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ContosCultura

Inocente

Toc toc toc. Três pancadas secas e seguidas, apressadas e calmas ao mesmo tempo. Olhei em redor, tendo a sensação de que me vigiavam. Vi cortinados brancos a mexer e olhares sorrateiros que só mostravam a raiva contida neles. À janela de casa estava um gato, observando-me. A porta abriu-se com alguma dificuldade e uma carinha idosa surgiu, com um meio sorriso.

“Sim?”

“É a dona Carmo Freire?” perguntei. “A mãe da Sofia?”, esclareci.

Ao ouvir o nome, estremeceu. O sorriso natural apagou-se, mas a senhora forçou outro, que era quase uma expressão de dor. “Entre, entre” pediu.

“Eu precisava que a dona Carmo viesse comigo até ao escritório…” tentei explicar.

“A minha filha está acamada, sabe? Desde que a Sofia…” os olhos da senhora encheram-se de lágrimas e dor. “Bom, ela precisa de algum tempo para receber visitas. Entre e sente-se” voltou a pedir-me.

Nem me perguntou quem eu era, notei, tal devia ser a sede de alguém que não a olhasse mal, que quisesse conversar, que não a culpasse.

Entrei na pequena sala, uma sala antiga com alguns jornais e bastante pó. Um sofá verde-escuro no centro, com duas toalhinhas de crochet já amareladas pousadas nos braços. Outra toalha igual estava numa mesa pequena, mesmo em frente ao sofá. Os móveis eram escuros, num autêntico museu de loiças e bibelots. O chão forrado com uma carpete cinzenta, os estores da janela para baixo, os cortinados de veludo, tudo ajudava ao ambiente lúgrube e pesado. Uma televisão antiga, com TDT para os quatro canais principais e um pequeno rádio (telefonia, chamava a minha avó) pareciam ser o único contacto com o mundo. O gato continuava à janela, imóvel, como um animal de loiça. Uma sala triste e escura, antiga, antiquada, morta. Arrepiei-me.

“Pode sentar-se, menina, vou só buscar-lhe um chá! A sala está um pouco desarrumada mas está limpinha!”

Enterneci-me com a típica frase dos idosos que já não conseguem limpar e não têm quem lhes ajude. A casa está um pouco desarrumada, mas limpinha. Quis dizer que não queria chá, mas imaginei a desfeita que seria para a senhora, que poucas visitas receberia. Tive vontade de chorar, e senti-me incrivelmente nervosa. Queria contar-lhes logo o que tinha acontecido, dar-lhes a boa notícia.

A senhora voltou com o chá, andando devagarinho e com dificuldade. A pequena bandeja prateada que trazia nas mãos tremia. O som de loiça contra loiça e o cheiro do chá – de camomila, tinha a certeza! – trazia-me a minha infância de volta, uma memória que me enchia os olhos, o nariz e os ouvidos de forma brutal e completa. Uma viagem ao passado. Levantei-me para a ajudar com a pequena bandeja (a avó Lurdes não tinha uma igual?) e num momento de incrível lucidez pensei “poderia ser eu, poderia ser a minha família”.

“Beba à vontade” ajudou-me a servir-me, numa chávena branca com uma pequena fissura que mostrava que já devia ter dado luta naquelas mãos trémulas e velhas.

Ouvi passos. Apareceu à porta uma senhora que eu sabia nova, mas extremamente carregada pela idade e a desilusão. Era uma versão mais nova da senhora que me servia o chá. Tinha o cabelo castanho num penteado meio desgrenhado, embora se notasse o esforço por manter o cabelo com aspecto decente, e uma cara pálida e doente. O sorriso era o espelho da tristeza, e tinha os olhos azuis mortiços, talvez devido à medicação.

“Boa tarde” cumprimentou-me numa voz baixa, quase a sussurrar.

“Boa tarde, dona Carmo” respondi, com um sorriso, tentando transmitir confiança. Já a tinha visto uma vez, mas duvidava que ela se lembrasse de mim.

A dona Carmo, mãe, sentou-se ao lado da sua própria mãe, que imediatamente lhe segurou na mão dando força. Os filhos são sempre filhos, não importa a idade.

“Eu venho do gabinete do Dr. Carlos José Andrade” expliquei, finalmente. “O Dr. Carlos queria acompanhar-me, mas surgiu um imprevisto, e vim dar-vos a excelente notícia de que a Sofia sairá em liberdade amanhã!” Desbobinei tudo com um ligeiro tom ‘tcharan’, para as impressionar e entusiasmar. Quase sem respirar, nada profissional. Só lhes queria tirar esse peso de cima.

Elas olharam-me, piscando os olhos sem me entender, como desenhos animados.

“A Sofia?”

“A Sofia sairá amanhã em liberdade!” voltei a dizer, num sorriso maior. “Surgiu uma nova testemunha com um vídeo, que mostra que à hora do homicídio a Sofia estava em casa dessa testemunha” expliquei. “Vão retirar todas as acusações!”

Era uma boa notícia, mas eu só queria chorar. De alegria e de tristeza. Dos olhos de ambas, incrédulos e a lacrimejar. Nem quis imaginar os seis anos terríveis que aquela mãe e aquela avó teriam passado. O olhar acusador e de desdém que os vizinhos lhes teriam oferecido, o abandono e indiferença dos familiares e amigos mais próximos, a culpa (os pais não se culpam sempre?), o acreditar na inocência mas ter medo da mentira. O inferno que é para os familiares dos presos, inocentes ou culpados, em quem os meios de comunicação nunca pensam ou a quem o público deseja todo o mal.

E, neste caso, a confirmação da inocência, o tempo perdido, a injustiça.

“A Sofia?” voltou a repetir a dona Carmo, mãe, já com uma lágrima no olho. Um sorriso aflorou-se-lhe aos lábios e os olhos ganharam vida. Tapou a cara com as mãos e começou a chorar, a soluçar, num pranto quase de bebé. De alivio e dor. A dona Carmo, avó, abraçou-a e começou a chorar também, olhando para mim e murmurando “obrigada”, olhando para cima e sussurrando “obrigada, meu Deus”. Finalmente um sorriso sincero, mesmo no meio do som do choro, do choro de felicidade.

“Posso vir amanhã cá e vamos à prisão juntas buscar a Sofia”. Não pensei, só disse. Era o mínimo.

Abraçaram-me, a soluçar. Comecei a chorar eu também, de alegria, como elas. Não as conhecia, mas podiam ser a minha família. O gato saltou da janela e, ronronando, deu-me uma turrinha na perna. Como se também ele tivesse estado à espera desta notícia.

Era nestes momentos que o mundo valia a pena.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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