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ContosCultura

Heróis

Uma irritação constante martelava-lhe cada segundo daquele dia. Assim que acordou uma melodia introduziu-se na sua cabeça e não havia meio de se livrar dela. Uma guerra constante que travava consigo para se conseguir abstrair daquelas poucas notas de música. No banho, ao pequeno-almoço, na manhã, todo o dia. Irritava-se sempre que passado um segundo de nova tentativa de a ignorar, percebia que todo o esforço fora em vão.

Então pensou que se não conseguia deixar de a cantarolar, mais valia tentar saber que melodia era aquela e porque a tinha tão presente. Tantas vezes isto acontece, uma pessoa tem algo escondido na ponta da língua e não sai. Algo que sabes exactamente o que é mas que por uma qualquer partida do facto de sermos humanos, não nos lembramos o que é naquele preciso momento em que o queremos saber. Começa como uma comichão mental e pode chegar a ser perigosamente irritante. E se bem que normalmente acontece por algo simples como o nome do terceiro mosqueteiro, pode também ser algo complexo.

Ele até procurou na internet se haviam exercícios para o fazer recordar. Escutou uma miríade de músicas a ver se a melodia chegava a si. Uma tarde de trabalho para esquecer. Nada resultava. Mais valia sair assim que fosse minimamente possível. Na rua as pessoas olhavam-no curiosas e ele nem se apercebia. No metro cantarolava para si e para os mais próximos. As pessoas não perdiam o seu conforto mas também não o ignoravam. Olhavam-no de lado e ouviam-no ao lado. Quantos reconheceriam aquela melodia? Ele nem imaginou essa possibilidade que seria uma salvação simples, talvez demasiado simples. Saiu do metro e foi ao encontro com os seus amigos, vistos por si como uma esperança.

“…Tarititata taritita tarititata tarititum… Alguém reconhece isto?”. Ninguém. Ainda foi amigavelmente insultado por nem ter cumprimentado ninguém condignamente. Ouviu os normais “estás maluco” e “nem sabes cantar”. Lá explicou ele a sua luta desde que acordara naquela dia. Naquele momento na esplanada mal conseguia manter a conversa. A melodia reproduzia-se silenciosamente. Sentia a sua batida em cada gesto que fazia. Era-lhe difícil participar na conversa. “E a cena do Prince?”, alguém perguntou, “É difícil acreditar. Eu sempre o admirei e nunca pensei sequer que um dia ele pudesse desaparecer assim”. “Pois, parece que só descobrimos que ele é uma pessoa normal no momento em que morre”. “Sim, até lá é sempre uma espécie de deus, um herói…”

A conversa é subitamente interrompida com um pulo da cadeira. “É isso, já sei. A melodia, a música! Prince, herói, Bowie, herói, herói heroes! We can be heroes, just for one day!” Ficou levantado e silencioso a olhar o céu pensativamente. Agora sabia que melodia era, restava-lhe perceber porque a tinha tão presente. Outra luta. Ininterrupta. Parecia pior que a anterior. “A vida é feita disto.” Comentou sem que ninguém o percebesse. “Mas tu estás bom ou não?”. “Não, não estou, falta-me algo na vida e ando a fugir disso porque ameaça ser efémero. Será isso razão para fugir? Ou devo… Desculpem-me mas tenho que ir fazer algo.”

Assim o disse e o fez. Levantou-se apressou-se. Todos ficaram a espantados a vê-lo descer a rua até que desapareceu. Percebeu ele o porquê da melodia ao pensar no que a letra daquela música significava para si. E assim de um momento para o outro, num piscar de olhos à vida que vê em frente, decidiu fugir do medo de sentir algo acabar ainda antes de começar. Decidiu ser altura de arriscar e procurar aquela felicidade íntima que tanto sonhava mas que lhe causava hesitações no seu viver. Viver foi no que pensou. Viver foi o que decidiu. Decidiu viver plenamente nem que fosse só por um dia. Pelo menos nesse dia será herói.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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