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I am Groot

Tal como a Pixar o fez anteriormente, a Marvel Studios desenvolveu uma marca que já transcende qualquer personagem, ou equipa. Aquele rectângulo vermelho com letras brancas já se tornou num selo de qualidade, uma garantia relativa de que o filme baseado numa banda desenhada que iremos ver vale o gasto de tempo e de dinheiro que iremos fazer. No entanto, também como a Pixar, a Marvel tem de decidir agora sobre como melhor expandir e aumentar a sua marca. Fazer mais sequelas dos filmes que todos amamos? Ou tentar sair da zona de conforto e investir em novas histórias, trazendo com isso um novo conjunto de riscos?

Com Guardians of the Galaxy, o estúdio demonstra escolher a segunda opção e apresenta um filme que facilmente encontra o seu próprio ritmo e tom. Mais emocional do que Captain America: The Winter Soldier. Mais inspirador do que Thor: The Dark World. Mais genial do que Iron Man 3. Mais engraçado do que The Avengers. Guardians of the Galaxy apresenta os mesmos defeitos que muitos inícios de franchise demonstram ter, uma vez que a sua narrativa centra-se (quase) exclusivamente na apresentação das personagens e na preparação para futuras aventuras. Contudo, o facto de ter personagens menos conhecidas, efeitos visuais magníficos e um tempo cómico no ponto impede que o filme seja apenas um lugar-comum nos filmes sobre super-heróis de banda desenhada. Em vez de repetir a fórmula que a Marvel usou em The Avengers, este filme é uma genuína tentativa de adicionar mais elementos ao caminho já traçado.

Só que, antes de olharmos para as estrelas, temos de olhar para o nosso próprio planeta, a Terra. É o planeta em que Peter Quill, o herói que está no coração dos Guardiões da Galáxia, num universo Marvel coeso em termos cinematográficos, e que é a menos ortodoxa personagem principal apresentada até à data. Quando é apresentado ao público, Peter vive em pleno 1988 e é uma criança à beira de viver uma das maiores perdas da sua vida. Uma perda tão devastadora, tão difícil de suportar, que leva Peter a fazer aquilo que qualquer criança faz, ao encontrar uma adversidade que não consegue ultrapassar: Foge… mas não para muito longe. Antes que consiga colocar as ideias em ordem, uma nave espacial aparece, raptando-o do seu planeta natal e alterando o curso da sua vida para sempre.

Vinte e seis anos depois, Peter Quill é um criminoso reconhecido por alguns (mas não muitos) como Star-Lord. A sua reputação não é impressionante, mas as suas capacidades são. Ele usa um capacete espacial que é retráctil e que lhe permite respirar em ambientes hostis à raça humana. Tem umas botas com jactos, que lhe dão a capacidade de saltar grandes distâncias, e maneja uma pistola com dois canhões, que tanto podem imobilizar qualquer inimigo, como colocar alguém inconsciente, se necessário. Para além disso, ele rouba coisas (muitas e muitas coisas), enquanto ouve o fabuloso Mix Volume 1, uma colectânea de êxitos dos anos 70 e 80 e a sua única ligação ao planeta que o viu nascer.

Em suma, Peter Quill representa o tipo de herói que muitas crianças sonham ser, quando estão em a crescer. Da mesma forma, Guardians of the Galaxy, num todo, tem todos os condimentos para se tornar no guilty pleasure das crianças de hoje em dia e a sua referência, quando forem adultos, tal como Bambi, o Rei Leão, ou Toy Story foi para as suas respectivas gerações. É gigante e criativo na imagética que cria e na escala que atinge, levando os fãs que estão familiarizados com o universo Marvel para tão longe da Terra, que é normal que, por instantes, se esqueça que o filme a ser visto tem a chancela da Marvel. Na realidade, Guardians of the Galaxy e Peter Quill estão mais próximos de Star Wars e de Han Solo do que de Iron Man e de Tony Stark. Melhor comparação seria se fosse feito um paralelismo com Firefly e Malcolm Reynolds, uma vez que Quill encontra-se rodeado por uma tripulação tão diversificada, que, em momentos, faz lembrar a Serenity da série de televisão de culto.

Baseado numa banda desenhada criada em 1969, Guardians of the Galaxy tem em Peter Quill a alma e o centro do filme, mas nos restantes membros da equipa personagens tão, ou mais polarizantes. Neste grupo de desajustados, temos Gamora, uma assassina mortífera e a filha adoptiva de Thanos, o maléfico Titã que apareceu depois dos créditos em The Avengers, Drax o Destruidor, um musculado ser, repleto de tatuagens e com contas a ajustar com o homem que matou a sua família, e Rocket e Groot, um guaxinim com uma grande paixão por pistolas e uma árvore com vida, que formam uma parceria que faz lembrar a relação que Chewbacca e Han Solo tinham. Separadamente, estes cinco elementos são um conjunto de anormais, tal como são descritos vezes sem conta, ao longo do filme. Porém, em conjunto tornam-se nos fantásticos Guardiões da Galáxia, que continuam a ser uns anormais, mas são uns anormais que têm a capacidade de salvar o universo. Eles incorporam a ideia que pessoas com diferentes origens, diferentes formas de estar na vida e diferentes prioridades podem unir-se para fazerem algo incrível… E fazê-lo com estilo.

Para testar a capacidade que os Guardiões têm de trabalhar em conjunto para o bem do universo, existe Ronan, um Kree fanático e que decidiu trilhar um caminho de terrorista contra o Tratado de Paz assinado entre o seu povo e a Corporação Nova de Xandar. Este vilão pretende controlar a galáxia, através de um artefacto tão antigo como a criação do universo, um artefacto que por acaso está na posse de Peter Quill. Lee Pace acrescenta uma energia arrepiante e genialmente maléfica a um Ronan que entregue a outro actor poderia ter-se tornado num vilão unidimensional, mas que é, inevitavelmente, ultrapassado pela impregnante estranheza que emana dos heróis principais deste filme.

Como Star-Lord, Chris Pratt demonstra o porquê da sua carreira estar a entrar numa nova fase, em que ocupa um dos papéis principais da narrativa. Ele é excêntrico e apalhaçado, tal como já se sabia do seu trabalho em Parks and Recreation, mas é também cheio de alma e muito expressivo, fazendo com que o público se relacione com ele facilmente. Em Gamora, Zoe Saldanha encontrou a sua área de conforto e uma personagem com quem consegue fazer aquilo que melhor sabe fazer: dar porrada e coleccionar inimigos, mas, desta vez, por toda a galáxia. O mesmo se aplica a Dave Bautista, que com Drax consegue aumentar as suas capacidades representativas, entre murros e pontapés, onde consegue ter momentos emocionais tocantes e tiradas cómicas irresistíveis. Porém, Bradley Cooper e Vin Diesel emprestam as vozes às melhores personagens do filme todo e que conseguem, simultaneamente, ter cenas divertidas e emotivas. Falo, claro, de Rocket e de Groot.

O grande ponto negativo do filme advém do excesso de personagens secundárias que tem, incluindo o polícia de John C. Reilly e a líder Nova Prime de Glenn Close, já que obriga o enredo a ter um esforço extra para incluir todas as suas histórias e narrativas. Consequentemente, os protagonistas acabam por não ter o espaço necessário para um correcto desenvolvimento e fazendo com que saiamos da sala de cinema com a sensação de que não os conhecemos devidamente. Paralelamente, o tom que os Guardiões da Galáxia têm é um reflexo do seu director, produtor e argumentista James Gunn, que anteriormente havia feito o filme de horror satírico Slither e o filme indie Super, nos quais soube demonstrar o seu amor por personagens fora do comum, pela comédia negra e por parvos com um coração de ouro. Em Guardians of the Galaxy, James Gunn incorpora todos esses elementos e pinta-os numa tela de ficção científica. O filme encontra-se impregnado de momentos de puro chico espertismo, de gozação consigo mesmo e de uma procura constante de situações genuínas para se criar uma ligação com o espectador. Exemplo disso é o único objecto que Peter Quill tem que o lembre da sua vida na Terra. Um Walkman com uma cassete gravata pela sua mãe, que contém uma compilação dos clássicos de rock dos anos 70 e 80 e que acaba por se tornar na banda sonora do filme todo. São estes momentos e estas personagens tão bizarras que tornam Guardians of the Galaxy tão especial.

É possível que o filme não tenha a mesma complexidade emocional e o mesmo comentário social que Captain America: The Winter Soldier, ou Iron Man 3 têm, mas, no que toca a diversão e entretenimento, vence-os facilmente. Os Guardiões da Galáxia podem sem uns anormais, porém, são os nossos anormais e o mundo do cinema, juntamente com o universo todo, ficou ainda mais fantástico com a sua presença.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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