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Ideias para o Verão

Olá, bom dia. Estavam à minha espera há muito tempo? Peço desculpa… O Verão e estou atrasado, já devia ter publicado esta crónica há mais de um mês. Cheguei a pensar que o patrão me queria mandar embora. Passei pelo departamento de pessoal a perguntar se tinha algum documento para entregar na tesouraria, mas ainda não foi desta que me despediram.

Ora bem, Verão e vinho é uma ligação que tem os seus “quês”. Se por um lado, o vinho permite um convívio diferente da diurética cerveja e da alucinação dos destilados, ou das sangrias manhosas, ou dos refrigerantes, que dão mais sede do que tiram, por outro, a escolha obriga a pensar mais nos bolsos, pois ninguém (para além de mim) é milionário e as férias saem do bolso.

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Portanto, parto do princípio que se vai cuidar da algibeira. O que aliás nem é difícil, pois o calor pede vinhos mais leves. Vinhos menos pesados significam nenhum (ou muito pouco) estágio em barricas, que são caras.

Muitas vezes apelidam-se os vinhos de estio como “vinhos de piscina”, mas nem todos temos a sorte de ter uma… eu tenho, tem 25 metros e empresto-a à Câmara Municipal de Lisboa. Vinhos de praia é esticar, pois o cansaço do Sol e do calor, o efeito do álcool e mais o automóvel… nem cerveja. Vinhos de esplanada, enfim… Vinho para o Verão, ou “vinho em calções”. Cada qual sabe como prefere designar, da sua algibeira e do valor que se dá à bebida de Baco.

Confesso que não encontro nada de interessante abaixo dos três euros. Isso vale só para mim. Tenho dificuldade em recomendar abaixo de três euros, montante que (para mim) é muito baixo. Como não sei tudo de cor – nem a memória é célere o suficiente para, no tempo médio de escrita duma crónica, consiga tê-los “todos” em mente – fui espiolhar o que vendem alguns supermercados. Normalmente, recomendaria visita a uma garrafeira, mas penso que em férias o tempo é demasiado curto para se perderem horas em compras de mercearia. Lembremo-nos que se pagássemos o vinho ao preço do café, cada garrafa custaria 15 euros (há um texto sobre isso aqui no Repórter Sombra).

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Não indico vinhos muito estruturados, nem pujantes, porque – mesmo à temperatura correcta – resultam desapetecíveis. Aconselho a que se olhe com atenção para o volume de álcool, pois não é amigo das temperaturas estivais. Por ouro lado, as comidas mais leves casam-se melhor com néctares mais ligeiros.

Num ápice, o Verão lembra-me Vinho Verde e rosés. Cuidado, porque a região do Vinho Verde produz muita zurrapa, embora os vinhos sejam vendidos a preços comedidos – excepção da sub-região de Monção e Melgaço, que é mais valorizada. Nos rosados, o perigo vem se forem um subproduto dos tintos – já explico.

O rosé resulta de vinho de uvas tintas com pouco contacto com as películas, que transmitem a cor. Com excepção de pouquíssimas castas tintas que dão sumo tinto, das uvas roxas pode-se fazer vinho branco.

Portanto, os rosados têm pouco contacto com a pele do bago. Muitos rosés – a maioria – resulta do aproveitamento de mostos obtidos de uvas colhidas para fazer vinho tinto. Isso faz com que tenham graduações alcoólicas elevadas. Porém, a fruta colhida mais cedo tem menor teor de açúcar e, por conseguinte, o vinho terá menos grau. Ao mesmo tempo, o estado vegetativo da planta dará maior acidez – frescura natural.

É mesmo precisa atenção com os rosados, pois há-os com 14,5% de álcool e até com 15%. Atentados! Se tiverem acidez que aguente essas graduações, menos mal. Porém, continuam a ser um tiro de obus.

Bom, alguns abaixo de três euros – não especifico preço, pois varia – ainda que vários estejam a 2,99 euros. TambémJB_vinhoparaoverao_3 não vou acima dos dez euros. Uma vez que o patamar de preço é baixo, é normal que as sugestões recaiam em vinhos cujo nome é conhecido e sejam fáceis de encontrar. Visto serem também as regiões que mais peso têm no mercado, a maioria das escolhas acaba por cair no Alentejo, Douro e Vinho Verde. Atenção, que alguns destes vinhos podem estar acima do nível de álcool “mais benéfico”, mas…

Embora recomende, na verdade, não é fácil encontrar rosés a preços simpáticos para a algibeira, como se verá pelo número de sugestões. São vinhos de nicho, cujas produções são pequenas e o preço sobe acima “do que devia”. Nos espumantes acontece a mesma coisa.

Peço-vos um favor: evitem os lambruscos, os tintos de verano e os frisantes. Vinhos franceses, ou italianos baratos são péssimos, alguns espanhóis também. Se apresento sugestões de néctares, vou também opinar sobre os locais. Quanto a mim, o Continente tem a melhor oferta, seguido do Jumbo, que tem maior escolha. O Lidl tem algumas coisas “giras” e é preferível ao Minipreço, ou ao Pingo Doce, cuja oferta é deprimente, onde o que importa é apenas o factor preço.

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Outro cuidado, nada como ver na Internet… há grandes superfícies que nas promoções e feiras de vinhos vendem latão a preço de cobre. Na vertigem dos bons preços, o consumidor pode cair na esparrela e comprar gato por lebre. Para dar o exemplo: há uns anos, um hipermercado fez uma promoção de 50%. Lá estava um tinto a quatro euros, que supostamente devia normalmente custar oito, mas não… era um vinho cotado abaixo de um euro!!!!!

Até três euros

Nos brancos: aponto para o Mundus (chamado Vinho Leve, produzido apenas nas regiões de Lisboa – antiga estremadura – e Tejo – antigo Ribatejo –, sendo este de Lisboa), Loios (Alentejo) e Lancers (Portugal).

Nos tintos: Tintos Versátil (Alentejo), Loios (Alentejo), Conde de Vimioso (Tejo), Grão Vasco (Dão) e Pancas (Lisboa). Não encontrei nada interessante nos rosés.

Entre os três e os 4,99 euros já há mais sorte

Sei que os rosés ainda arrepiam muitos homens de barba rija e que há mitos. Dois rosados que costumam levar com uma nega peremptória são boas apostas: Mateus (Portugal) e Lancers (Portugal). Adega de Borba (Alentejo), CARM (Douro), Encostas do Tua (Douro) e Quinta de Cidrô (Douro).

Brancos: Loureiro – Adega Cooperativa de Ponte de Lima (Vinho Verde), Aveleda (Vinho Verde), Aveleda Alvarinho (Vinho Verde), Quinta da Aveleda Loureiro/Alvarinho (Vinho Verde), Bucellas (Bucelas), BSE (Península de Setúbal), Duque de Viseu (Dão), Fiúza Três Castas (Tejo), Muralhas (Vinho Verde) e Quinta do Cardo (Beira Interior).

Tintos: Cabeça de Toiro (Tejo), Dory (Lisboa), Lusitano (Alentejo)… é complicado, tintos com pouca violência. Há mais bons tintos a este preço, mas são – provavelmente – violentos para a comida que irão encontrar.

Mais de cinco euros e até 9,99 euros

Brancos: Catarina (Península de Setúbal), Deu la deu (Vinho Verde), Duas Castas (Alentejo), Fiúza (Tejo), Murta (Bucelas), Palha Canas (Lisboa), Quinta da Lagoalva Talhão 1 (Tejo), Quintas de Melgaço (Vinho Verde) e Reguengos de Melgaço Alvarinho (Vinho Verde).

Tintos: Casa Santa Vitória Reserva (Alentejo), Papa Figos (Douro), Quinta da Lagoalva Tinto (Tejo), Quinta de Carvalhais (Dão), Quinta dos Termos Reserva (Beira Interior), Ravasqueira (Alentejo), Subsídio (Alentejo), Três Bagos (Douro) e Vinha da Defesa (Alentejo).

Rosé: Colecção Privada Domingos Soares Franco Moscatel Roxo (Península de Setúbal) e Vinha da Defesa (Alentejo). Haverá certamente mais, mas na busca…

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Antes de terminar

Ponto importantíssimo é o das temperaturas – já abordado anteriormente. O vinho tinto não se bebe à “temperatura ambiente”. Temperatura ambiente não é nada, no Inverno é baixa e no Verão é alta. Não é mariquice do boné, estão estudadas. Não tenham receio em refrescar um tinto no frigorífico, pois, mesmo que fique frio em demasia, ele vai recuperar, ou com uma manga térmica, ou balde com água, gelo e sal. Muita gente “gela” os brancos e os rosés, o que acarreta “perda” de aromas e sabores e, como são mais leves do que os tintos, podem levar a consumo maior e mais rápido, ou seja maior risco de bebedeira e perda de prazer.

O mais importante: se beber, não conduza. E não mate a sede com vinho, dá sempre mau resultado. Boas férias!

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa.

Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais.

Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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