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Guy Bourdin – a dor em arte

Transforma a tua dor em arte. Esta foi uma das frases que retive há pouco tempo porque a arte também é isto, é a alquimia dos sentidos do próprio criador, uma força imensa que transcende o que se tem dentro e se traduz numa visão única.

Nem todos os artistas têm de ter uma alma atormentada para que o seu trabalho seja único, mas Guy Bourdin tinha. E exprimiu todos os seus fantasmas, tornando-se numa referência única no mundo da fotografia e da própria cultura pop, numa época ainda muito distante da era digital.

Guy Bourdin nasceu a 02 de Dezembro de 1928. A infância marca-o pela ausência da mãe. Os pais separam-se na sua infância e aparentemente Bourdin vê a mãe uma única vez no restaurante do pai, quando o procura para lhe oferecer uma prenda. A partir desse momento, todo o seu contacto com a mãe é através de chamadas em cabines telefónicas, elemento este muito presente em algumas das suas fotos.

É na Força Aérea Francesa, durante o ano de 1948, enquanto cumpre serviço militar em Dakar, que recebe formação em fotografia e, daí em diante, toda a história se compõe para o fotógrafo que regressa a Paris dois anos depois. As primeiras fotos na Vogue Paris surgem em 1955, onde trabalha até 1987.

Os cenários dramáticos traduzidos em imagens cruas, traumáticas e a decadência de histórias completas numa única imagem, oferecem mensagens sofisticadas entregues ao consumidor de uma forma inimaginável e nunca vista.

Emoções traduzidas em imagens cinematográficas para as quais não conseguimos deixar de olhar, sinistras, surreais, provocadoras. Ao exceder fronteiras na fotografia comercial, Guy Bourdin mostra-nos que, enquanto consumidores, podemos ser inteligentes e que não há limites para a criação.

Este quebrar de limites é bastante latente na parceria com o designer de sapatos Charles Jourdain, entre 1967 e 1981.O seu olhar muito próprio do mundo feminino manifesta-se em imagens onde os sapatos se transformam em elementos secundários em relação à própria dramatização de cada fotografia.

Excêntrico e perfeccionista, Guy Bourdin é um dos exemplos de que é na complexidade de se ser humano que reside a nossa própria beleza. Que a arte não depende da categoria a que é suposta pertencer.

Guy Bourdin, que nunca quis expor ou publicar o seu trabalho para além das páginas das revistas, ensina-nos uma das mais ambíguas lições: a de que mais do que a complexidade do olhar do fotógrafo é a profundidade que reside dentro de nós, para além do nosso olhar observador, que devemos questionar.

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Carla Moreira

Fiz teatro e fui jogral de poesia há algumas luas. Gosto muito de pessoas. E de vários assuntos. E de assuntos que envolvam pessoas. Sou curiosa por natureza e tenho verdadeira paixão pela palavras.

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