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ContosCultura

Jack of Hearts – Parte I

A noite parecia que tinha terminado. De repente parecia que todos tinham ido embora. O cabaret ficou em completo silêncio. Cartas pousadas, bebidas paradas e até a roleta tinha deixado de rodar. A vida em suspenso excepto por detrás de um pequeno buraco na parede. Qualquer pessoa com bom senso já tinha ido embora quando ele parou na porta do cabaret, o Jack of Hearts.

Entrou e atravessou o salão com passos lentos mas firmes, o som das solas a fazerem o chão de madeira ranger alto. Parou, olhou em volta, mirou rostos e olhares e de repente a vida voltou ao cabaret. As cartas voltaram a jogar, a roleta a rodar e todos voltaram ao que faziam antes de ele lhes virar as cabeças. E perguntou a um estranho; “o senhor tem a gentileza de me dizer a que horas começa o show?” Guardou a resposta para si e sentou-se no canto mais silencioso do salão como só faria o Jack of Hearts.

Nos bastidores as dançarinas estavam animadas. Sentadas numas escadas com um degrau a fazer de mesa, apostavam num jogo de poker as recompensas dadas por clientes cheios de fantasias luxuriantes. Lily tinha duas rainhas. Uma boa mão mas queria outra para a reforçar. Fez uma nova aposta e jogou o Jack of Hearts.

Big Jim não era parvo nenhum. Homem poderoso que se impunha na cidade, era o empregador que se confundia com explorador. Dono da única mina das redondezas, a cidade prosperava com o ouro, mas apenas a sua riqueza crescia. Entrou no salão com o seu aparato habitual com os guarda costas e a bengala de prata. Serviu-se do que quis e tudo deitou fora. Mas nem com os seus guarda costas e a sua bengala de prata ele estava à altura do Jack of Hearts.

Pouco depois entrou a Rosemary por uma porta lateral. Trazia a falsidade na cara mascarada de espessa maquilhagem. Era uma rainha sem coroa. Aproximou-se de Big Jim e sussurrou-lhe ao ouvido, “desculpa pelo atraso, meu querido.” Ele ignorou-a, nem sequer a ouviu. Tinha o olhar fixo no canto mais silencioso do salão onde permanecia Jack of Hearts”

Eu conheço aquela cara!” Pensou Big Jim para si próprio. “De uma outra qualquer terra distante daqui… Mas eu sei que a conheço.” Subitamente o salão encheu-se de alvoroço com assobios, gritos e cadeiras a arrastar pelo chão enquanto todos procuravam lugar virados para o palco. A luz desvaneceu e na escuridão ficaram apenas o Big Jim e o Jack of Hearts.

A Lily era uma princesa. Tinha a pele macia de uma tez que fazia os homens sonhar. Respirava sensualidade mas era também preciosa como uma criança. Fez pela vida tudo o que tinha que fazer para chegar onde chegou. Vinha de um lar desfeito, viveu inúmeros romances anónimos com homens de todos os tipos que a levaram a todos os lugares. Mas nunca encontrou nenhum homem como Jack of Hearts.

O juiz, carrasco da cidade, fazia por passar despercebido enquanto jantava calmamente. O buraco na parede mantinha vida por detrás, vida que todos observava que que ninguém disso se apercebia. Todos, todos eles sabia, ou ouviram algures, que Lily carregava no dedo o anel de Big Jim. Logo a mais bela, a que mais gente fazia sonhar: Lily era o fruto proibido para todos, era exclusiva de Big Jim. Ninguém ousava meter-se entre eles. Ninguém excepto Jack of Hearts.

(conto inspirado na música Lily, Rosemary and the Jack of Hearts, letra de Bob Dylan)

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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