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Grandes Filmes Que Nunca Veremos – Parte 2

A história do cinema está repleta de estórias rocambolescas. Muitas delas ajudaram a criar grandes obras-primas do cinema, outras contribuíram para fracassos facilmente olvidáveis. A indústria de Hollywood, com os seus jogos de poder, corrupção, dinheiro (ou falta dele), batalhas de egos, produtores poderosos, realizadores exigentes ou actores desinspirados, deram azo a conflitos, equívocos, derrotas e demais aventuras. Uma faceta da história do cinema que poucos conhecerão é o facto de ter havido, ao longo das décadas, inúmeros projectos de filmes que nunca saíram do papel. Grandes projectos de filmes de grandes realizadores, que, pelos motivos mais diversos, nunca foram concretizados. É esta faceta que irei desvendar nas próximas linhas.

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James Cameron e Spider-man

A HISTÓRIA: Em 1991, Stan Lee (da Marvel) e James Cameron reuniram-se em Los Angeles para abordar a possibilidade do realizador levar a cabo a adaptação cinematográfica de Spider-man. Cameron era já um realizador famoso, derivado dos filmes Terminator e Aliens. Stan Lee achava que Cameron seria o melhor realizador para o projecto, afirmando que só ele conseguia captar a essência de Spider-man.

O primeiro argumento escrito pelo realizador revelava um jovem Peter Parker a despertar para difícil puberdade, numa abordagem assaz kafkiana (segundo a opinião do próprio Cameron). Em 1995, parecia tudo encaminhado para a concretização do filme, mas as expectativas começaram a definhar com a luta da Sony, Carolco e MGM pelos direitos da BD e do filme.

CONCLUSÃO: O caso foi a tribunal, o qual só iria deliberar quatro anos depois a favor da Marvel e da Sony. James Cameron voltou a ser o candidato para se sentar na cadeira de realizador. No entanto, este disse que já tinha passado o tempo certo para levar a cabo o filme – estava a gozar a fama e o proveito do sucesso de Titanic feito dois anos antes e preparava-se já para trabalhar em Avatar. Na Internet, pode-se encontrar o argumento que Cameron escreveu, juntamente com dezenas de desenhos e esboços para o filme nunca realizado (que incluía uma cena de batalha nas Torres Gémeas).

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Alejandro Jodorowsky e Dune

A HISTÓRIA: Muito antes de David Lynch ter realizado o filme Dune (amado por uns, odiado por outros) em 1984, um outro cineasta maldito esteve quase para adaptar ao cinema, em 1974, a saga do escritor de Ficção Científica Frank Herbert: o chileno Alejandro Jodorowsky, autor de culto de alguns filmes mais surrealistas e bizarros de sempre (como El Topo, ou The Holy Moutain). Jodorowsky queria contratar o pintor e ilustrador H.R.Giger (criador de Alien) para dar vida às criaturas e aos cenários, Orson Welles para o papel do Barão e Salvador Dalí para o papel de imperador. Era um delirante projecto que esteve anos à espera de arrancar, apesar dos esforços de todos os implicados. A música para o filme seria dos Pink Floyd, Magma, Henry Cow e Karlheinz Stockhausen. O realizador chileno contava que, no total, o filme tivesse a duração de 14 (longas) horas.

CONCLUSÃO: Os poucos produtores que leram o argumento garantem que o filme era uma “verdadeira loucura”. Os direitos pelos filmes foram, entretanto, comprados pelo produtor Dino de Laurentis, de forma a entregar o projecto a David Lynch. Se o filme tivesse sido concretizado e tendo em conta a originalidade do cinema de Alejandro Jodorowsky, era possível que a sua versão de Dune fosse um dos filmes mais provocadores e surrealistas de sempre.

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David Lynch e Ronnie Rocket

A HISTÓRIA: Um ano depois de David Lynch ter feito Eraserhead, o realizador pensou na sequela. Chamar-se-ia Ronnie Rocket or The Absurd Mystery of The Strange Forces of Existence (só o título era todo um programa de intenções), um filme entre a ficção científica abstrata, a comédia negra e o terror mais bizarro. Lynch escreveu o argumento, fez esboços e contactou com o elenco de atores: Dean Stockwell, Brad Dourif, Jack Nance, Dennis Hopper, Harry Dean Stanton e Isabella Rosselini. O enredo de Ronnie Rocket, passada numa terra sombria e fantasmagórica, relatava a história de um ser disforme que tinha sido submetido a múltiplas operações cirúrgicas contra a sua própria vontade. Este projecto tinha ainda umas estranhas personagens chamadas “Donut Men”, que vestiam longas gabardinas pretas e que explodiam, quando alguém lhes dizia que tinham os atacadores desapertados (!). David Lynch dizia que se tratava de uma comédia negra absurda e abstrata.

CONCLUSÃO: O realizador tentou durante 20 anos concretizar este projecto, mas nunca conseguiu financiadores, até que desistiu.

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Paul Verhoeven e As Cruzadas

A HISTÓRIA: Paul Verhoeven, realizador holandês dos inenarráveis Showgirls e Starship Troopers, quis um dia aventurar-se num projecto megalómano: em 1997, Verhoeven apresentou ao estúdio a intenção de concretizar uma super-produção sobre a Guerra Santa das cruzadas medievais, intitulada precisamente As Cruzadas. Contactou com Arnold Schwarzenegger para interpretar o papel principal, Hagen, e entregou a responsabilidade do argumento a Walon Green, o responsável do guião da obra-prima The Wild Bunch, de Sam Peckinpah. Em 1998, tudo parecia estar preparado para o arranque do filme, elenco incluído: Charlton Heston, Robert Duvall e Jennifer Lopez.

CONCLUSÃO: Paul Verhoeven calculava que precisaria entre duzentos e trezentos milhões de dólares de orçamento para levar a cabo o projecto. Quando os produtores foram confrontados com esta colossal exigência financeira, a “cruzada” do realizador terminou aí. Ainda assim, em 2001, o projecto teve novos financiadores que poderiam impulsionar o início das filmagens, mas em Setembro desse ano um monumental atentado contra as Torres Gémeas levou tudo a perder de novo: a ideia de “Guerra Santa” para o filme não era, de todo, conveniente e apropriada explorar.

Depois destes anos todos, As Cruzadas de Paul Verhoeven mantêm-se no limbo do esquecimento…

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Victor Afonso

Músico, blogger, cinéfilo e programador cultural.

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