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Inês Guimarães: “Fazer matemática pode ser uma experiência divertida e enriquecedora”

Estudante de Matemática na Universidade do Porto, Inês Guimarães é uma jovem de 19 anos que, através do seu canal no YouTube, procura mostrar o lado divertido da Matemática. Na TEDx FigueiroDosVinhos, a Inês vai despertar-nos o sentido crítico, propondo que repensemos o que não questionamos.

Enquanto estudante de Matemática, uma ciência exata, de que forma é que acha que a Matemática pode despertar o nosso sentido crítico?

Em matemática, temos de ter a capacidade de questionar e analisar de forma racional os resultados que julgamos ser verdadeiros. Por ser uma ciência exata, quando é produzido um teorema, é preciso efetuar uma análise crítica e detalhada à sua demonstração, garantindo que não há qualquer erro no raciocínio conduzido. Assim, a matemática ensina-nos a pensar de uma forma lógica e clara acerca dos assuntos, incentivando o sentido crítico que devemos ter no dia-a-dia!

O seu canal de Youtube, cujo objetivo é mostrar o lado mais divertido da matemática, tem um número significativo de subscritores e visualizações. De que forma tenta passar a sua mensagem? Acha que está a ter os resultados pretendidos?

Em cada vídeo, costumo abordar um conceito, uma ideia ou uma história relacionada com matemática, de uma perspetiva diferente e de forma a que seja entendível pelo público geral. No fundo, pretendo que as pessoas que veem os meus vídeos encarem a matemática também como uma forma de entretenimento e nem sempre de um modo sério e escolástico! Neste momento, estou razoavelmente satisfeita com os resultados, até porque recebo imensos comentários positivos, mas gostava de conseguir atingir mais os jovens portugueses, entre os 13 e os 18 anos, já que a maior parte das pessoas que veem os meus vídeos são mais velhas e muitas são do Brasil.

Quando propõe que repensemos aquilo que não questionamos, a que se refere?

Refiro-me, sobretudo, à maneira como se ensina e se encara a matemática. Para muitas pessoas, a matemática foi só uma disciplina aborrecida e inútil que tiveram na escola, não se interessando mais por esta área. Assumem que se resume a um conjunto de fórmulas parvas e sem interesse e nunca mais lhe dão uma segunda oportunidade. Adotam uma mentalidade negativa e não se questionam se a culpa é mesmo da matemática em si ou se está no modo como foi ensinada ou (mal) aprendida. E se elas soubessem que existem desafios e raciocínios matemáticos capazes de fascinar qualquer um? Vale a pena pensar nisto.

De que modo é que a Matemática pode ser divertida?

A matemática é divertida a partir do momento em que encaramos cada problema como um desafio, uma aventura, e não como um massacre, uma obrigação. Resolver um problema de matemática significa explorar vários caminhos (e é normal irmos parar a becos sem saída…) e dar asas à criatividade. O ser humano gosta de ser estimulado intelectualmente. O ser humano é um ser curioso. Por isso, visto desta forma, fazer matemática pode ser uma experiência divertida e enriquecedora!

Como é que se alia o humor à Matemática?

Tudo pode ser abordado ou de uma forma séria ou de uma forma mais humorística. Apesar da matemática em si ser um assunto sério, ninguém me obriga a encará-la com seriedade! Não há nenhuma lei que me impeça de fazer piadas enquanto falo de matemática… Por que motivo não havemos de olhar para ela com boa disposição e positividade?

Cada vez temos mais opinião sobre todos os assuntos, mas muito menos espírito crítico. Qual a importância do espírito crítico num mundo onde a opinião está à distância de um clique?

Essa é uma questão muito importante e que devemos sempre ter presente no nosso quotidiano. Só porque lemos na Internet uma determinada informação, isso não significa que ela é verdadeira. Os próprios meios de comunicação social muitas vezes distorcem a realidade e transmitem maioritariamente acontecimentos negativos e sensacionalistas… Temos de aprender a estar devidamente conscientes acerca daquilo que é um facto e daquilo que não passa de “desinformação”. Toda a gente tem direito a expressar a sua opinião, mas deve ser uma opinião informada. Tal como em matemática, existem coisas que são verdadeiras e coisas que são indubitavelmente falsas.

Na Matemática, o que podemos questionar? Até que ponto tudo é questionável quando estão em causa fórmulas exatas?

Em matemática, a partir do momento em que um determinado resultado é corretamente demonstrado, ou seja, caso a demonstração não apresente qualquer erro, estamos perante um teorema verdadeiro que será verdade para sempre, ao passo que as ciências naturais produzem teorias mutáveis. Assim, aquilo que devemos questionar em matemática são as conjeturas, “será que a nossa intuição em relação ao resultado de um determinado problema está correta?” e a elegância das demonstrações, “será que a forma como provei este resultado é a maneira mais simples, será que compliquei desnecessariamente algum passo da demonstração?”, porque isso também é importante: não só produzir algo verdadeiro, como também expressar o raciocínio de uma forma clara e legível.

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Joana Veríssimo

Licenciada em Jornalismo e Comunicação e com uma paixão enorme pela escrita.

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