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Kendrick Lamar, Hip Hop e A Eterna Luta pela Emancipação do Povo Negro

Alguns praticantes, amantes e entusiastas do Hip Hop, dos seus períodos de ouro aos nossos tempos, têm questionado a qualidade, a importância e a relevância da música feita por Kendrick Lamar, particularmente no largamente mediatizado e multipremiado álbum “To Pimp a Butterfly”. Outros dizem mesmo que não o sentem ou que não vêem nada de especial nele, sobretudo, os que têm uma visão profundamente conservadora do Hip Hop. Eu também partilhava desse sentimento, precisamente no período anterior ao lançamento de “To Pimp a Butterfly”, em Março de 2015. Os meus motivos não eram mais por Kendrick Lamar ser “excessivamente artista”, eram pelo tipo de sonoridade que as suas músicas (e as da nova geração de artistas de Hip Hop) têm tido, particularmente por causa do legado sonoro deixado pela chamada  geração dourada do Hip Hop (predominantemente de quase toda a década de 1990). Tudo o que fugia àquele conceito de Rap, com cadência rítmica inconfundível, passou a ser “não Rap” para mim e para muitos outros.

Entrei em rota de colisão com quase todos os que achavam a música actual de Kendrick Lamar “nada de especial”. Os meus principais argumentos eram, basicamente, dois:

1. Muitos desses amigos não percebiam (e, consequentemente, não apreciavam) o Kendrick Lamar por causa da sua limitada competência linguística em inglês. É difícil, se não impossível, ouvir-se e passar a apreciar algo que é feito numa língua que não é suficientemente falada e percebida por nós. Tal facto limita grandemente a apropriação tanto semântica como epistemológica do conteúdo lírico assente nas músicas que compõem o álbum “To Pimp a Butterfly”.

2. A cultura Hip Hop, particularmente a música Rap como um dos seus alicerces principais, é altamente conservadora. Por conseguinte, muitos dos seus fazedores e entusiastas mais antigos aprenderam a ouvir e a apreciar apenas aquilo que fosse reconhecido como tal dentro das suas zonas de conforto musical. Paralelamente, o significativo desconhecimento sobre as lógicas de criação, de produção e de comercialização da música Rap, visto numa perspectiva macro de indústria e de mercado, condiciona grandemente a percepção dos rumos correntes deste estilo musical por parte do seu público tradicional. Consequentemente, todo o novo artista que se destaca (muito para além dessas barreiras subjectivas sobre o que é de facto Rap e o que não é) torna-se objecto de controvérsia e de discriminação.

A estes argumentos acrescentei outros, justificando a minha opinião positiva sobre Kendrick Lamar no álbum “To Pimp a Butterfly”. Destaquei também dois:

1. Neste álbum, Kendrick Lamar não é apenas mais um rapper a dizer as mesmas coisas que todos os outros rappers dizem ou vão continuar a dizer nas suas músicas. Ele aborda assuntos como o estado da arte da cultura afro-americana, as desigualdades raciais, conflitos existenciais e o materialismo dos nossos dias, com um notável grau de profundidade e num horizonte que abarca não só o público tradicional do Rap/Hip Hop, como também o de outras latitudes de consumo. Exactamente o contrário da maior parte dos outros rappers, que exploram temáticas exclusivamente pessoais ou do seu horizonte espacial ou de socialização. Esta diferença fez com que o seu trabalho impressionasse não só os integrantes da cultura Hip Hop como também políticos, intelectuais e músicos de outros estilos. Os seus apreciadores são de um público tão vasto, transpondo até limites geracionais e geográficos tradicionais.

2. Outro elemento de diferenciação entre Kendrick Lamar e os demais rappers de topo dos nossos dias encontra-se exactamente no seu estilo peculiar: para além da sua profundidade lírica, ele tem explorado outras sonoridades há muito não usadas no Hip Hop (como o Free Jazz, o Spoken Word e o Funk), para além de investir muito em performances originais ao vivo em grandes eventos musicais. Paralelamente, não se conhecem dele desvios comportamentais associados aos mais emblemáticos ícones da cultura Hip Hop. Kendrick Lamar inspira-se no que de excelente tiveram os seus predecessores para fazer o que os seus contemporâneos ainda não conseguem e elevar os padrões de competitividade dos que, eventualmente, quererão lhe suceder.

Era só uma introdução, para melhor contextualizar o artista em Kendrick Lamar e o que há de pertinente e relevante em “To Pimp a Butterfly”, seu terceiro álbum de estúdio, sobre o qual importa primeiro perceber o alcance semântico do nome do álbum. A palavra “pimp” é um calão do inglês norte-americano, usado como sigla para a expressão “Person In Marketing Prostitutes”, significando em português o mesmo que um “agenciador ou explorador de prostitutas”. “Butterfly” é o mesmo que “borboleta” e, em sentido literal, “to pimp a butterfly” quer dizer “explorar uma borboleta”. Kendrick é citado numa entrevista à MTV a dizer que decidiu atribuir a designação “To Pimp a Butterfly” ao seu álbum como uma alusão a ele próprio, que não queria ver a sua condição de celebridade a ser explorada negativamente pela indústria musical. Muitos rappers que o antecederam e os do seu tempo têm, infelizmente, caído nas ciladas dessa indústria e muitas das suas carreiras acabaram terminando precocemente. Mas vamos ao álbum agora.

“Wesley´s Theory”

É a música de abertura do álbum, onde Kendrick Lamar faz referência ao actor de cinema Wesley Snipes (mais conhecido pelos filmes em que faz o papel de Blade), de origem afro-americana e que foi preso por evasão fiscal. Nela, Lamar problematiza o quase generalizado infortúnio de cidadãos negros que, nascendo pobres, conseguem destacar-se artisticamente e ganhar muito dinheiro e o estatuto de celebridades, mas que ninguém os ensina a gerir e a manter a sua riqueza, acabando quase sempre por serem vítimas da sua ignorância, acumulando dívidas ao fisco e a caírem nas malhas do carrasco sistema judicial americano. Uma análise acutilante em relação ao comportamento materialista dos novos ricos que o sistema capitalista vai fazendo brotar um pouco pelo mundo todo, com cheques milionários mas sem educação financeira básica para fazer a sua gestão. No dia seguinte, todo o dinheiro se vai embora, de volta para os que controlam o sistema. Como Dr. Dre diz a dado momento na música, qualquer zé ninguém pode ter muito dinheiro e conseguir comprar carros, jóias e luxos diversos. O mais difícil é manter essa condição de vida.

“For Free? (Interlude)”

Uma faixa que é uma perfeita simbiose entre Spoken Word e Jazz, esta faixa mostra ainda a continuação do diálogo intimidatório entre a indústria musical e qualquer artista com delírios de grandeza e sentimentos de independência criativa.

“King Kunta”

A faixa a seguir é inspirada na história de um escravo fictício do século XVIII, chamado Kunta Kinte, a música fala da eterna luta pela emancipação do povo negro, espelhada na experiência de vida do próprio Kendrick Lamar, a partir dos ghettos de Compton para o topo da cultura musical Rap contemporânea. Nela, Kendrick Lamar lança um vigoroso aviso de “morte” a todos os que, potencialmente, estivessem entre o seu trajecto de simples peão à sua entronização como o rei do Hip Hop. No final da música, Kendrick inaugura a primeira frase do discurso que vai ser retomado ao longo de todo o álbum:

Eu me lembro do momento em que tu estavas em conflito, sem saber utilizar a tua influência.

“Institutionalized”

A quarta faixa é a meu ver uma das musical e liricamente mais bem conseguidas do álbum, conta com as participações também magistrais de Bilal, Anna Wise e Snoop Dogg. A letra aborda a ilusão capitalista de se tentar a todo o custo “ser rico ou morrer tentando”, que tem corrompido um número cada vez mais crescente de jovens dos nossos tempos e tem institucionalizado uma cultura generalizada de ostentação e de adulação ao dinheiro. Bilal, no refrão, repete o hino do ghetto:

A merda não muda a menos que acordes e laves o rabo, negro.

Kendrick depois questiona sobre as alternativas que teria se todo o mundo hoje só fala de dinheiro, mansões, viagens e curtição, para no final propor uma solução: roubar as benesses dos ricos, através da música, e devolvê-las aos pobres. Exactamente o que Snoop Dogg remata no fim, quando retrata a vida de um miúdo de Compton que, ditado pela máxima segundo a qual se pode até tirar alguém do ghetto mas nunca o ghetto de alguém, consegue entrar e ganhar dinheiro do sistema capitalista, sair dele deixando-lhe estupidificado para, no fim, regressar ao seu mundo.

“These Walls”

Começa com Kendrick a retomar o discurso que havia iniciado no fim de “King Kunta”, ao dizer:

Eu me lembro do momento em que tu estavas em conflito, sem saber utilizar a tua influência; Algumas vezes eu fiz o mesmo.

Esta música é outra das melhores que se podem encontrar no álbum, onde para além da excelente execução instrumental temos também uma letra excepcionalmente criativa. Nela, Kendrick Lamar explora a experiência de se estar por dentro de paredes: as paredes vaginais da mulher com quem tem uma sessão vingativa de sexo, as paredes de uma prisão correccional onde se encontra o marido da mulher com quem está a ter sexo e as paredes da sua própria consciência. No final, o discurso introdutório é retomado, encontrando um Kendrick em exorcismo pessoal em relação aos excessos que tem cometido às custas do seu estatuto de celebridade e o sentimento de culpa que daí advém.

“U”

A sexta música do álbum parece ser a sequela da faixa anterior, mostrando um Kendrick diante das suas mais profundas inseguranças, egoísmos e depressões. “Amar a ti é complicado” é um refrão simultaneamente simples e complexo, onde a cada estrofe Kendrick Lamar vai dialogando consigo mesmo: como é que ele se assume como um líder e fala para audiências de mais de 100 mil pessoas mas não conseguiu ser uma influência positiva para a sua própria irmã, grávida ainda adolescente? Kendrick assume-se como uma fraude que trocou o seu bairro e os seus amigos pela febre do enriquecimento e da fama, mas que sempre se reencontra no desconforto do seu quarto encharcando-se de álcool para conseguir dormir, caindo em si perante a terrível constatação de saber que dinheiro nenhum desse mundo consegue impedir uma fraqueza suicida.

“Alright”

Esta faixa é uma espécie de reânimo auto-induzido e o tipo de escape que Kendrick encontra para fugir dos seus fracassos, recobrando esperanças através da sua fé em Deus e na crença de um futuro melhor, não só para ele como também para os seus compatriotas negros reféns da escalada da brutalidade policial na sociedade norte-americana actual. O discurso começado nas outras músicas é novamente recuperado e Kendrick assume agora que, apesar de ter estado confuso e a usar de forma negativa a sua influência, não se queria auto-destruir e, por isso, decidiu livrar -se dos seus demónios e ir procurar por melhores respostas. O resultado dessa busca pode ser sentido nas quatro ou cinco músicas que seguem: “For Sale? (Interlude)”, sobre a sua resistência à cultura de espectáculo do Hip Hop; “Momma”, com uma das mais envolventes instrumentais do álbum e onde Kendrick fala sobre a volta às suas origens; “Hood Politics”,  sobre a sua experiência nas ruas da sua cidade natal e no Hip Hop; “How Much a Dollar Cost”, outra das obras-primas do álbum, com participação especial de Ron Isley e onde Kendrick Lamar é colocado diante do preço do apego ao materialismo e da avareza, reencontrando-se com Deus e com a simplicidade da vida, nomeadamente todo o alimento para a mente, o amor das pessoas mais próximas e a tranquilidade da natureza.

“Complexion (A Zulu Love)”

A décima segunda música de “To Pimp a Butterfly” é uma ode aos fundamentos do multiculturalismo, sem fronteiras étnicas ou complexos raciais. Com efeito, a dado momento a rapper Rapsody diz num dos seus versos que “nem a cor mais clara faz de ti mais inteligente, nem a cor mais escura faz de ti um ignorante”. Um dos melhores momentos do álbum, certamente.

“The Blacker the Berry”

Paradoxalmente, a faixa que se segue parece ser uma violenta reafirmação da condição negra perante a reacção muitas das vezes hostil do homem branco diante da sua constituição genética ou o seu meteórico sucesso e realização num mundo tradicionalmente segregacionista e discriminatório.

“You Ain´t Gotta Lie (Momma Said)”

É outra das músicas que levanta algumas verdades sobre os nossos tempos: as pessoas que têm de mentir ou que têm de ser falsas para vender o seu peixe e conseguir encher os seus estômagos, mesmo que tal signifique perder credibilidade e respeito dos seus pares.

“I”

O primeiro e um dos singles mais famosos do álbum, que valeu ao Kendrick Lamar dois Grammies: o de Melhor Música Rap de 2015 e o de Melhor Performance de Rap de 2015. A música é, simultaneamente, um chamamento de superação e uma ovação a todos os que, mesmo crescendo em ambientes de variadas dificuldades e adversidades, são capazes continuar a ter amor-próprio e vontade de vencer todas as suas lutas e dilemas. É abordada nesta faixa não só a celebração de amor-próprio e de amor a todos aqueles que pertencem à comunidade negra e as vítimas da violência organizada, como também o conceito filosófico da negritude. Este som tem o condão especial de ser a única música que consta do disco em versão ao vivo.

“Mortal Man”

A faixa final do álbum é uma das mais criativas e apresenta uma participação especial daquele que é considerado o maior ícone da música Rap, Tupac Shakur. Numa instrumental vigorosa e apelativa, Kendrick Lamar dialoga com o seu público numa série de questionamentos sobre a relevância e durabilidade da sua admiração por ele:

(…) se eu for levado à barra dos tribunais, se a indústria musical me banir

se o Governo me quiser morto ou se colocar cocaína no meu carro

julgar-me-ias como um drogado ou continuarias a ver-me como K. Lamar?

Ou questionarias o meu carácter e me difamarias em cada blog? (…)

Kedrick Lamar questiona-se depois sobre a veracidade do amor que as pessoas emanam pelos seus ídolos e sobre a quantidade de líderes que, outrora massivamente amados, foram sendo abandonados a dado momento das suas vidas quando mais precisaram desse suporte. No final, o discurso inaugurado no início do álbum é apresentado de forma completa, onde Lamar deixa ficar um testemunho de reconciliação e de união entre os integrantes do seu povo. Inicia depois uma conversa virtual com Tupac, sobre a cultura negra, o racismo, a gestão da fama e da imagem de celebridade. Uma das partes mais interessantes da conversa surge quando, através de uma alusão metafórica onde a superfície terrestre começa a engolir o mal do mundo, Tupac assevera:

(…) a superfície terrestre é o símbolo das pessoas pobres, as pessoas pobres são um buraco que se vai abrir em todo o mundo e engolir as pessoas ricas. Isso porque os ricos estarão todos gordos, tão apetecíveis… percebes? Quanto mais ricas, mais apetecíveis estarão. Os pobres estarão tão pobres e tão famintos, sabes? Haverá então canibalismo nessa terra, eles comerão os ricos (…)

Não é por acaso que “To Pimp a Butterfly” foi o disco de Hip Hop mais aclamado de 2015, agraciando ao Kendrick Lamar com o Grammy de Melhor Álbum de Rap. Apreende-se com este álbum que ser uma pessoa negra em contextos de discriminação, de exclusão ou de violência sistemática contra si é um eterno combate. “To Pimp a Butterfly” é apenas uma das bandas sonoras dessa condição.

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