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Gore Vidal: o americano “esquecido”

É do conhecimento público o amor patriótico que une os Estados Unidos da América. No entanto, são histórias como as de Gore Vidal, “reconhecido” escritor norte-americano, que passam ao lado da opinião pública.

Vidal foi um clássico da literatura na América do Norte. Ainda que da mesma geração de Truman Capote e Norman Mailer, não alcançou tamanha fama. Talvez pelo seu gosto especial pela provocação e crítica aos políticos e intelectuais americanos, ou se calhar, por ter assumido a sua homossexualidade, o autor nunca viu a importância das suas obras verdadeiramente reconhecida.

Ao longo da sua vida, foram vários os episódios escandalosos que o envolveram. Livros mais audazes e comentários mais cruéis do que a sociedade americana esperava, levaram a que Vidal fosse apagado por algum tempo da memória dos EUA. No Verão de 2012, o também dramaturgo e guionista faleceu. Ainda que não tenha agradado a todos, esta foi uma morte imperativa da agenda mediática e até os mais críticos tiveram de relembrar o grande Gore Vidal.

O seu percurso crítico começou em 1948, altura em que publicou o seu terceiro romance intitulado A cidade e o Pilar. Um livro muito controverso entre os críticos literários e o público, pois contava a história de dois jovens, sem problemas psicológicos, que mantinham uma relação homossexual. No final da trama, o casal apaixonado vivia feliz sem, como era habitual na época, ser punido por isso. O livro dedicado a “J.T”, foi um indício de que também Vidal era homossexual. Contudo, só anos mais tardem, antes da rebelião gay em Nova Iorque, em 1969, se veio a confirmar a suspeita sobre a sua orientação sexual. O autor assumiu a sua homossexualidade publicamente, afirmando ainda que “J.T” eram as iniciais de Jimmy Trimble, o amor da sua vida, que falecera em Itália.

Orville Prescott, crítico literário do New York Times, achou A cidade e o Pilar tão desagradável que não só se recusou a escrever sobre ele, como também, proibiu o jornal de fazer críticas dos cinco livros de Vidal que se seguiram. A partir de então, o escritor começou a assinar as suas obras com um pseudónimo, de forma a continuar a defender a sua condição social.

“A homossexualidade é tão natural quanto a hetero. Repare que eu uso a palavra natural e não normal”, afirmou à revista Esquire.

Gore ficou ainda conhecido pelos seus comentários polémicos. Cara assídua dos debates televisivos, o escritor e dramaturgo foi candidato ao Congresso por duas vezes, tendo saído de ambas derrotado.

O escritor criticou publicamente a participação dos EUA na Segunda Guerra Mundial e acusou o governo de Bush de ser o responsável pelos ataques de 11 de Setembro contra as Torres Gémeas. Na memória, fica ainda a sua opinião sobre o ex-Presidente dos EUA, George W. Bush, que considerava ser “o homem mais idiota dos EUA”.

“Estados Unidos da Amnésia” era a forma como se referia ao seu país, numa clara referência ao silêncio que se fez sentir à sua volta aquando da descoberta da sua homossexualidade e da audição de algumas das suas opiniões sobre o Governo. Um silêncio que ainda hoje se faz sentir naquele país, não só em relação a Gore Vidal, como também aos homossexuais, que ainda são vistos como sendo uma “aberração social curiosa” e seres individuais “anormais”.

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Raquel Loureiro

Sou uma amante incondicional do verbo comunicar licenciada em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior. O gosto pelo jornalismo começou bem cedo. Escrever sempre foi um hobbie, hoje é a minha profissão. Actualmente estou a tirar mestrado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Gosto de viajar, conhecer novas culturas, novas perspectivas,outros mundos.

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