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Já não tem passado

O chão duro nas costas mantém-na presa à realidade. As sombras do tecto branco observam-na. Ela não tira os olhos delas. Põe a mão esquerda no peito e surpreende-se com a velocidade do seu coração. Mas é uma parvoíce; escolhe surpreender-se com estas pequenas coisas só para não ter de enfrentar aquilo em que não quer – em que não pode! – pensar.

Concentra-se no seu coração, mas não se atreve a fechar os olhos. Pensa nos pais. No sorriso dos pais, nos domingos de comer castanhas, nos dias em que a mãe fazia bolo. Nos beijos sorrateiros que davam, nos abraços despreocupados. Como eram felizes. Como pareciam felizes. Como ela se sabia feliz.

Lar é o bater de um coração. O som da protecção e da pertença. A sua primeira memória, ainda pequenina, era de ir para a cama dos pais e sentir aquele som que era pura paz. O coração da mãe, às vezes agitado. Sabia ela agora: cheio de segredos. O coração do pai, a bater alto como a força dele. Sabia ela agora: repleto de desilusões. Para ela, aquele bater significava vida, significava a certeza de que ela estava ali e que os pais estavam com ela. Mais do que isso: o que a atraía era que o coração era o som mais verdadeiro daqueles nos amam. É o som que ouvimos em silêncio no peito daqueles que nos aconchegam e nos abraçam, que nos permitem ser tão próximos que podemos acertar o nosso caminho ao mesmo compasso. O som do bater do coração é sinónimo de querer bem.

Mãe, pai. Memórias tão diferentes. Tinham sido pequenos espaços completamente diferentes no seu coração, um tão desconhecido quanto o outro era familiar. Agora eram os dois escuros e confusos, caóticos, estilhaçados, como espelhos pisados no chão. Tenta afastar-se do seu passado: o que importava agora, se já não existiam? Se é como se nunca tivessem existido? Restavam-lhe apenas as recordações. Estava sozinha.

A cabeça dói-lhe.

À volta dela, papéis cheios de segredos. Apoia-se nos cotovelos e olha em frente, para a parede branca daquele que era o seu quarto de infância, como que a ganhar coragem. Senta-se no chão e volta a apanhar aquele papel em particular. Não sabe lidar com ele. Nem com o papel, nem com as palavras que estão lá escritas. Com a confissão que está lá escrita. A acusação. A dor. O papel queima-a. Um papel simples carregadinho de segredos que pesam e destroem. Não sabe se rasgá-lo ou se o guardar para sempre, como uma masoquista. A infidelidade da mãe. A loucura do pai. E a mãe morta, assassinada pelos ciúmes dele. Uma carta sem pormenores, apenas com explicações, com desculpas. Egoísta. Egoísta! Que tivesse levado as explicações para a cova! Agora, na morte, deixava-a a ela como guardiã de um segredo que a destruía tão completamente. “Direito de saber a verdade”. Merda de direito, não queria aqueles direito nem aquelas verdades para nada!

Agora, chorava, agora ela já não tinha passado. Nem identidade. Nem memórias.

Chora enquanto pensa na mãe. Enquanto se lembra de quando encontrou a mãe morta. A luz branca da manhã a doer nos olhos, a sensação da madeira a cravar-se na pele quando escalou a cama dos pais para se deitar ao pé da mãe. Como fazia tantas vezes. A mãe entre lençóis. E não existia som. Não havia ritmo. Apenas gelo. Ela encaixou bem a orelha no peito da mãe, à procura do que não existia, porque dentro da mãe só havia silêncio. Ficaram assim muitas horas até o pai chegar. Até o pai se fingir surpreso. Ele tinha chorado a mãe com toda a força da sua alma – ou da sua culpa, ou do seu arrependimento. Mas o único pensamento que a assombrava a ela, com seis anos, era que a mãe já não lhe queria bem. Tinham ficado muitas horas as duas, entre o vazio do peito da mãe e o som das lágrimas dela. A mãe já não lhe queria bem. E sentia um medo tão dilacerante de voltar a sentir esse vazio, que nunca mais tinha deixado que a abraçassem.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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