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Independente sobre o papel: o feminismo na literatura

Depois de ser bruxa, feiticeira, deusa, musa e guerreira, a mulher surge, na literatura, sem máscara, negando o patriarcalismo, defendendo os seus direitos e a liberdade de acção, para além da censura e no encontro da criação e do prazer. Esta mulher reflecte o feminismo em diferentes obras, procurando criar consciência ou expressando as posturas deste movimento.

Ao longo dos séculos a mulher viveu dominada pelo homem, sem direito a pensar, ou actuar por si própria. Porém, “durante a Segunda Guerra, a maciça inserção das mulheres no mercado de trabalho estabeleceu um novo campo de possibilidades para aquela que antes era vista como a ‘rainha do lar’. A partir desse processo de relativa emancipação, muitas delas reivindicaram novos campos de conquista nunca antes imaginados”, afirma o mestre em História, Rainer Sousa.

O movimento feminista questionou a inferioridade feminina, as relações de poder nas esferas pública e privada e o instinto maternal como algo inerente ao feminino. Paralelamente a este movimento, segundo Rainer Sousa, no meio intelectual, surge a difusão de livros de autoras que se interessavam em desconstruir a imagem previamente construída da mulher. O feminismo vê-se reflectido em diferentes obras a partir de uma reflexão sobre o papel da mulher na sociedade. Vários autores transportam-nos, então, para uma reflexão crítica relativamente a uma sociedade marcada de costumes e tradições históricas, onde a mulher tem um papel secundário.

Já na “sua pré-história, a literatura feminista conquistou um marco poderoso com a publicação, em 1792, da obra A vindication of the rights of woman [A reivindicação dos direitos da mulher], escrita por Mary Wollstonecraft, diz a Professora Doutor Adjunto II da Universidade de Caxias do Sul, Cecil Jeanine Albert Zinani. A autora defendia o direito das mulheres à educação e exigia a independência económica para as mulheres, como forma de emancipação pessoal e de respeito pela igualdade. “A obra defende que a mulher deve ter todos os direitos que o homem tem, inclusive o de propriedade e liberdade de expressão, como também o direito à educação. Para Wollstonecraft, não poderia haver progresso social se a maior parte da população continuasse destituída de direitos, estando as mulheres, tal como os escravos, incluídas entre as minorias dos destituídos e oprimidos. Para resgatá-las do estado de subordinação em que se encontravam, era necessária uma reestruturação da sociedade e uma regeneração plena das relações sociais entre os sexos. Estava incluída nesse pensamento a ideia de que elas deveriam ter representantes no Parlamento, ao invés de serem governadas sem que lhes fosse permitida qualquer participação nas deliberações do governo”, explicam as graduadas em Letras/Literatura Inglesa, Dignamara Pereira de Almeida Sousa e Daise Lilian Fonseca Dias.

No início do século XX, destacou-se a produção literária e ensaística de Virginia Woolf, Um Tecto Todo o Seu, bem como O Segundo Sexo de Simone Beauvoir e A mística do feminino de Betty Friedan. Estas obras e muitas outras difundiram a consciência entre os leitores e reflexões sobre o que é ser mulher.

No século XXI, chega, com uma nova produção literária, uma nova heroína, uma heroína diferente das heroínas do passado, com as características que inspiram as mulheres feministas. Hermione, uma das principais heroínas de Harry Potter, é inteligente, sensível e questionadora. “A sua inteligência ajuda Harry e Rony no seu caminho pela ‘aventura’, no entanto, ela mesma não toma parte nesse caminho. Ela é uma das principais heroínas modernas da literatura. A principal diferença entre a heroína do passado e uma heroína do presente está no facto de que a primeira é passiva, submissa, oprimida e precisa de ajuda, está presa num pequeno espaço, físico e psicológico (sofre o controlo do pai e depois do marido). Enquanto a ‘nova’ heroína é consciente dos seus deveres, direitos e desejos e está pronta para lutar por eles”, diz o estudante de jornalismo Luiz Guilherme Boneto.

O feminismo foi essencial para que as mulheres assumissem um papel de relevo na sociedade. A mulher tornou-se leitora e escritora, divulgando a imagem de uma mulher forte e independente. Este movimento quebrou o silêncio de séculos e tornou heroínas inúmeras mulheres, mas até que ponto o herói é diferente da heroína? Qual a necessidade deste movimento que transformou as possibilidades do sexo feminino? E qual a necessidade de divulgar a imagem de uma mulher com um papel principal?

Como afirma Luiz Guilherme Boneto, “quando se considera o acesso à aventura, o status do herói é privilegiado, enquanto a heroína precisa de ultrapassar vários obstáculos para alcançar os mesmos objectivos. O facto é que, a literatura, especialmente os contos de fadas e o folclore, reflectem a vida real. O acesso feminino à aventura apresenta mais dificuldades”, tal como o acesso à igualdade social.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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3 thoughts on “Independente sobre o papel: o feminismo na literatura”

  1. Olá, gostaria de usar esse texto para um trabalho da faculdade, tem como ele ser disponibilizado? Vou botar as referências e autoria, claro.

    1. Olá Isabella Giordano. Já lhe respondemos no comentário que deixou no Facebook e pedia-lhe que enviasse um mail para oreporter@reportersombra.com, a explicar a situação, para podermos falar com a autora do artigo e ver a resposta dela? Obrigado 🙂

    2. Boa noite,
      o artigo pode ser disponibilizado. O Miguel Arranhado, em breve, irá enviar o artigo e a imagem por email.
      Quero, ainda, aproveitar para agradecer a escolha deste artigo para o seu trabalho.

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