Economia

Islândia, um caso Económico-Cultural

 

A Cultura salvou a Islândia, é verdade, custa a acreditar, mas aconteceu.

A crise financeira bateu no fundo, na Islândia, em 2008. No entanto, ao contrário do que aconteceu com Portugal, a austeridade não fez parte da solução. Não houve cortes na saúde e muito menos na educação. Muito antes pelo contrário. Esta receita que nos andam a vender há muito está errada, mas tanto acreditaram nela que acabam por fazer acreditar por cá, que é a única solução. E não é.

Na Islândia, além do direito de cidadania ser visto, como um dever a ser praticado todos os dias, tipo ir à missa das sete, o direito de dizer aos bancos – Não pagaremos o vosso estrago! – Foi exercido veementemente na Islândia. Está bem visto, pois ora se um banco vai à falência é da sua própria culpa/gestão, então se uma empresa vai à falência, neste meu país, o governo paga para que não se insolva? Não. Foram tantas as empresas que abriram falência, de há dois anos, de há um ano para cá ou, mesmo ontem e tresantontem que o governo não tem como intervir, porque pura e simplesmente não tem capacidade financeira para salvar do naufrágio todas as empresas, então, porque raio no caso dos bancos que tanto têm vindo a trabalhar o seu próprio afundamento, têm os cidadãos de pagar? A única resposta que me soa a verdade, é a de que em Portugal, há que amparar os golpes, há que gerir a economia por grandes interesses de grupos económicos restritos e fraudulentos.

Mais, na Islândia, um grupo de vinte e cinco cidadãos rescreveu a constituição do país, foi o primeiro passo, para uma democracia livre e justa.

Fizeram o que por cá não se faz, acreditar na soberania popular. Cá ainda não é possível, porque a maioria das pessoas não acredita na honestidade dos políticos, mas vota neles e porque cá as pessoas começam logo, por demasiadas vezes, não acreditar nelas próprias.

Voltemos à Islândia e olhemo-la com olhos de ver, não esquecendo que os conservadores também governaram na Islândia, os resultados na bolsa de valores foram desastrosos, chegando a desvalorizar 90% e o PIB caiu 7%, até que a salvadora da pátria apareceu, renascendo do seu próprio desinteresse político, mas com uma vontade sobrenatural de reverter o processo, o impulso final foi dado teimosamente pela Ministra da Educação, Ciência e Cultura Katrín Jakobsdóttir, que ao longo de penosos quatro anos não deixou que a desacreditassem. Sendo o sector do bacalhau a primeira indústria do país responsável pelo maior número de exportações, esta ministra de trinta e sete anos acreditou que transformando a cultura numa parte importante do investimento, esta daria retorno financeiro e contra os mais incrédulos, colocou os artistas como actores principais de um palco com terreno pantanoso, revirando o processo económico, através de uma nova corrente artística – o New Deal, nunca pondo em causa o investimento na saúde e na educação, o que nos querem fazer crer, ser impossível. Pois que, pelos vistos, não o é. Aliás, esta ministra provou ser uma sobrevivente e uma lufada de ar fresco, quando, por um lado, sempre protegeu a maravilha da natureza no seu país e quando daí retirou frutos que fortificaram a balança comercial, por outro investiu em áreas como a música, passando por exposições, espectáculos, jogos de vídeo, produções cinematográficas, como resultado a indústria cultural devolveu um retorno somente igualável ao da indústria de alumínio do país.

A ministra defende que aplicou estas medidas por ter tomado consciência de que o maior volume de desemprego no seu país era marcante entre os jovens e de que os jovens com ideias inovadoras teriam de fazer parte da solução.

Actualmente persiste a dúvida, se este modelo seria aplicável noutros países, dado que a população da Islândia é muito menor em relação aos países presentemente em crise.

No entanto, atentem no seguinte, enquanto os nossos governantes não entenderem que a criatividade tanto cultural, como educacional, como tecnológica, no fundo e em suma, intelectual, não fizerem parte da solução, andaremos sempre com o carro à frente dos bois, pois por cá, andamos a tentar resolver o irremediável, que foram os sucessivos governos cuja despesa ultrapassou sempre largamente a receita, não teremos solução à vista. É preciso investir em nós e nos jovens para que acordemos deste crepúsculo da austeridade, que parece interminavelmente, não ter fim à vista.

Retiraremos a lição que quisermos deste novo e evolutivo exemplo, provadamente de sucesso, mas se quisermos continuaremos a votar nos mesmos e a seguir, qual avestruz, com a cabeça enfiada na areia, a rezar por melhores dias, que nunca virão. A criatividade e a inovação têm provas dadas, a austeridade também. O caminho que escolhermos para plantar será sempre o que colheremos e sempre ouvi dizer, que quem semeia ventos, colhe tempestades. Quem semeia criatividade colherá dos seus frutos muito mais que um governo ex-liderado na sombra por Ministros como Miguel Relvas que nem nunca souberam o que isso é. A cultura de um país é o espelho do estado de uma nação. E a nossa vai mal, cada vez mais se afunda e o naufrágio deste barco em que estamos todos sairá bem caro aos nossos filhos. Vale a pena pensar sobre isto e sair um pouco da caixa em que nos fecharam.

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Filipa Mar

Neste sítio vindo do nada e do aqui constroem-se sonhos, distraem-se sensações mais fortes, dizem-se no som do búzio ao ouvido, as coisas jamais ditas por vós.

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