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Granada, o espírito da Andaluzia

Olhando do futuro para o passado, temi por Granada. Em 1491, o exército castelhano cercou a cidade, último reduto muçulmano na Península Ibérica. Durante quatro anos o Sul foi sendo paulatinamente reconquistado até restar apenas a bela e formosa cidade emoldurada pela Serra Nevada e encimada pelo Alhambra.

Granada não foi conquistada. Gosto de imaginar que Maomé XII, último monarca do emirado nascido, percebendo ser inevitável a capitulação do seu reino, olhou para o palácio que a sua família ergueu durante dois séculos, e perante a beleza que tinha diante de si, decidiu render-se pacificamente. Em 2 de janeiro de 1492, Maomé XII entrega as chaves da cidade, poupando-a a ataques e a qualquer tipo de pilhagem e destruição.

Hoje só posso agradecer à história por ter seguido este curso. A Granada que eu conheci não existiria de outra forma. Além da beleza incomparável do Alhambra, a cidade encerra em si uma identidade muito própria. É um segredo da Andaluzia, ainda que muito mal guardado. É um segredo porque cerca de 2,5 milhões de turistas ali chegam por ano para visitar o Alhambra, mas tenho a certeza que todos eles se surpreendem com os bairros históricos, a cultura e a vida da cidade. Todos eles ali chegaram por causa do Alhambra e todos eles perderam-se nas ruas para descobrir que Granada é muito mais.

Começando pelo Alhambra, não há muito a dizer. Trata-se de um conjunto que engloba palácios, fortalezas e jardins. Descrevê-los é exaustivo, apenas falo de um local específico, o Pátio dos Leões. No interior do palácio dos Nasridas, data de 1377. Foi construído como uma visão do paraíso com os seus quatro rios a fluírem para o centro do pátio. Os espaços arquitetónicos, as colunas de mármore branco, a fonte no centro, a decoração muçulmana, tornam impossível caracterizá-lo. Este é um daqueles muito raros locais cuja beleza é impossível de descrever. Apenas se pode ver, admirar, sentir em silêncio, assimilar todos os ângulos e agradecer por tanta beleza ali existir. Toda a beleza do Alhambra raia deste pátio e convida-nos a passar um dia inteiro a testemunhá-lo calmamente, por entre pessoas de todas as nacionalidades, gatos, sombras, odores frescos, e a cidade no fundo a chamar por nós.

Granada vista do Alhambra

09A cidade em si é para ser descoberta ao ritmo de cada um. Seja nas praças e largos junto da grande catedral e restantes igrejas pitorescas, seja pelos bairros históricos pejados de história e histórias. Dou o meu exemplo de um dia inesquecível para mim.

Encontrei um pequeno hotel no bairro Realejo. Hotel moderno e confortável, tem o condão de se situar num local perfeito para o que procurava. É um bairro essencialmente residencial mas igualmente pitoresco e cheio de motivos para se perder um pouco e, especialmente, é perto de todos os locais onde quer ir, sempre a pé, sem necessidade de qualquer transporte. Saí cedo, um pouco antes das 9 horas ainda algumas lojas estavam por abrir. A primeira paragem foi o Corral del Carbón, ali bem perto. Uma das últimas casas árabes que ainda persistem no cento da cidade. É um testemunho arquitetónico do século XIV, perfeitamente conservado e com as funções de centro cultural e turístico. Aqui estão os quiosques automáticos para facilmente levantar os bilhetes para visitar o Alhambra que reservei na internet, algo que vai quer fazer para evitar as infernais filas que se formam. Menos de 5 minutos depois já estava na Plaza Carmén e logo depois na Plaza Bib-Rambla. Aqui tomei um farto pequeno almoço numa das grandes esplanadas que rodeiam a praça. O calor já se aproximava dos 30 graus. Estava no centro e as ruas foram sendo percorridas lentamente. Perdi algum tempo em frente à fachada da Catedral de Granada, se é adepto entre, eu não o fiz mas devia. Preferi as ruas, as lojas. Encontrei uma de leques tradicionais da Andaluzia, da cultura flamenca, alguns pintados à mão ostentavam preços proibitivos.

A meio da manhã já tinha percorrido muitas ruas e praças. Tinha chegado ao Parque Jardines del Triunfo, um grande espaço aberto sobranceiro à universidade e uma espécie de porta para o centro. Era tempo de um necessário descanso, a partir daqui o caminho fazia-se a subir e a temperatura já passava dos 30 graus. Em pouco tempo as ruas retas com carros e lojas deram lugares a ruas estreitas e desordenadas com escadarias aqui e ali. Ofegante cheguei ao Miradouro de San Cristobál. Não é o mais belo porque não está de frente para o Alhambra mas é o mais alto e é uma porta de entrada para o Albaicin, o bairro histórico de origem árabe. Daqui para a frente, imagine Alfama cheia de arquitetura muçulmana. Cheia de arcos e azulejos com intrincados motivos geométricos. Uma sucessão cuidada de ruas estreitas, pátios, becos, escadarias, pequenos jardins, fontes, e muito turismo.

A presença da arquitectura muçulmana é uma constante no Bairro Albaicin

O Bairro de Albaicin é um daqueles locais para uma pessoa se perder. Apesar de altamente turístico, soube manter-se autêntico, genuíno, verdadeiro. Não teve que se embelezar para atrair as pessoas. Foram as pessoas que se atraíram pela sua beleza genuína. E isto percebe-se em cada casa caiada e em cada rua empedrada sem carros, sem superficialidades, sem falsidades. Até se chegar ao Miradouro de San Nicolás, este sim, de frente para o Alhambra para que este se possa mostrar em todos o seu esplendor. É um pequeno largo ajardinado onde encontra de tudo. Foi fácil deixar o tempo passar aqui. Vi grupos de orientais com selfie-sticks sem descanso, uma modelo e o seu fotógrafo profissional a usarem o Alhambra como fundo, grupos de jovens em pleno companheirismo, namorados a deixarem-se derreter pelo calor e paixão, pintores de rua, artesanato e bugigangas, e ciganos autênticos a cantarem o mais genuíno flamenco com as fortes guitarradas, palmas ritmadas e vozes gastas pela vida. Um local a fervilhar de vida.

A genuína cultura flamenca a animar o Miradór de San Nicolás

Para relaxar um pouco de toda a intensidade vivida no miradouro só precisa de andar um pouco. Não muito longe, já numa das ruas principais, encontra um muro branco com um grande portão de ferro. Do outro lado um dos segredos mais belos de Granada. Toquei à campainha e o portão abriu-se. Subi umas escadas e logo respirei um ar fresco que me tocou os sentidos. Estava numa carmen, num jardim. Quando em meados do século passado este jardim e edifício contíguos passaram para a posse da Universidade de Granada, o jardim foi sendo lentamente recuperado à melhor imagem e tradição hispano-muçulmana. Aqui protegi-me do intenso calor do sol do meio dia que atirava a temperatura para acima dos 35 graus, sentei-me sob as abóbadas verdes das árvores e deixei-me ficar a descansar. Comigo apenas o silêncio e o cantar de um fino fio de água de uma pequena fonte a refrescar-me os sentidos. Na minha frente, emoldurado pelos desenhos da carmen, o Alhambra. Facilmente uma pessoa perde a cidade para se deixar aqui ficar. A Carmen de la Victoria é um dos mais belos segredos de Granada e tanto o é que resisti até à última para indicar o nome do local. Desculpem-me o egoísmo mas não quero que mais ninguém o descubra, quero que se mantenha intocável e imutável como o conheci porque quero um dia lá voltar, porque vou um dia lá voltar.

A caminho do almoço, já perto das 14 horas foi altura de percorrer o pitoresco Paseo de los Tristes, assim chamado por aqui outrora correrem as procissões fúnebres a caminho do cemitério. É uma rua que corre ao longo do Rio Darro antes deste desaparecer sob a “nova” Granada. De um lado encontra algumas das mais belas fachadas da cidade, lojas de especiarias e outras, restaurantes e bares de tapas. Do outro lado, a encosta verdejante que suporta lá no alto o omnipresente Alhambra. Uma rua que vale a pena conhecer.

O Paseo de los Tristes

O resto da tarde foi passado no Albaicin. Ora a subir as ruas do bairro ora a descer sempre, por caminhos diferentes a descobrir novos recantos e pequenos pátios. Lá em cima o Miradouro de San Nicolás, lá em baixo o Paseo de Los tristes e o centro da cidade. Parei por fim na Calle Calderería Nueva. Apesar de eminentemente turística, encontra muito do artesanato local (procure bem para não o confundir com os tradicionais recuerdos). E é também onde encontra as melhores casas de chá árabes. Foi bom descansar por uma hora junto a uma janela aberta para a rua. Fiquei a observar um mestre em Henna, os tradicionais desenhos da cultura árabe aplicados na pele das mulheres muçulmanas, tradição agora comercializada. Raparigas faziam fila, namorados esperavam e eu beber um chá quente de frutas e a degustar uma shisha fresca.

O final de tarde foi com o regresso ao hotel para um retemperado banho. O jantar em Granada é outro dos seus segredos. Saí do hotel e dirigi-me a um jardim próximo que me fora referenciado. Uma fileira de bares de tapas dificultavam a escolha da esplanada. Sentei-me numa e pedi uma cerveja que como é normal por aqui, vem acompanhada de uma tapa. Um pouco mais tarde pedi nova cerveja. Oportunidade para conhecer alguns locais e outras pessoas, alguns dedos de conversa num inglês espanholado e num espanhol aportuguesado, fácil entendimento. Quando a noite caiu estavam 4 ou 5 cervejas bebidas e eu perfeitamente jantado com as tapas oferecidas. Um dos melhores momentos, a pausa, o dia a refrescar, a noite a cair, dedos de conversa, cerveja fresca e tapas deliciosas. Jantar bem em conta.

Depois de redescobrir algumas ruas e praças, agora com a vida notívaga, fui de encontro a outro dos segredos de Granada, o Hamman Al-Andalus, os banhos árabes. Bem perto do Paseo de los Tristes, e entrada por um normal edifício, no interior descobrimos um spa com aromas e sons milenares. Os antigos banhos árabes são hoje um conjunto de diferentes piscinas centenárias com águas de diferentes temperaturas, ambiente escuro, decoração genuinamente árabe e antiga, chá ao seu dispor, massagem profissional. Foi uma hora e meia em que recuperei o corpo que desgastei durante o dia ao mesmo tempo que mergulhava na história de um local, de uma cidade, de uma cultura. Imperdível! A melhor maneira de terminar o dia ou apenas como o prolongar. Saí dos banhos árabes retemperado, em paz comigo e ali bem perto os bares convidavam a libertar o espírito.

Assim tão fácil se passou um dia em Granada, deixando tanto ainda para descobrir. Uma cidade convidativa, autêntica, com uma beleza incomparável e… silêncio, é segredo… uma cidade tão cheia de segredos.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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