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Histórias de Portugal

É triste ver os olhos do desespero. Olhar a tristeza, a mais profunda, a da alma e não poder fazer nada. Perceber que quem temos à nossa frente já baixou os braços e desistiu. Desistiu de procurar, de querer, de viver. Para mim, é humanamente impossível ficar imune a esta tristeza. Angustiada, decidi tentar fazer a diferença. Ser a mão que já não tem força para se erguer e bater a várias portas à procura de auxílio. A maioria encontrei fechadas a 7 chaves. As poucas que se abriram apenas reforçaram o que já sei. “Não tem idade”. “A escolaridade não é suficiente”. “Não tem carta de condução”. “A experiência não serve”. Um chorrilho de frases negativas, onde o “não” é rei.

Sinto, na primeira pessoa, a frustração de ser rejeitada. A falsa crença que se torna verdadeira e me faz acreditar que já não sirvo. Que a sociedade já não me quer. Que com 50 anos, já não me consideram produtiva. Com mais de 30 de descontos, ninguém me ajuda. Ninguém.

É isto que ela sente.

De cada vez que estou com ela, vejo olhos de esperança. Meia dúzia de palavras depois, sobram apenas lágrimas. “Ainda não foi desta, temos de ter calma. Sabemos que está difícil, mas vamos continuar a tentar”. Restam-me palavras de conforto. Daquelas que se dizem, quando alguém morre, mas que em nada aliviam a tristeza. De cada vez que a olho, vejo-a mais definhada, mais vazia, mais pequenina. Desiludida, porque nela carrega a culpa do mundo. A culpa é dela, por ainda não ter conseguido um emprego. Porque não estudou, já é velha e não tem a imagem que alguém disse que era necessária para o exercício da função.

Portugal, o que andas a fazer aos teus? Àqueles que investiram em ti, que trabalharam e que, por infortúnio da vida, ficaram desempregados? Tens em ti a convicção de que os novos é que são capazes. Aumentas a idade de reforma e não dás respostas para que os velhos continuem a trabalhar. És incoerente. Uma anedota, de péssimo gosto. Tornaste-te num país repleto de vivos que já morreram por dentro. Estão mortos, conformados, insatisfeitos. Pobres, mas com uma pobreza que vai muito além do dinheiro e da tua crise económica. Uma pobreza de espírito que só depende de ti mudar.

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Sara Pereira

O que me define não é a formação académica ou estudos complementares. Sou isto: nem mais nem menos que alguém, mas ninguém é igual a mim. Sou única, com os meus defeitos e virtudes. Sou complexa e simples ao mesmo tempo. Por vezes complexa nas alturas em que deveria ser simples, nunca ocorre no tempo certo ou na medida exacta. Sou descomedida na medida do equilibrado. Sinto muito mas esqueço depressa. Apaixono-me constantemente pela paixão e sofro desilusões assolapadas. Cada dia, mais que em qualquer outro tempo, tento equacionar que não é nem será a ultima vez que as sofro e assim aprendo a senti-las menos. Sou sonhadora e vivo a sonhar com um mundo que seja um lugar melhor para nós. Gosto de viver alienada desta dita realidade que me rodeia, para não sabotar quem sou. Sou uma alma em constante desconstrução para que me possa continuar a construir. Tenho eternas perguntas que nunca serão respondidas. Gosto de escrever. O que me falta na comunicação verbal, compenso na escrita. Gosto da fluidez das palavras, do peso que podem adquirir, da maneira como podem tocar, do significado escondido que podem ter. Para além do que dizes ser óbvio há sempre mais, se escolheres ler-me. E quando verdadeiramente me lês, sou isto: nem mais nem menos, mas feliz por ser assim.

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