos pessoais paralelos, mas a música será sempre uma das nossas prioridades. Para nós, a música é uma extensão de respirar, de sentir, a geada nos dedos a cada Inverno, de ver que afinal um belo pôr-do-sol pode ser tão belo quanto um imponente luar, de perscrutar que no silêncio existe mais música, que numa miríade de acordes fugazes.

Como definem o vosso estilo de música?

A “canção” de sabor erudito, que vai beber ao fado toda a melancolia e tristeza adjacente, aliada a uma voz segura e timbricamente inconfundível, coloca-nos num género (in)definido, contudo, distintamente português.

As letras são interpretações pessoais, ou ficcionais?

Todas as letras são interpretações pessoais, sendo elas pequenos poemas.

Quais são as vossas principais influências e inspirações?

As nossas influências são muitas e díspares, elas vão desde o Gótico/Metal (Miguel), do Punk/Grunge (Yazalde), do Pop/Rock (Carolina) ao Hip-Hop/Erudito (Igor/Rómulo), o que nos permite criar paisagens sonoras peculiares, que são reveladas nas interpretações pessoais de cada um. É preciso notar que não existe aqui qualquer fusão de géneros, apenas e tão-somente implementamos sinergias que nos impelem a criar música e adequamos as influências musicais de todos, a um só organismo – Lacre.

No que diz respeito ao estro, este pode surgir a qualquer momento e pode derivar das saudades que se tem de um ente querido, que já faleceu, pode surgir do amor incondicional que um(a) pai/mãe tem por um(a) filho(a), pode germinar de um desgosto amoroso, ou advir de uma paixão secreta. A emoção e o sentimento transfigurados em palavras irão marcar presença em todas as “arcadas”, em todos os bemóis e contratempos dos nossos temas.

Qual tem sido a reacção do público ao vosso primeiro álbum “Opus 0”? Em relação ao recente videoclip do single “Ode aDeus” sentem que têm tido mais projecção?

O lançamento do nosso primeiro álbum foi gratificante. Foi o culminar de um trabalho de dez meses. Tivemos a sorte e o privilégio de gravar com dois dos mais conceituados produtores do país, António Pinheiro da Silva e Amândio Bastos. Até agora tem tido bastante aceitação por parte do público em geral.

Já o nosso primeiro videoclip foi uma experiência única, tivemos também a sorte do nosso lado. Pudemos contar com a ajuda e savoir-faire do realizador Brigantino Rui Pilão, que se encarregou de traduzir soberbamente para imagens uma história de vida, que pode acontecer a qualquer um de nós, como indivíduos finitos que somos. O Rui, por sua vez, contou também com a colaboração do director de fotografia e amigo, António Morais, também ele de Bragança, e do Nuno Gonçalves. Quanto a actores e a figurantes, tivemos a colaboração do Teatro de Estudantes de Bragança e alguns amigos. As expectativas que criámos em volta do videoclipe, não foram defraudadas, o trabalho final é excelente e promete não deixar ninguém indiferente. Quanto à projecção, acreditamos que mudou significativamente, temos recebido mais convites para tocar fora da nossa região de conforto, Trás-os-Montes. O videoclipe já teve mais visualizações em vinte dias, cerca de dez mil, do que a música sem videoclipe, que foi postada em Junho do ano passado.

Até ao momento qual foi o concerto mais marcante? Em que locais gostavam de actuar?

O concerto que nos marcou mais foi aquando da nossa actuação nas festas da cidade de Bragança, onde tocamos para um mar de gente – cerca de vinte mil pessoas.

Gostaríamos de tocar em todos os pequenos/grandes palcos e recintos de Portugal e por toda a sua periferia. Esperamos que com a nossa dedicação, a nossa perseverança e acreditando que as pessoas se interessem pelo trabalho que temos vindo a desenvolver, isso se torne uma realidade num porvir próximo.

Quanto de Bragança existe na vossa música e na vossa postura perante a música?

Existe tanto de Bragança nas nossas músicas, como existe de Mirandela, ou da Povoação, tendo em conta que dois de nós são de Bragança, dois são de Mirandela e um  é da Povoação, Açores/São Miguel.

No que concerne a Bragança, esta é na sua essência o atelier onde nós concebemos as nossas criações. É a nossa base de operações, que devido à sua latitude e longitude nos exila, na interioridade deste vale cercado de montes, que nos afasta dos centros de decisão. Felizmente que existe a Internet, que acabou por tornar o mundo numa aldeia global e que proporciona um instrumento único e valioso na divulgação e partilha de qualquer tipo de evento.

O que têm em mente para o futuro?

O futuro será sempre uma incógnita, esperamos poder continuar a criar música, estamos a trabalhar neste momento em material para o segundo álbum, ainda não podemos adiantar datas, mas o nosso público poderá contar com novidades nos próximos concertos.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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