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Independência ou esquecimento

No dia em que Portugal foi a eleições regionais, a mesma região que diz ter perdido a independência para que Portugal conquistasse a sua, enceta um processo de autodeterminação.

Tudo poderia ser normal. E saudável até. Não fora a forte resistência a tal processo e uma atitude tipicamente colonialista, pautada por actos de injustificada violência, e o dia do Referendo à Independência da Catalunha podia ter passado quase sem se notar para fora de Espanha e até poder a configurar-se como algo sem relevância e sem consequências.

A Catalunha, a região mais rica e, per capita, a mais contributiva de Espanha é liderada por organizações de fraca credibilidade à luz de uma Europa de prosperidade e algum conservadorismo social. Alguns dos seus líderes mais relevantes, como o Governo da Generalitat e a Câmara de Barcelona, são conhecidos políticos de esquerda e de uma esquerda conotada com atitudes difíceis de entender e aceitar, como a imagem da Alcadessa a urinar numa avenida da cidade, em protesto contra… Trump (por sinal Presidente de um país além Atlântico).

Só esta análise sumária e muito pouco apurada poderia retirar credibilidade a um processo de independência daquela região espanhola. Contudo, há, neste momento e principalmente após 1 de Outubro, muitos mais factores determinantes de opiniões e tomadas de posição.

A Catalunha tem uma população de cerca de três milhões de pessoas (7 % da população de Espanha) e um contributo de cerca de 20% (16 %) para o PIB espanhol.

A Catalunha foi no passado uma das regiões que mais se opôs ao regime de Franco e às falanges que o apoiaram e uma das regiões que mais sofreu com a polícia política da ditadura. A herança do tempo de Franco ainda hoje estará bem viva na memória dos mais idosos. A tendência política dos votantes na Catalunha tem repetida e geralmente expressado tal memória. Os independentistas catalães são habitualmente de organizações políticas da Esquerda.

Com os pressupostos conhecidos, o Governo de Espanha opôs-se, o que é normal, à realização do referendo do dia 1 de Outubro, mas interpôs-se ao mesmo, o que já se tornou evidente ser um clamoroso erro, provavelmente um erro histórico. A violência praticada pela polícia espanhola nunca mais será esquecida pelos catalães e tais actos serão daqueles que a dado momento não será importante conferir do exagero ou manipulação de algumas imagens ou descrições. Num momento assim, o pior que um Governo pode fazer é alimentar o sentimento de revolta de um povo e, com isso, agigantar o movimento pró-independência. E foi isso mesmo que o Governo do conservador Rajoy fez. Tivesse ignorado o referendo no seu dia, mesmo sem evitar criticar e formalmente declarar a oposição ao mesmo por ser Presidente do Governo nacional, talvez agora se soubesse de forma mais real a verdadeira dimensão do movimento independentista. Porém, mais importante, talvez tivesse feito estancar o fluxo de simpatizantes ou pretendentes de tal movimento, na perspectiva de Espanha, deixando correr o referendo, como se o ignorassem.

Na perspectiva, não descurável da Catalunha, e por mais que se pretenda não valorizar o movimento que agora cresce a dimensões antes não que não se vislumbravam, parece agora bem mais alcançável a Independência. O medo e o sofrimento do dia 1 de Outubro, pode em breve parecer-lhes um custo aceitável e menor. Outra coisa é a certeza de um futuro de prosperidade, e não tanto pelas ameaças de parte do sector financeiro, de retirada de sedes de algumas empresas, mas bem mais pela real capacidade de gestão, por parte de organizações políticas muito conotadas com uma Esquerda irresponsável e mesmo extremista, se levarmos em conta algumas atitudes risíveis, mas preocupantes.

Um factor adicional, nada desprezível, ou até da mais relevante importância, para a Catalunha pretendente à Independência, é um futuro na Europa e no Mundo. A Europa, não pode ou não sabe intervir agora, em processo decorrente, mas terá de o fazer se o processo avançar para a secessão. E se a Europa recusar um estatuto de Estado Membro, mesmo após prolongado processo de adesão à UE como novo Estado europeu, como fica um novo país, hoje com um rendimento per capita elevado no espaço Ibérico e não descurável na comunidade pan europeia.

Podemos agora esperar tempos mais serenos, ainda que uma declaração de Independência possa ressurgimento de alguma violência, mas com outras cautelas, ou, pelo contrário, ainda estaremos para assistir em plena União Europeia, a movimentos de extremada violência e uma muito provável intervenção militarizada? O que é certo é que naquela região (ou país) nada será mais como antes.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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