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Just another ordinary day

Tinha acordado para mais um dia. Igual aos outros. Minutos seguidos de horas e ponteiros que rodavam sem se aperceber. O tique taque do relógio, instalado na sala, marcava, o ritmo bem cadenciado. Levantou-se e olhou-se ao espelho. Era ela sim, mas não se gostava. Diziam que era assim a adolescência. Não queria e não gostava. Incomodava-a.

À mesa do pequeno almoço não se falava. Ouvia-se o surdo mastigar das torradas e o derreter da manteiga. Olhou para os dois, mas estavam concentrados nas sua vidas. Afinal, por que tinha nascido? Transparente e ignorada como se fosse um filho do meio. Era a única. Carreiras primeiro, família depois.

Já nem se recordava da última vez que os pais tinham participado numa conversa. Com ela ou sem ela. Mas certamente que teria acontecido. Olhou novamente. Alguma coisa os teria unido. Não os telemóveis nem as revistas ou os jornais. O pai tossiu, mas nem levantou os olhos do que estava a ler. A mãe enviava mensagens.

Estava a acontecer ou era um pesadelo? Sentiu vontade de acenar, de os fazer acordar daquele sono letárgico em que estavam mergulhados. Levantou-se. Não deram por ela. Passou pelo espelho redondo e reparou nas suas costas. Entendeu. Era assim que a viam. Pegou no telemóvel na esperança de ter mensagens. Nada. Um silêncio absoluto.

Sentou-se novamente. O pai tinha virado uma folha e a mãe parecia olhar para o vazio. O que pensaria ela? Não se lembrava se a tinha pegado ao colo ou não. Devia ter acontecido, pelo menos para lhe dar de mamar. Que ideia estranha. Nunca tinham falado disso. E o pai? Como se teriam conhecido? Saberiam o que era o amor?

Ouviu-se um som seco. Era o gato que entrava e se fazia anunciar. O pai sorriu. A mãe manteve-se imperturbável. Outra página que tinha virado e nova mensagem. Gritou por dentro: ESTOU AQUI! Não ouviram. A manteiga tinha arrefecido e a torrada esfriado. A alma dela tinha gelado. Mais uma refeição em família. Que ironia, certo?

Levantaram-se. A mãe saiu e o pai pegou no telefone e viu as mensagens. Muitas. Começou a responder, enquanto pegava na mala. Abriu a porta da rua e abalou. A mãe vestiu o casaco, colocou a mala no ombro e, com as chaves do carro na mão, abriu a porta de casa e desapareceu no movimento do bairro.

Ela olhou novamente à volta. Parecia procurar algo. Repetiu o gesto. Suspirou fundo e encolheu os ombros. Mais um dia como os outros e ela não queria continuar assim. Subiu a escada e olhou novamente para o espelho. Não se reconheceu. Era a que procurava. Abriu a janela, respirou fundo e finalmente sentiu-se livre. Saltou.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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