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Juntos no vinho e no fado

Hoje sirvo pouco vinho, quase nada. Digo antes acerca das tabernas e das vidas que nelas se cruzaram e do que lá se cantou. Cantou e cantou muito por causa do vinho. É vinho, é mais do que vinho e é, por isso, que gosto dele.

Fado e tabernas formam um casal, não há volta a dar. Diz-se que, quando se bebe demais, se “fica a cantar o fado”, noutras terras com seus cantares. Em Lisboa, é o fado. A festa da embriaguez e o vício que esconde a tristeza saciam-se na música e no álcool. Ricos e pobres, sem distinção.

À senhora importante, ou ao senhor grave ficavam mal as bebedeiras. Apanhavam-nas, apanhavam-nas. Alguns, mais militantes da causa e fortes em rebeldia, jogavam-se para os bairros pobres. Nas tabernas, fidalgos e plebeus eram quase iguais.O “quase” é importante, porque o “quase” era impossível. Uma impossibilidade de séculos, centenas de anos de mentalidade a separar classes. O casamento por amor é recente – os que havia eram coisa de pobre. O casamento só existe em sociedades em que existe posse de bens materiais. O casamento é um contrato comercial, que acautela interesses de duas partes.Por isso, as relações de casamento entre gente da realeza, entre fidalgos, entre burgueses. No entanto, gente de sangue real, ou doutra nobreza não se acasalava a burgueses e muito menos a populares.

Esqueça-se a estória de Cristóvão Colombo ser mercador genovês e que aportou no Reino de Portugal. É mentira! A mentalidade do século XV não permitia sequer sonhar em juntar um plebeu a uma fidalga, ou vice-versa.Os príncipes encantados, que se apaixonam por mulheres do povo, só vivem nas novelas de tempos mais recentes e nos filmes da Disney. Cristóvão Colombo casou-se com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, capitão donatário do Porto Santo, e neta do escrivão da puridade (cargo da mais alta importância) de Dom Nuno Álvares Pereira, o homem mais importante do Reino,depois do Rei Dom João I – Dom Afonso (bastardo do Rei) casou-se com Beatriz Pereira de Alvim (filha do condestável), dando origem à Casa de Bragança.Era este o meio social em que se movimentou Cristóvão Colombo, uma proximidade interdita à generalidade dos súbditos. E, quando passou para Espanha, foi recebido pelos Reis Católicos.

Havia as anedotas, casos reais que alimentaram vários escritores. Cada um glosando a seu modo o mesmo enredo, por gerações. O caso típico: o fidalgo falido e a filha do burguês. O nobre “sem préstimo” [€€€] para casamento com alguém da mesma dignidade e destinado ao celibato e o burguês desejoso de ascender socialmente. O noivo era o elevador e a noiva a electricidade. Ganhavam todos, mas… não ficaria como dantes.

O povo e a nobreza não se juntaram até ao século XX. Já acontecia no século XIX e dava escândalo e vergonhas. Recorde-se do folhetim de vida real de Camilo Castelo Branco e de Ana Plácido (ele nobre, futuro primeiro visconde de Botelho, e ela plebeia), mulher dum rico negociante do Porto.

Para se ter uma ideia mais precisa do que é a lentidão do movimento das mentalidades, conto um amor vertiginoso – quase tanto como o de Camilo e Ana – do avô e avó de amigos. Ele era modesto, mas letrado e inteligente, e ela filha do marquês de XYZ. Casaram-se e ela nunca mais viu a família, correspondeu-se com a mãe em segredo. Não fora a morte prematura de seu filho, que deixou criança menor, nunca se acertaria a divisão duma herança. O Tribunal de Menores obrigou a que fossem vistas as contas até ao romper do século XX.

Porém, não se pense que plebeus e fidalgos nunca se amigaram. Amigaram, pois! Ai amigaram, amigaram. As serventes da casa eram vítimas. Ou as crianças serviam com criadas – criavam-se “anónima” e modestamente e recompensando a “generosidade” ficavam servindo na casa do senhor (seu pai). Ou tinham no progenitor a instituição do padrinho – cuja função original e duradoura era de se substituir aos progenitores, por morte, ou miséria. Ninguém estranhava, pois os ricos eram padrinhos de muitas crianças e quem fixava o nome próprio.

Dos amores entre ricos e pobres há o registo do amor do conde de Vimioso e da fadista Severa. A Severa é mítica: seria bela e boa cantadeira de fado. Por o seu pai ser cigano, a ela se referiram como cigana. Era jovem, morreu aos 26 anos, tinha buço farto e era prostituta, tal como sua mãe e provavelmente a avó, bisavó, trisavó… era essa a sina de muitos dos muito pobres.

JB_juntosnovinhoenofado_4Maria Severa Onofriana nasceu e viveu nos bairros mais pobres de Lisboa: Madragoa, Bairro Alto, Alfama e Mouraria. Foi nesta última onde feneceu e viveu a parte mais substantiva do que dela se conta.

A Severa é a primeira grande fadista. Porquê? Não há gravações – nasceu em 1820. Porquê? Porque conviveu com gente de letras que a fixou na história, como o poeta Bulhão Pato. É a primeira grande fadista, porque sim, porque alguma tinha de ser e a Severa viveu de modo a que fosse lembrada.

Por várias razões, consta que o amante da Severa fora o marquês de Marialva. Todavia, isso é falso. O termo marialvismo é resultado da adição de boémia, altivez, temeridade, riqueza, leviandade sexual, modos galantes. À ideia de tal romance concorre o facto de o filme A Severa, rodado em 1930 e dirigido por Leitão de Barros, designar o aristocrata como conde de Marialva. A actriz Dina Teresa foi a fadista e António Luiz Lopes o cavalheiro.

JB_juntosnovinhoenofado_2O estratagema do cineasta foi habilidoso – uma vez que o enredo se baseia numa novela (de grande sucesso) de Júlio Dantas, é possível que tenha nesse muito popular escritor a fonte,mas não sei, porque não li. Ao dizer Marialva (marialvismo) evitou algum possível desagrado com os descendentes do conde de Vimioso, o verdadeiro amante da fadista.Além disso, o artifício fixa o nobre como conde de Marialva, título que não existe – o verdadeiro é marquês de Marialva.

Portanto, a “mistura” entre fidalgo e povo sempre existiu. Conta-se até que um Rei de Portugal frequentava às escondidas e anonimamente as tabernas para beber e ouvir cantar o fado. Quem seria? Tanto faz. Dessa “certeza”nasceu o “Fado do Embuçado”, com música de Alcídia Rodrigues, letra de Gabriel de Oliveira e celebrizado por João Ferreira Rosa. O poema fica no final.

Há uma antiga disputa acerca da maternidade do fado. Uns dizem que deriva das modinhas, modo musical trazido pela fidalguia retornada a Portugal no seguimento da Guerra Peninsular, e passada pela criadagem aos do seu patamar social, que a moldaram. Outros contam que é das tabernas e do vinho, de contrabandistas de Alfama, embarcadiços com mulheres e filhos onde o barco aportara.

É verdade que a fidalguia tem cantado o fado: Maria Teresa de Noronha, Dom Vicente da Câmara, José da Câmara, a família Câmara Pereira, Maria Ana de Bobone, Carminho… Contudo, mais o povo.

Não tomando partido, digo que a sentença foi proferida na genial letra de “A Biografia do Fado”, com versos e músicas do maestro Frederico de Brito. O poema fica também citado no final.

Nas casas ricas, o vinho bebia-se por copos de cristal, nas tabernas só se serviam mal, copos grosseiros e canecas de vários materiais. Sou feliz possuidor duma caneca de taberna, em estanho, e avaliada por perito como sendo do século XVII. Infelizmente, não tenho nenhum “copo de três”.

Terei escrito sobre vinho?

 

«Fado do Embuçado»

Noutro tempo a fidalguia
Que deu brado nas toiradas
Andava p’la Mouraria
Em muito palácio havia
Descantes e guitarradas

E a história que eu vou contar
Contou-ma certa velhinha
Uma vez que eu fui cantar
Ao salão de um titular
Lá p’ró Paço da Rainha

E nesse salão dourado
De ambiente nobre e sério
Para ouvir cantar o fado
Ia sempre um embuçado
Personagem de mistério

Mas certa noite houve alguém
Que lhe disse erguendo a fala:
-“Embuçado, nota bem, que hoje não fique ninguém
Embuça nesta sala!”

E ante a admiração geral
Descobriu-se o embuçado
Era el-rei de Portugal, houve beija-mão real
E depois cantou-se o fado.

 

Biografia do Fado

Perguntam-me p’lo Fado,
Eu conheci-o:
Era um ébrio, era um vadio,
Que andava pla Mouraria
Talvez inda mais magro que um cão galgo
A dizer que era fidalgo,
Por andar com a fidalguia

Seu pai era um enjeitado,
Que até andou embarcado,
Nas caravelas do Gama
Um malandro andrajado e sujo,
Mais gingão do que um marujo,
Dos velhos becos de Alfama

Pois eu, Sei bem onde ele nasceu
Que não passou de um plebeu,
Sempre a puxar p’ra vaidade

Sei mais, Sei que o Fado é um dos tais
Que não conheceu os pais,
Nem tem certidão de idade

Perguntam-me por ele,
Eu conheci-o:
Num perfeito desvario,
Sempre amigo da balbúrdia
Entrava na Moirama a horas mortas,
E ao abrir as todas as portas,
Era o rei daquela estúrdia

Foi às esperas de gado,
Foi cavaleiro afamado,
Era o delírio no Entrudo
E dessa vida agitada,
Ele que veio do nada,
Não sendo nada era tudo

Pois eu,
Sei bem onde ele nasceu,
Que não passou de um plebeu,
Sempre a puxar p’ra vaidade

Sei mais,
Sei que o Fado é um dos tais
Que não conheceu os pais,
Nem tem certidão de idade.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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