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José Saramago dos dias de hoje

Antes de me ir deitar, ocorreu-me um pensamento bastante interessante, provavelmente fruto da minha busca intensiva de emprego aliado ao livro de cabeceira que me acompanha nos intervalos. Na história das mais diversas áreas, desde a científica à artística, constam nomes brilhantes de génios indiscutíveis que para sempre marcaram o mundo em que vivemos. Ao ler o Ensaio sobre a Cegueira e a pequena biografia deste Grande Senhor, constato que o mesmo não frequentou nenhuma universidade, não tirou nenhum curso, imagine-se que chegou mesmo a ser Director-Adjunto do Jornal Diário de Notícias, publicou várias obras e, na loucura, foi galardoado com o Nobel da Literatura. A meu ver, porque mais que qualquer conhecimento adquirido em contexto académico, valha-nos a vocação: essa não se aprende na escola. Certamente que os tempos eram outros, onde o chamado suor e trabalho árduo compensavam, cujos conhecimentos para alcançar tamanho cargo e prémio baseavam-se nos gerais e de cultura (e não nos pessoais – cunhas).

Se José Saramago tivesse nascido nos anos 80, provavelmente teria de ter ingressado numa faculdade, de preferência pública porque seria mais conceituada. Mas, caso não tivesse média e os pais tivessem posses, os mesmos teriam de suportar o valor de uma universidade privada, que é coisa para bater quase um ordenado mínimo de propina mensal, isto se quisessem que a mesma fosse reconhecida no mercado de trabalho. Se os pais não tivessem possibilidade de ajudar o José e se quisesse mesmo fazer algo da sua vocação, teria que trabalhar e estudar ou então, à moda americana, endividar-se para pagar o seu curso, com repercussões tardias (taxas de juro). Estudaria Jornalismo ou Comunicação Social e especializar-se-ia em uma qualquer área onde acabaria por ter que estagiar. O estágio por ser curricular não seria remunerado ou então, como orgulhosamente gostam de chamar, teria as famosas ajudas de custo pela deslocação e alimentação que tivesse que gastar. Como ainda agora acabei de ler, provavelmente se o José tivesse carro, ainda teria que o colocar à disposição da empresa e poderia ainda ser factor eliminatório para que fosse escolhido (recorde-se que o estágio não seria remunerado), se carro o José não tivesse. No caso de também ter que trabalhar para pagar o seu curso (e porque ninguém é de ferro), lá ter deixado escapar um ou dois anos, atenção que a idade é hoje em dia motivo de exclusão. Calhando, até já estaria fora da validade e não havia Nobel para ninguém. Saltaria de estágio para estágio, mas agora de curricular para profissional. Como o nome é mais pomposo e a remuneração já anda na casa dos 600 euros, provavelmente até se sentiria especial por estágio profissional ter alcançado. Mas, com alguma sorte, o José teria um qualquer amigo que trabalhava na área (e o seu nome já fosse reconhecido e respeitado – influência), e que talvez pudesse puxar alguns cordelinhos para que o José finalmente trabalhasse, com contrato e condições, na área onde no mínimo 5 anos haveria estudado. Mesmo que tivesse vocação, gosto e jeito por outras áreas, não seria possível nelas trabalhar porque para isso precisaria de nova formação… e mais outros 5000 euros para a pagar.

Ironias à parte e não querendo estar a por as minhas mãos no fogo, Saramago seria um nome que não constaria da literatura portuguesa, nem tão pouco seria uma referência no mundo dos livros, o que seria uma pena perder tamanha mente apenas por não ter a dita formação. Infelizmente, em Portugal, vivem-se os tempos dos Senhores Doutores e das vénias e da importância por se ter um curso superior. Subvaloriza-se a cultura geral aprendida fora da sala de aula, os livros que se lêem quando não são de carácter obrigatório, o esforço, empenho e dedicação ao trabalho. Na hora da promoção, do crescimento profissional, está lá o amigo ou familiar que está longe de ser realmente competente, mas que como lhes apela ao coração e tantas vezes lhes puxa o lustro (alimenta o ego) merece, assim, a dita vaga. E nesta brincadeira perdem-se pessoas verdadeiramente capazes, que recordam tempos justos de um Portugal hoje perdido.

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Sara Pereira

O que me define não é a formação académica ou estudos complementares.
Sou isto: nem mais nem menos que alguém, mas ninguém é igual a mim. Sou única, com os meus defeitos e virtudes.
Sou complexa e simples ao mesmo tempo. Por vezes complexa nas alturas em que deveria ser simples, nunca ocorre no tempo certo ou na medida exacta. Sou descomedida na medida do equilibrado. Sinto muito mas esqueço depressa. Apaixono-me constantemente pela paixão e sofro desilusões assolapadas. Cada dia, mais que em qualquer outro tempo, tento equacionar que não é nem será a ultima vez que as sofro e assim aprendo a senti-las menos.
Sou sonhadora e vivo a sonhar com um mundo que seja um lugar melhor para nós. Gosto de viver alienada desta dita realidade que me rodeia, para não sabotar quem sou. Sou uma alma em constante desconstrução para que me possa continuar a construir. Tenho eternas perguntas que nunca serão respondidas.
Gosto de escrever. O que me falta na comunicação verbal, compenso na escrita. Gosto da fluidez das palavras, do peso que podem adquirir, da maneira como podem tocar, do significado escondido que podem ter. Para além do que dizes ser óbvio há sempre mais, se escolheres ler-me. E quando verdadeiramente me lês, sou isto: nem mais nem menos, mas feliz por ser assim.

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4 thoughts on “José Saramago dos dias de hoje”

  1. Gostei, muito bom! Parabéns, quando escrever mais , vou ler porque gosto destes novos “Saramagos”!Sou mãe de outra reporter na sombra que também aqui escreve, e aprecio o vosso trabalho, Portugal não vos aproveita, antes de mais é o País que perde!Não desitam, existe quem vos leia e aprecie, como eu, bem hajam.

  2. Querida Sara, este teu grande artigo sobre Saramago, não é mais do que um gritar de desespero de uma juventude que muito trabalhou para se formar e cultivar, não vendo reconhecido pela sua pátria o esforço empreendido durante muitos anos por si e pelos seus pais. Nos dias de hoje só há lugares de destaque para os filhos ou os inscritos nos partidos dos governos e para isso é só necessário o cartão dos jotas. Quem nasce em Portugal vai deixar de ter direitos e passará a pagar a peso de ouro a sua existência. No chamado tempo da outra senhora só se conseguia arranjar emprego até aos 39 anos. A partir daí já se era velho.
    Saramago também teve os seus problemas, não só porque tinha ideias comunistas como também porque não era formado por qualquer faculdade. Foi serralheiro mecanico e funcionário público. Passou mal porque a família era pobre. Se ele fosse vivo viveria com muita tristeza estes momentos.
    No governo de Cavaco Silva o seu nome foi impedido de figurar entre os propostos ao prémio que mais tarde viria a ganhar, por ter ideias diferentes como se de um criminoso se tratasse.
    SE ELE FOSSE VIVO DIRIA, NÃO DESISTAS, O FUTURO É TEU E SERÁS TU UMA DAS PESSOAS A MUDAR ESTE PAÍS. NÃO TE RENDAS. CONTINUA ESSA ESTRADA QUE FARÁS TODA A DIFERENÇA.

    1. Obrigada e sim… não desisto nunca. Pode é chegar a altura de deixar de insistir em Portugal…

      Cumprimentos,
      Sara

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