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CulturaLiteratura

Jerusalém

Levei uma década a desencontrar-me de Jerusalém e, por consequência, do seu autor. Deste livro disse José Saramago que “… pertence à grande literatura ocidental” e que “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!” O ruído dos elogios, que o colocaram desde que começou a publicar como uma das maiores promessas da literatura nacional e potencial futuro Nobel, acabou por me distanciar da curiosidade quanto à obra e ofereci-lhe deliberada resistência. Até agora.

O autor de Jerusalém começou a publicar depois dos 30 anos por opção, após cerca de uma década de produção ininterrupta que, quando se sentiu pronto para acrescentar ao verbo escrever o verbo publicar, resolveu partilhar com os leitores. Esta lucidez na escolha do percurso literário também se reflecte neste livro, onde razão e loucura parecem, só à primeira vista, caminhar em pólos opostos.

Jerusalém é o terceiro romance da série O Reino (composta por 4 livros) do escritor português, publicado em 2005 pela editora Círculo de Leitores, vencedor do Prémio Ler Millennium BCP e da 4ª edição do Prémio Literário José Saramago. Eleito pelos críticos do jornal Público como “livro da década”, foi ainda incluído na edição europeia de “1001 livros para ler antes de morrer”, um guia cronológico dos mais importantes romances de todos os tempos.

Gonçalo M. Tavares parece encarar com leveza o ‘fardo’ dos elogios e dos prémios, mantendo uma simplicidade desconcertante, a mesma com que me presenteou quando o conheci na Feira do Livro de Lisboa deste ano e lhe estendi o livro para o autógrafo da praxe: “Este livro fala sobre a guerra”, disse-me. Munida com essa informação parti para o mergulho, temendo não ter pé.

Apesar de tudo saí inteira de Jerusalém.

Menos inteiras parecem estar as personagens, todas elas no limite, num contexto em que razão e loucura se confundem e em que a crueldade e o sofrimento parecem uma inevitabilidade. A menção feita aos extermínios nos campos de concentração e imediata remissão para um cenário de pós-Holocausto ajuda a compreender o clima de desumanidade que perpassa toda a obra. Terá havido maior horror que este?

Lá temos Theodor Busbeck, um médico que se dedica a estudar o sofrimento e a estabelecer um padrão do horror ao longo dos tempos, como forma de ser útil às gerações seguintes e servir um propósito maior do que aquele adstrito ao seu papel de médico. Theodor escolhe para casar Mylia, uma jovem de 18 anos trazida ao seu consultório por ver almas. A ‘loucura’ de Mylia dita a deterioração do casamento com Busbeck e conduz ao seu internamento no hospício Georg Rosenberg. É aí que se envolve e tem um filho com outro internado, o esquizofrénico Ernst Spengler, sendo a criança, Kaas, assumida por Theodor. Na sequência desse episódio Mylia é esterilizada contra a sua vontade, resultando dessa cirurgia graves complicações e a sentença médica de que não viveria mais de 2 anos. Kaas, fruto da paixão proibida entre Mylia e Ernst, nasce com uma deficiência física que viria a condicionar toda a sua curta existência e a manchar o nome de família que por compaixão lhe havia sido conferido. O livro traz-nos ainda o sombrio Hinnerk, um sobrevivente de guerra refém do medo, que devido ao seu aspecto físico foi apelidado de ‘cara de assassino’. A única mulher que frequenta a sua casa e possivelmente a única a preocupar-se com ele e com os seus instintos violentos é Hanna, uma prostituta de quem Hinnerk recebe parte dos ganhos.

Apresentadas que estão, de forma necessariamente apressada, as principais personagens, igual velocidade é exigida para o enredo, afinal é numa única noite que decorrem os principais acontecimentos.

É 29 de Maio de um ano deliberadamente omitido, Ernst está prestes a suicidar-se quando recebe um telefonema de Mylia que, agonizando de dor, saiu em busca de uma igreja que pudesse estar aberta de madrugada. Nessa mesma noite, Theodor Busbeck procura uma prostituta, esquecendo que deixou sozinho em casa pela primeira vez o seu filho Kaas, de 12 anos, que sai em busca do pai. Ao invés do pai encontra Hinnerk, o ‘cara de assassino’ que nessa noite deambula com apetite humano, fazendo com que Hanna esteja no seu encalço. Na sequência do telefonema, Ernst desiste de suicidar-se para socorrer Mylia que, entretanto, perdeu os sentidos. O filho de ambos, Kaas, morre às mãos de Hinnerk. Theodor descobre na nudez de Hanna uma velhice até então camuflada. Hinnerk encontra Mylia e Ernst e é morto ‘acidentalmente’ por este último. É uma Mylia viva, de 48 anos, que o penúltimo capítulo do livro nos oferece, cumprindo na cela de um hospital-prisão a pena por esse crime.

Uma mulher, um assassino, um médico, um menino, uma prostituta e um louco. E uma noite.” Está assim escrito na contracapa de um livro onde a felicidade não parece ser uma possibilidade, sequer uma busca. Dizer-se que é um romance negro é pouco para esta obra. A dor, o medo e a crueldade são omnipresentes, conduzindo o leitor ao inevitável choque, mas igualmente à necessária indiferença. Ainda assim, entre o colapso moral onde todas as personagens parecem ter mergulhado, encontramos uma espécie de redenção, uma fina esperança no carácter discretamente justiceiro que vislumbramos no culminar das buscas individuais de cada uma.

Theodor busca a normalidade do horror. Não estará no sucesso dessa busca o fim da esperança e daí o fracasso da mesma, tendo o produto da sua investigação caído no esquecimento? É também ele que, traído, assume a paternidade de uma criança que não é sua e cujos problemas físicos se tornam um embaraço para a família. Compaixão? Mylia, na sua busca pelo divino, parece conseguir escapar à sentença de morte dada pelos médicos, mas é condenada por um crime que não cometeu. Terá sido o preço por continuar viva? Ernst, que está prestes a suicidar-se no inicio da narrativa, acaba por ser ele a matar Hinnerk, vingando inconscientemente o filho que lhe foi negado. Justiça na impunidade? Kaas, morto em condições que o livro deixa antever como terríveis, poderá ter encontrado na morte a libertação de um corpo que o aprisionava? Hinnerk, o carrasco do jovem, sobrevivente de uma guerra que o condenou ao medo, terá igualmente encontrado libertação na morte, ou punição? E a decadência de Hanna revelada no encontro com Theodor, a desconstrução do boneco a devolver-lhe a identidade?

Para além do título enigmático e passível de múltiplas interpretações, uma data (29 de Maio) e uma rua (Rua Moltke 77) é tudo o que temos como referências espácio-temporais. No entanto, o tempo e o espaço em Jerusalém são fluidos, dando-nos a sensação contraditória de que tinha de ser ali e naquele dia, como a de que poderia ter sido em qualquer outro lugar ou em qualquer outro dia.

Apesar de tudo há ternura em Jerusalém. O reencontro de Mylia e Ernst, anos após os momentos vividos no hospício, é um dos raros momentos que escapa ao pudor dos afectos. É também aqui onde pela primeira vez é feita uma alusão ao título do livro, através da evocação de um salmo por parte de Mylia: “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita”. É a mesma personagem que, alguns capítulos depois, faz uma analogia entre Jerusalém e o hospício onde esteve internada: “Se eu me esquecer de ti, Georg Rosenberg, que seque a minha mão direita”. Esta analogia não é inocente. Ao rever Ernst, Mylia comenta que as mãos direitas de ambos não secaram. Não esqueceram, não podem esquecer.

Têm, assim como todo o livro, memória.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação. Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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