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Gravidade Zero

“- Eu dou cabo de si!
– Está a ameaçar-me? Não tenho medo de si.
– Mas você devia!”

“Desliguem a televisão, por favor!” Gritou o Zeca visivelmente incomodado. Levantou-se do seu cadeirão e esbracejou violentamente até que os auxiliares do Instituto de Medicina Psiquiátrica o seguraram e o anestesiaram. Depressa o Zeca sentiu as forças fugirem e adormeceu. Foi apenas mais um episódio corriqueiro, tantas vezes já tinha acontecido. A sua noção de realidade há muito que se tinha desvanecido. Ouvia aquele diálogo na televisão e sabia que ninguém tratava outra pessoa por você enquanto a ameaçava. Aquilo era total ausência de qualidade num argumento já de si oco. Mas em tudo o resto…

Nas consultas uma tribo de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas perguntavam-se o que se estaria a passar na psique daquele paciente. Questionavam-lhe repetidamente, “Zeca, porque estás aqui?” A resposta era sempre a mesma, “Eu vi o meu melhor amigo a desmaterializar-se…” Todas as conclusões que se podiam tirar dali eram inócuas porque ninguém nele acreditava. No entanto, estranhamente, sabiam ler nele que a sua mente dizia a verdade. Essa diferença entre a impossibilidade científica ser possível na mente de uma pessoa, tornavam o Zeca no mais estudado dos pacientes do Instituto de Medicina Psiquiátrica. E tanto mais o era porque era o próprio Zeca que se mantinha ali internado, a seu pedido. Também ele tinha consciência de que aquele episódio que tanto o marcara, era cientificamente impossível. Mas sabia ter assistido àquela cena a acontecer. Não sabia explicá-la de outra forma que não o levasse a considerar-se institucionalmente dependente.

Mais uma vez o contou às paredes almofadas do seu quarto, quando acordou do efeito da anestesia que lhe haviam dado.

“Eu estava em Munique com o meu melhor amigo, o Márcio. Divirtiamo-nos na Oktoberfest e já tínhamos bebido umas canecas. A noite prometia loucuras e fomos dar uma volta para conhecer o recinto e as suas diversões. Andámos nas montanhas-russas e noutras atracções até que chegámos a uma que prometia a sensação de gravidade zero. Eu estava meio indisposto, mas convenci o Márcio a experimentar. Entrámos os dois e fiquei no piso superior a vê-lo. Entrou numa roda grande, toda de madeira. Estava com mais pessoas quando começou a girar. No início vi-o a sorrir, mas à medida que a velocidade aumentava e ele era atirado contra a parede, o sorriso desapareceu, os olhos fecharam-se e o rosto apagou-se. Girando cada vez mais rápido, as pessoas Márcio incluindo, estavam praticamente imóveis, atiradas contra a parede sem poderem reagir. Cada gesto parecia pesar dezenas de quilos e perante tal esforço, todas desistiam de os fazer. Eu cá em cima ria-me e já me via a gozar com ele por lá o ter metido sem mim. Que cena marada eu assistia. Mas depois o mundo começou a mudar. A velocidade com que a roda girava era cada vez maior. Era já absurda e prometia não abrandar. Autêntica máquina de centrifugação. Até já era difícil acompanhar o Márcio com os olhos. Foi então que vi, nitidamente, embora ninguém acredite. A roupa, os braços, a pele, o rosto, o olhar. Todo ele parecia espalmar-se contra a parede, transformando-o num corpo bidimensional. Depois, ainda reconhecível, vi minúsculos pedacinhos dele que apenas posso explicar como sendo grãos de energia a soltarem-se no ar em todas cores. Parecia que ele se estava a desintegrar, molécula após molécula, cada vez mais intensamente. Estava a desmaterializar-se perante os meus olhos e eu gelei de terror ao mesmo tempo que abismado com a extraordinária beleza daqueles feixes coloridos de energia que eram o meu melhor amigo. O ar ficou cheio de cores e ele desapareceu numa efusiva nuvem translúcida que rapidamente se tornou invisível. Finalmente a máquina começou a abrandar, as pessoas procuravam acordar e no lugar do Márcio, apenas o vazio. Ele tinha desaparecido. Gritei e clamei por ajuda. Durante semanas expliquei o que vira à polícia que procurava o Márcio, logo dado como desaparecido. Ao fim de algum tempo eles desistiram de o procurar. Ainda bem, porque ele jamais será encontrado. Ele não desapareceu, ele desmaterializou-se e a culpa foi minha, porque o meti naquela centrifugadora maldita…”

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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