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Gin ou Whisky para amanhã? Parte 2

Se os escoceses optarem pela independência, as armas de Isabel II, que têm sido usadas desde 1837, no reinado da rainha Vitória, vão com certeza ser redesenhadas. A prova do predomínio inglês é a disposição dos brasões dos países, que formam o Estado britânico, no escudo composto. Se vencer o «Não», os símbolos nacionais não serão mexidos.

Embora Isabel ll use armas compósitas, a verdade é que são de fácil leitura. Outras casas reais têm representações mais complexas. Após a independência escocesa – caso se verifique – os monarcas poderão passar a ostentar algo mais complexo. Exceptuando a Escócia, a representação heráldica do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte tem, no primeiro e quatro quadrantes, os leopardos de ouro de Inglaterra, no segundo, o da Escócia, o leão e, no terceiro, a harpa do reino da Irlanda – apesar da monarquia britânica já não ter esse Estado em sua posse, apenas o grosso da região histórica do Ulster.

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Contudo, quando os monarcas britânicos visitam a Escócia, a sua presentação heráldica é diferenciada. No primeiro e quarto quadrantes, está o leão escocês, no segundo, os leopardos de Inglaterra e, no terceiro, a harpa irlandesa.

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Apesar do acto de união com o País de Gales ser o mais antigo e o seu senhor o príncipe herdeiro, este território não tem representação nas armas reais. Gales ocupa a maior parte do Estado paleo-medieval da Mécia e alguns senhorios medievais, quer anglo-saxónicos, quer normandos.

O País de Gales foi um principado independente de 1282 até 1542 – há historiadores que colocam a data terminal em 1536. A dúvida quanto à data do final da independência de Gales deve-se ao facto de se terem assinado dois Actos de União – um em 1535 e outro em 1542.

Gales foi conquistado pelo rei Eduardo I de Inglaterra, em 1282. O seu filho e sucessor, Eduardo II, criou a tradição, em 1301, do herdeiro do trono ser príncipe de Gales. O território, embora dominado pelos ingleses, era considerado como um Estado à parte.

A independência da Irlanda foi a mais tumultuosa, não estando de facto resolvida – ou melhor, não estando a ilha unificada num só Estado. O papa Adriano IV autorizou Henrique II de Inglaterra a invadir a ilha. O Acto de União realizou-se em 1800 e, em 1880, já se davam confrontos pela libertação. A independência deu-se por completa em 18 de Abril de 1949.

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Os reis britânicos ostentam o brasão da harpa, que é simultaneamente usado pela república da Irlanda. Esse facto não é novo e é, aliás, muito frequente ao longo da história da Europa. Ainda que ocupe o grosso da região histórica do Ulster, as armas da Irlanda do Norte não coincidem com as desse território.

Bem, mas a elaboração de novas armas tem várias possibilidades. Uma delas poderá ser a mera substituição do brasão da Escócia pelo do País de Gales, que não se mostra no escudo, nem na bandeira nacional. Com o decorrer dos anos, as monarquias e as famílias dinásticas começaram a ostentar cada vez mais brasões nas suas armas – note-se que o brasão (escudo) começou por ser um símbolo pessoal e de fácil leitura na guerra, tornando-se depois familiar e territorial.

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A designação da dinastia britânica é Windsor, mas na verdade é uma criação recente. Usando o critério germânico, que vigorou e ainda vigora em parte na Europa, a casa reinante é a de Saxe-Coburgo-Gota. A guerra com a Alemanha tornou o apelido politicamente incorrecto. Essa mesma dinastia reinou em Portugal desde Dona Maria II, que se casou com Fernando II, da casa de Saxe-Coburgo-Gota. Por Dom Manuel II ter morrido sem descendência, o ramo que se foi buscar colocaria os Braganças como monarcas.

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As armas de Saxe-Coburgo-Gota são, de facto, complexas, embora se possam sintetizar no brasão que domina todos os outros, que é o da Saxónia (Saxe).

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O actual príncipe de Gales, Carlos Windsor, será fundador duma nova dinastia, derivado do facto de herdar o trono por via feminina.

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Filipe de Edimburgo, rei consorte, está ligado às casas reais da Dinamarca e da Grécia (também derivada da Dinamarca) e à família condal alemã de Battenberg, que, devido ao conflito com a Alemanha, alterou a designação para Mountbatten.

Este consorte inglês é representado heraldicamente, no primeiro quadrante, pelo brasão da Dinamarca, no segundo pelo da Grécia, no terceiro por Mountbatten (diferente do usado pelos parentes Battenberg) e, no quarto, pelo da cidade de Edimburgo.

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Outros brasões candidatos a entrarem na representação do Reino Unido pós-independência da Escócia são provenientes da Dinamarca, ou da Grécia, que é um ramo da família real dinamarquesa.

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Os monarcas da Dinamarca ostentam, além dos brasões dos seus territórios, símbolos de terras que não lhe pertencem e até mesmo simbólicas. Não querendo entrar nas «cabalísticas» definições heráldicas, as armas reais são formadas por «três camadas». A base mostra, no primeiro quadrante, o brasão da Dinamarca, no segundo, o do Schleswig, no terceiro, os da Suécia (três coroas), das ilhas Faroé (carneiro) e da Gronelândia (urso) e, no quarto, o reino dos Godos e o do reino dos Vendos. Sobrepõe-se a cruz da Ordem de Dannebrog e, sobre esta, a «segunda camada». No primeiro quadrante, está Holstein, no segundo, Ditmársia, no terceiro, Storman e, no quarto, Lauenburgo. Em cima de todos, está o brasão da dinastia de Oldenburgo.

As armas do reino da Grécia não são muito diferentes. Na «primeira camada», no terceiro quadrante, está um brasão vermelho com «uma coisa esquisita» de prata. Trata-se dum bacalhau, armas antigas do reino da Islândia. Na «terceira camada», junta-se a Oldenburgo o brasão Delmenhorst.

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A título de curiosidade, a antiga rainha-mãe Sofia de Espanha é prima de Filipe de Edimburgo e herdeira da coroa da Grécia. Após a independência, a primeira escolha dos gregos para monarca foi Dom Pedro, que reinou como IV em Portugal e como primeiro no Brasil, mas que recusou. Viraram-se, então, para a Casa Real da Baviera, tendo sido nomeado o príncipe Otão de Wittelsbach. A incapacidade de Otão I fez com que fosse deposto e fosse nomeado um elemento da Casa Real da Dinamarca, o príncipe Guilherme (conhecido pelo segundo nome próprio), que reinou como Jorge I.

Contas a ter em conta nas contas da independência

Os números da economia do Reino Unido, no total, e da Escócia, em particular, não são lá muito fáceis de encontrar. O Produto Interno Bruto Nominal (que tem em conta a inflação) é calculado de forma diferenciada pelos organismos públicos, Organização das Nações Unidas (ONU), Banco Mundial (BM), Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela Central Intellingence Agency (CIA). A solução melhor seria a de usar os dados do Eurostat, que são os oficiais na União Europeia. Porém, a análise vem desagregada por regiões estatísticas. Para se ter uma ideia não é preciso ir ao pormenor.

Da análise das várias fontes, conclui-se que o PIB Nominal do Reino Unido ultrapassa um pouco os 2,5 biliões (billion europeu) de dólares norte-americanos (1,94 biliões de euros) e que o da Escócia quase chega aos 245,3 mil milhões de dólares norte-americanos (190 mil milhões de euros). O petróleo é a maior riqueza do reino setentrional da Grã-Bretanha, mas, entre as várias fontes de riqueza relevantes, encontra-se o whisky, que significou, na última década, uma média 6,8 mil milhões de dólares norte-americanos (mais de 5,3 mil milhões de euros), de acordo com o governo escocês – algumas fontes referem outros montantes. Este destilado representa 25% das exportações escocesas.

Quanto a rendimento per capita, relativo a 2013, é em Inglaterra onde se verifica maior receita (31.515 dólares), seguida da Escócia (30.468 dólares), Irlanda do Norte (24.374 dólares) e Gales (22.903 dólares) – de acordo com informações da administração do país. Para se ter uma ideia, em Portugal, é de 23.068 dólares (dados do Fundo Monetário Internacional).

Diferentes analistas têm-se debruçado sobre o impacto da cessação. Os mercados penalizaram as taxas de juro espanholas, derivado à questão catalã. O Crédit Suisse e o Goldman Sachs avisam que haverá recessão na Escócia, como no país que deixará para trás. Contudo, há também economistas que prevêem crescimento do PIB escocês acima dos 3%. Pior parece ficar sempre o reino de Isabel II.

Uma visão pessoal

Costuma-se dizer que os jornalistas têm de ser imparciais. Não é verdade. Os jornalistas podem ter todas as convicções. O que tem de ser imparcial é o trabalho jornalístico. Acho que esse propósito consegui cumprir. Agora torno público o meu desejo – espero que ganhe o «Sim» e, nestes últimos dias, tenho sido João MacBarbosa.

À parte da brincadeira, a Escócia é um país especial. O cinema tem-no transmitido, mas também glosado, exagerado, maquilhado. A razão está na nostalgia de descendentes de escoceses com cidadania norte-americana. Disse-me uma vez um irlandês que os seus conterrâneos e os escoceses gozavam um bocado com os americanos em digressão pela busca das origens nas ilhas britânicas. Segundo ele, até negros procuram antepassados ruivos.

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Independentemente de Hollywood, a Escócia é mesmo um país especial, cujo verde da natureza só encontrei par na Irlanda. Edimburgo é a capital histórica, embora Glasgow seja a principal e mais populosa cidade. Em 2002, fui pela primeira vez à Escócia, a Edimburgo, e rendi-me à cidade onde se pressente o mar, que dificilmente se alcança com o olhar. O centro de visitas é a Royal Mile, que liga o castelo ao palácio real de Holyrood. É uma rua comprida, às vezes recta e outras torta. Conta-se a lenda que a Rainha Maria, rival de Isabel I de Inglaterra, tomava banhos de vinho branco, que depois era vendido a bom dinheiro a… como definir?

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O núcleo mais antigo desenvolve-se para os lados da Royal Mile. Hoje os edifícios normais têm quatro, ou cinco andares, mas há muitos pisos que foram sendo tapados pelo tempo. Antes do alargamento da cidade, nos séculos XVIII e XIX, havia prédios com 17 e 18 andares. Está lá tudo e há visitas guiadas.

A Escócia é a terra dos fantasmas e os edimburgueses tiram partido disso, promovendo excursões a cemitérios, sítios assombrados, percursos sinistros. Todavia, os guias não são meros cicerones. Trabalho exercido quase sempre por jovens, sendo muitos formados em História, pelo que não é um caminho de voz gravada.

Comi sempre bem na Escócia, incluindo haggis, um pudim feito com bucho de ovelha, recheado com vísceras e unido com farinha de aveia. Antes que alguém diga «blheck», lembro a dobrada, o sarrabulho, os torresmos do redenho, as moelas, a tripa de porco que envolve os enchidos. Só se o leitor também disser «blheck» as estas especialidades portuguesas é que pode enojar-se com o haggis. É delicioso! Outra iguaria é a carne de bovino de raça angus, embora dispersa pelo mundo, é particularmente saborosa nos seus campos originais.

Quanto ao povo, o escocês é simpático sem se desfazer em simpatias, ou salamaleques. É, sobretudo, bem-educado – é a minha experiência em várias visitas. O famoso sotaque existe mesmo e só não percebe quem não quer… mais ou menos.

Os citadinos e as pessoas com maior educação formal falam um inglês absolutamente acessível. O problema são os outros. Um dia, naJB_whiskyegin_destilariabowmore_edimburgo4 destilaria da Famous Grouse – não é uma perdiz, é um tetraz – deu-me a sede, daquela verdadeira que só a água é capaz de matar. Pedi um copo de água e o «embaixador» da marca chamou um operário para me indicar o caminho até um ponto de água e copo. O operário era muito sorridente e conversador, foi falando comigo e eu fiz como os chineses: sorri. Não percebi nada e só me lembrava do anúncio do gato Napoleão e das Whiskas Saquetas… blá, blá, blá, Whiskas Saquetas.

Outro aspecto engraçado na fala é que os escoceses pronunciam as palavras muitas vezes como nós faríamos, se não tivéssemos em mente a língua inglesa que aprendemos na escola. Vou tentar: Famous Grouse, em vez de feimous grause, dizem famous grouse, ou Belvenie, em vez de bálveni pronunciam balvéni.

Na primeira vJB_ginouwhiskyparaamanha_3isita a Speyside admirei-me com uma construção em forma de pagode chinês. Antes que perguntasse, vi outro, outro, outro… são as chaminés das destilarias, conhecidas por pagode. Tenho pena de não ter ido muito acima do começo das Terras Altas, em Speyside, que é uma região demarcada de whisky, mas que geograficamente fica nas Highlands. Não fui ao Lago Ness para ver o monstro lendário – Deus queira que exista!

Estive no Loch Lomond, cruzado pela linha de fronteira entre as Highlands e o Central Belt – o eixo entre Edimburgo e Glasgow. É um local que me evoca a infância, pois o whisky favorito do Capitão Haddock chama-se Loch Lomond.

Há muitas formas de se apreciar um lugar e muitas mais de o descrever. O que se sente é só nosso e, por isso, tenho a minha Escócia, que é intransmissível e que não irei dissertar, pois vale por mim. Digo que o meu coração ficou em Edimburgo.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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