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“Já Devias Saber… Agora é Tarde Demais”, de Jean Hanff Korelitz

Venho falar-vos, desta vez, do livro Já Devias Saber… Agora é Tarde Demais (que li em inglês como You Should Have Known). É um thriller fantástico. Não só porque Jean Hanff Korelitz é uma excelente e cativante escritora, que se documentou bastante para criar personagens muito reais e situações verosímeis, mas também pelo tema. Ou deveria dizer “temas”? Embora, para mim, haja um tema principal, dizer qual é iria estragar toda a experiência do livro, por isso quero falar-vos de outros aspectos muito interessantes.

Grace Reinhart Sachs é uma terapeuta de casais realizada na sua carreira, apaixonada pelo marido e muito feliz no seu papel de mãe, que está prestes a lançar um livro sobre relações. O livro – sem querer abrir muito o véu e ser spoiler – chama-se exactamente You Should Have Known (“Já devias saber”) e explica às mulheres que, muitas vezes, o que corre mal nas relações é algo que elas decidiram ignorar no princípio da mesma, em prol da possibilidade de ter encontrado “o tal”. Tudo parece ir de feição na vida da protagonista, sem dúvida.

Porém, nunca é assim, pois não?

Não, não é. Por isso, quando a mãe de um aluno que frequenta a mesma escola privada do seu filho é assassinada, tudo muda na vida de Grace. Primeiro, fica chocada por aquele acontecimento terrível, principalmente porque ela conhecia aquela mãe – mesmo que brevemente e apenas uns dias antes. Depois, fica em pânico, quando o marido desaparece e ela não o consegue localizar. Onde está aquele homem com quem ela é casada há quase vinte anos? O homem dos seus sonhos e em quem ela confia cegamente?

Gostei de tudo o que a autora decidiu abordar: da psicologia, dos pensamentos, das relações de todos os tipos, das desilusões, do que esperamos da vida e do que descobrimos quando não corre como queremos, das mentiras em que, por vezes, escolhemos acreditar, das vezes que caímos e que nos parece impossível levantar.

Também gostei muito de um detalhe, não sei se foi ou não propositado: a forma como conhecemos Jonathan, o marido de Grace, será através dela e, posteriormente, de outros personagens. Como se não nos fosse possível interagir com ele, nem tirar nenhuma conclusão por nós próprios. Penso que, para os assuntos abordados e, principalmente, para a necessidade de conduzir e impressionar o leitor, colando a nossa opinião tendenciosamente à de Grace, foi uma escolha muito inteligente.

Muito importante e interessante foi também a forma como Jean Hanff Korelitz escolheu criar a sua personagem: o facto de Grace não ser, à partida, nem heroína perfeita e acima de qualquer moral, nem uma anti-heroína tão errada que aprendemos a gostar. É uma pessoa normal, com defeitos e virtudes, que nem sempre está certa e nem sempre concorda com as nossas visões (e com as visões de outras personagens). Por isso é que nos aquece o coração ver como se foi aperfeiçoando com as mudanças, as lutas, com a necessidade de se levantar. Adorei que a autora fizesse Grace cair do pedestal em que ela parecia estar, que criasse várias ironias, a primeira das quais: quem é ela para escrever um livro a aconselhar quem quer que seja sobre relações, quando ela própria se vê vítima de um engano? E claro, a minha parte preferida foi ir abrindo os olhos e compreendendo quem era, afinal, o seu marido. Toda a psicologia, as mentiras e as descobertas, histórias e segredos. Para mim, confesso, foi o êxtase.

Recomendo muito, sem qualquer dúvida. Para quem gosta de thrillers psicológicos e de segredos e dramas domésticos, é fantástico. Mas mais do que ser um livro de mistério é, também, um livro para pensar, pelo menos para mim. A crítica compara-o com Gone Girl, que fez sucesso nas livrarias e no cinema, e, sem dúvida, podemos entender que apele aos mesmos fãs.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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