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Intermitência

Cheguei a São Lucas dos Esquecidos na noite em que o tempo parou. Foi fácil encontrar a única tasca da aldeia, ainda cheia – que mais haveria para fazer naquele lugar que nem vinha na maioria dos mapas? Entrei e passei no meio do silêncio abafado. Sentei-me com um copo de vinho tinto, à espera. Todos os olhos incapazes de esconder a curiosidade e o receio, todos os trejeitos a gritar os pensamentos e suposições. Eu ignorava, guardando para mim a vontade de rir. Sempre achei as pessoas engraçadas, perdidas entre uma imaginação ilimitada e conseguindo ser tão óbvias e previsíveis. O meu copo de vinho intocado. Ela demorou duas horas até perceber. Entrou na tasca esbaforida. Os olhos gigantes com ar agastado, demente. Os cabelos encarapinhados no ar, rebeldes e livres, quando ela tirou o lenço e o pôs em cima do colo. O corpo magrinho parecia imenso: aquela mulher estava cheia de mundo. A expressão com que me olhava parecia-se muito com esperança.

“Não te trago nada, Rita”, quis deixar claro.

Ela não desistiu. Os olhos pretos e loucos tentavam decifrar-me.

“Quem é você? Porque é que me esperava?” quis saber, directa. Tinha uma voz bonita, de quem sabe sussurrar segredos e guardá-los dentro do espírito.

Ignorei a primeira pergunta – não havia como responder.

“Conheci-te há muitos anos. Deixaste-me cheio de curiosidade”, sorri-lhe.

Ela observava o meu cabelo branco, todo penteado para trás e apanhado na nuca. Tentava lembrar-se dos meus olhos mel, que lhe asseguravam que nada de mal se passaria. Pensou nas rugas do tempo que faltavam nas minhas mãos, no canto da boca, na minha pele, e estranhava. Adivinhava-me um homem de muita idade, mas mesmo assim não estava perto de acertar.

“Quando foi isso? Olho e olho e olho, mas não sei onde o vi. Não me consigo lembrar.”

“Na capela do cemitério, uma vez que eu falava com o padre Carlos.”

A Santa Rita Bruxa, como lhe chamavam na aldeia, olhou pela janela para as sombras da rua. Pensava melhor com os olhos vidrados e perdidos longe do presente. Deixei-a em silêncio durante vários minutos. Impressionava-me a força e a escuridão que ela tinha dentro, o caos selvagem e o sossego luminoso que tentavam coexistir, mas que há muitos anos não conseguiam. Via as cicatrizes que ameaçavam ensombrar o pequeno sol que ela tinha no centro do peito. Era dura a luta dela, impossível contar as fissuras que a alma não sabia tapar. O desespero e a dor tão palpáveis, como um dia tinham sido a felicidade e a esperança. Aquela aldeia tinha-lhe estragado o espírito. Eu devia ter vindo mais cedo.

As sobrancelhas erguidas de repente disseram-me que se tinha lembrado. Devia ter sido há uns vinte anos atrás. O padre Carlos tinha acabado de chegar à capela da aldeia e tinha-me convocado, inundava-me de pedidos desvairados e prometia-me a sua alma. Eu acedi. Despi-o e despi-me, selámos o nosso acordo da forma mais natural e mais antiga do mundo. Quando me estava a vestir e a preparar para ir embora, os pensamentos dela explodiram à minha volta. Um olho que espreitava pela fechadura, culpa e dúvidas, curiosidade acima de tudo. Quando olhei de volta, ela sentiu que eu era muito mais do que ela, que tinha algo em mim que era o Universo. Sentiu que eu a poderia compreender. Alguém a chamou e ela desapareceu. Eu nunca a esqueci. O padre Carlos levou-me para fora da igreja, a cara dele estava vermelha e afogueada, com movimentos desesperados e loucos. Sentia-se sujo. Todos temos de pagar um preço.

“Aquela mulher vestida de negro” identificou-me. Não estranhou que eu agora fosse um homem, tal como não estranharia que eu fosse um mocho, um coelho, ou o que quer que me apetecesse. “Os seus olhos continuam iguais.”

Silêncio entre nós. Ela fascinada por me encontrar, por me reencontrar. Queria absorver tudo o que conseguisse de mim. Olhou para debaixo da mesa. Mesmo no escuro, viu-os. Levantou a cabeça e sorriu.

“E veio ver o padre Carlos outra vez?”

Assenti: “estou a precisar de almas novas.”

“Para o Céu? Ou para o Inferno?”

“Para onde couberem. Se calhar, nem para um, nem para outro.”

“Eu sei que é Deus.”

Sorri-lhe e olhei para as minhas mãos, evitando aqueles olhos que viam além do real. “Talvez seja”, disse baixinho “ou talvez seja o demónio. Qual é a diferença?”

Nas costas dela estavam os olhos do dono da tasca e os ouvidos de todos os outros.

“Se calhar, nenhuma” a Santa Rita Bruxa tinha uma sabedoria maior do que ela própria calculava.

“Vim também por ti, Rita. Penso que sabes que está na hora de deixar esta aldeia.”

Não era a primeira vez que ela tinha pensado nisso, nem sequer nos últimos minutos. Quando o tempo parou e ela soube que eu tinha chegado, perguntou-se se a iria levar – para longe da aldeia ou para longe da vida. Não parecia importar-se. Todos naquele lugar tinham um bocadinho da alma a apodrecer. Agora, observava-me com os olhos repletos de sustos.

“Rita. Espero que saibas que és muito mais do que sabes.”

Ela saltou da cadeira e abraçou-me. Todos olharam. Eu devolvi-lhe o abraço de olhos fechados. Gostava daquele calor que era só dela e esperava que vencesse o gelo. Quando ela me largou, vi que estava a chorar. Limpei-lhe as lágrimas com a manga da minha camisa, dei-lhe a mão e levantei-me. Estava na hora de ir embora.

“Vou estar aqui durante estes dias de relógios parados. Pensa no que vais fazer quando o tempo voltar.”

Saímos da tasca para dentro da negritude. Algures nas sombras, atrás de nós, cheirava a cigarro. A Santa Rita Bruxa agarrava-se ao meu braço com força. Dez passos depois, largou-me: era de novo alguém que conseguia manter-se em pé sozinha. Olhou por breves instantes para onde deveria estar a lua. Baixou a cabeça para os pés, e depois fitou-me. Sorri-lhe. Ela não me sorriu de volta. Estava inquieta. Há anos que se fazia perguntas impossíveis, que se enlouquecia com dúvidas que mais ninguém tinha. Eu olhei também para onde deveria estar a lua e comecei a andar em direcção à igreja e ao padre Carlos. A Santa Rita Bruxa deixou-se ficar ali, a ver-me partir no escuro, ou a sentir-me partir. Sei em que pensava enquanto eu me afastava: dava graças a mim porque os outros, na escuridão, não podiam ver as pegadas na terra que os meus cascos de bode deixavam.

Fonte fotografia: Karin Seppar
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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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