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Kiss, Kiss, Bang, Bang

No momento em que The Big Bang Theory decidiu apostar num romance entre Leonard e Penny, começou a surgir uma crescente preocupação com o facto de a série poder sofrer do mesmo síndroma que Modelo e Detective, ou Cheers sofreram, quando duas das suas personagens principais se envolveram romanticamente (e se separaram) – perder o seu rumo. Com isso em mente, o final desta última temporada foi um exemplo marcante das conquistas que esta série conseguiu atingir. Não só conseguiu criar momentos divertidos para as sete personagens regulares e para o convidado Kevin Sussman, como também conseguiu incorporar momentos da ternura que se tornou imagem de marca deste hit televisivo.

Apesar de ter havido uma divisão homogénea entre os vários personagens, o grande destaque vai para Jim Parsons e para o seu infantil Sheldon, que, tal como refere repetidamente ao longo de todo o episódio, odeia a ideia de Mudança. Por essa razão, o anúncio de que Leonard está noivo de Penny e que pretende ir viver com ela deixa a sua mente puramente científica confusa, ao ponto de, inicialmente, afirmar que, para o casamento resultar, ele iria permitir que a noiva passasse uma noite por semana com eles, mas só por um período experimental. O talento de Parsons tem ajudado, em inúmeras ocasiões, a que a série consiga ser mais do que uma simples comédia e a preocupação de Leonard em deixar o seu grande amigo aventurar-se sozinho pelo mundo só vem cimentar este facto, numa clara aposta dos produtores na exploração naquele que é e sempre será o relacionamento central da série.

The Status Quo Combustion” apresentou a versão mais pura de Sheldon que a série mostrou até à data, já que anteriormente nunca tinha sido explorado até que ponto é que a Mudança o afecta. Este lado da sua personalidade, em que decide abandonar a sua vida inteira por não conseguir lidar com todas as alterações que estão a ocorrer à sua volta ao mesmo tempo, é algo que nunca tinha sido explorado devidamente, apesar de permitir perceber alguns dos seus comportamentos passados. A Mudança não é só algo que Sheldon odeia, é, acima de tudo, algo que lhe causa muita dor, a nível psicológico. As suas idiossincrasias não são apenas birras, são parte das características que fazem dele a pessoa que é, não sendo de todo saudável, nem ajustado à sociedade. Este colapso é exactamente aquilo que Sheldon necessitava para crescer. É verdade que apresenta muitas características autistas e que poderá não ser fisicamente capaz de fazer os ajustamentos que necessita para atingir uma melhor vida, mas também é verdade que a “doença” que o afecta socialmente está na sua cabeça e obrigá-lo a confrontar esse monstro poderá fazê-lo crescer como pessoa. Seja qual for o percurso que a personagem irá fazer, é sempre bom para uma série que já dura há 7 anos mexer com as emoções de uma das suas personagens principais, através do confronto com a realidade.

É mais do que óbvio que o noivado de Leonard e Penny se irá arrastar por uns tempos, mas a ideia de Mudança já foi incorporada na série. De facto, esta já não é a mesma fantástica série que estreou na televisão em 2007, uma vez que, com a adição de Mayim Bialik e de Melissa Rauch como regulares, introduziu-se a noção de um obrigatório balanço entre a procura da realização dos desejos destes fãs nerds com a importância que um relacionamento amoroso pode ter, dando, pelo caminho, igual importância às mulheres e ao quarteto de rapazes.

Tal como muitas séries que atingem o sucesso e que duram há muitos anos, é fácil olhar para The Big Bang Theory como algo certo e imutável. Mesmo assim, é impossível não reparar que a série consegue ser acarinhada por muitas pessoas, que acompanham as aventuras destes oito amigos todas as semanas. Nos créditos finais deste último episódio da temporada, o produtor executivo, Chuck Lorre, escreveu que o seu grande objectivo é o de pagar o tempo e a atenção que os espectadores têm dado à série com risos. Porém, nos últimos anos e especialmente neste episódio, a série tem-nos presenteado com muito mais do que isso. Tem-nos dado consistentemente um grande bang de emoções.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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